Red wine

Roland Baege

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Buracos

«Um lobo, mas também um buraco, são partículas do inconsciente, apenas partículas, produções de partículas, trajetos de partículas, consideradas como elementos de multiplicidades moleculares. Não basta nem mesmo dizer que as partículas intensas e movediças passam por buracos; um buraco é tão partícula quanto o que por ele passa. Os físicos dizem: os buracos não são ausências de partículas, mas partículas que andam mais rápido do que a luz. Ânus voadores, vaginas rápidas, não existe a castração.»

«A hora da tarde na qual mil buracos se abrem na superfície da terra.»

– D&G, “Mille Plateaux”.

Escrever não é senão loucura

«O problema é saber em que direção vão os fios que tecem a escrita. Sobre esse ponto, a escrita posterior ao século XIX existe manifestamente para ela mesma e, se necessário, ela existiria independentemente de todo consumo, de todo leitor, de todo prazer e de toda utilidade. Ora, essa atividade vertical e quase intransmissível da escrita assemelha-se, em parte, à loucura. A loucura é, de algum modo, uma linguagem que se mantém na vertical, e que não é mais a palavra transmissível, tendo perdido todo o valor de moeda de troca: seja porque a fala perdeu todo o valor e não é desejada por ninguém, seja porque se hesita em servir-se dela como de uma moeda, como se um valor excessivo lhe tivesse sido atribuído. […] Essa escrita não circulatória, essa escrita que se mantém de pé é justamente um equivalente da loucura. […] Por trás de todo escritor esconde-se a sombra do louco que o sustenta, o domina e o recobre. Poder-se-ia dizer que, no momento em que o escritor escreve, o que ele conta, o que ele produz no próprio ato de escrever não é outra coisa senão a loucura. Esse risco de que um sujeito ao escrever seja levado pela loucura… é justamente a característica do ato de escrita. É quando encontramos o tema da subversão da escrita. Penso que se possa ligar o caráter intransitivo da escrita, de que fala Barthes, a esta função de transgressão.»

– FOUCAULT, “Dits et Écrits”, 1994, p.982.

Crença

«O interesse prático é de tal ordem que a relação entre a representação e um objecto não forma um conhecimento [como o interesse especulativo], antes designa algo a realizar. (…) Uma crença é uma proposição especulativa, mas que não se torna assertória senão pela determinação que recebe da lei moral. Por isso, a crença não remete para uma faculdade particular, antes exprime a síntese do interesse especulativo e do interesse prático, ao mesmo tempo que a subordinação do primeiro ao segundo. Donde a superioridade da prova moral da existência de Deus sobre todas as provas especulativas. Pois, enquanto objecto de conhecimento, Deus só é determinável indirecta e analogicamente (como aquilo de que os fenómenos tiram um máximo de unidade sistemática); mas, enquanto objecto de crença, adquire uma determinação e uma realidade exclusivamente práticas (autor moral do mundo). (…) Kant recorda constantemente a insuficiência da teleologia natural como fundamento de uma teologia: a determinação da Ideia de Deus à qual chegamos por esta via dá-nos apenas uma opinião, não uma “crença”.»

– Deleuze, “A Filosofia Crítica de Kant”, p. 49, 50, 76.