‘Historas’

HISTÓRIA

O senhor do monóculo
usava uma boca desdenhosa
e na botoeira, a insolência
duma rosa.

Era o poeta.

Quando passava
– figura subtil e correcta,
toda a gente dizia
que era o poeta.

– Era, portanto, o poeta…

Mas um dia
o senhor de monóculo
quebrou o monóculo,
guardou a boca desdenhosa
e esqueceu na mesa de cabeceira
a flor que punha na botoeira,
a insolente rosa…

Entrou nas tabernas e bebeu,
cingiu o corpo das prostitutas,
jogou aos dados e perdeu,
deu a mão aos operários,
beijou todos os calvários
– e aprendeu.

E o mundo,
que o chamava poeta,
esqueceu;
e quando o via passar
limitava-se a exclamar:
– o vagabundo!

Mas o senhor do antigo monóculo,
da antiga figura subtil e correcta,
sentia vozes dentro de si,
vozes de júbilo que diziam:
– É o Poeta! É o Poeta!…

– Herberto Helder, poema escrito enquanto estudante numa parede da Real República Palácio da Loucura, Rua Antero de Quental, 21, Coimbra.

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