A cultura humana ainda nem sequer existe

«O problema fundamental da filosofia política permanece aquele que Spinoza soube colocar: “Por que os homens combatem pela sua servidão como se fosse sua salvação?” Como se chega a gritar: ainda mais impostos! Menos pão! Como diz Reich, o espantoso não é que pessoas roubem, que outros façam greve, mas antes que os famintos não roubem sempre e que os explorados não façam sempre greve: por que os homens suportam desde séculos a exploração, a humilhação, a ponto de querer isso, não apenas para os outros mas para si próprios? Nunca Reich foi maior pensador do que quando recusa invocar um desconhecimento ou uma ilusão das massas para explicar o fascismo, e pede uma explicação pelo desejo, em termos de desejo: não, as massas não foram enganadas, mas desejaram o fascismo nesse momento, nessas circunstâncias, e é isso que é preciso explicar, essa perversão do desejo gregário.»

– DELEUZE & GUATTARI, “O Anti-Édipo”, 1976, pp. 46 e 47.

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«Chamam-te “Zé Ninguém!” “Homem Comum” e, ao que dizem, começou a tua era, a “Era do Homem Comum”. Mas não és tu que o dizes, Zé Ninguém, são eles, os vice-presidentes das grandes nações, os importantes dirigentes do proletariado, os filhos da burguesia arrependidos, os homens de Estado e os filósofos. (…)

O grande homem é, pois, aquele que reconhece quando e em que é pequeno. O homem pequeno é aquele que não reconhece a sua pequenez e teme reconhecê-la; que procura mascarar a sua tacanhez e estreiteza de vistas com ilusões de força e grandeza, força e grandeza alheias. Que se orgulha dos seus grandes generais, mas não de si próprio. Que admira as idéias que não teve, mas nunca as que teve. Que acredita mais arreigadamente nas coisas que menos entende, e que não acredita no que quer que lhe pareça fácil de assimilar. Comecemos pelo Zé Ninguém que habita em mim: Durante vinte e cinco anos tomei a defesa, em palavras e por escrito, do direito do homem comum à felicidade neste mundo; acusei-te pois da incapacidade de agarrar o que te pertence, de preservar o que conquistaste nas sangrentas barricadas de Paris e Viena, na luta pela Independência americana ou na revolução russa. Paris foi dar a Pétain e Laval, Viena a Hitler, a tua Rússia a Stalin, e a tua América bem poderia conduzir a um regime KKK – Ku-Klux-Klan. Sabes melhor lutar pela tua liberdade que preservá-la para ti e para os outros. Isto eu sempre soube. O que não entendia, porém, era porque de cada vez que tentavas penosamente arrastar-te para fora de um lameiro acabavas por cair noutra ainda pior. Depois, pouco a pouco, às apalpadelas e olhando prudentemente em torno, entendi o que te escraviza: ÉS TU O TEU PRÓPRIO NEGREIRO. A verdade diz que mais ninguém senão tu é culpado da tua escravatura. Mais ninguém, sou eu que te digo! Esta é nova, hein? Os teus libertadores garantem-te que os teus opressores se chamam Guilherme, Nicolau, papa Gregório XXVIII, Morgan, Krupp e Ford. E que os teus libertadores se chamam Mussolini, Napoleão, Hitler e Stalin. Mas eu afirmo: Só tu podes libertar-te. (…)

Sei que não me entendes ainda quando te falo na “liberdade de ser escravo de quem quer que seja” (…) É, portanto, necessário fundar um partido revolucionário de liberdade sob a égide de um homem verdadeiramente grande, seja ele Jesus Cristo, Marx, Lincoln ou Lenin. (…) Para te poder guiar, terá de conseguir que o transformes num Deus inacessível, pois que jamais obteria a tua confiança se permanecesse o simples homem que é, um homem a quem fosse, por exemplo, possível amar uma mulher sem estar casado com ela. E assim engendras um novo amo. Promovido ao seu novo papel senhorial, eis que o grande homem mingua, pois que a grandeza lhe estava na inteireza, simplicidade, coragem e proximidade da vida. Os seus medíocres acólitos, grandes mercê da aura dele, assumem os altos cargos das finanças, da diplomacia, do governo, das ciências e das artes – e tu ficas onde estavas: no lameiro, pronto a esfarrapares-te novamente em nome do “futuro socialista” ou do “Terceiro Reich”. Continuarás a viver em barracas com telhados de palha e paredes rebocadas de estrume, mas muito ufano dos teus palácios da cultura. Basta-te a ilusão de que governas – até que sobrevenha a próxima guerra e a queda dos novos tiranos. Em países distantes, homens medíocres estudaram com afinco a tua ânsia de ser escravo e descobriram como tornar-se grandes homens medíocres com um mínimo de esforço intelectual. (…) E em vez de liberdade pessoal prometem-te liberdade nacional. Não te prometem dignidade pessoal mas respeito pelo Estado; grandeza nacional em vez de grandeza pessoal. (…) Sacrificam-te a um símbolo e és tu próprio quem lhes confere o poder que exercem sobre ti. Ergueste tu próprio os teus tiranos, e és tu quem os alimenta, apesar de terem arrancado as máscaras, ou talvez por isso mesmo. Eles mesmo te dizem clara e abertamente que és uma criatura inferior, incapaz de assumir responsabilidades, e que assim deverás permanecer. E tu nomeia-los novos “salvadores” e dá-lhes “vivas”. É por isso que eu tenho medo de ti, Zé Ninguém, um medo sem limites. (…) Terás que entender que és tu quem transforma homens medíocres em opressores e torna mártires os verdadeiramente grandes; que os crucificas, os assassinas e os deixas morrer de fome; que não te ralas absolutamente nada com os seus esforços e as lutas que travam em teu nome; que não fazes a menor idéia de quanto lhes deves do pouco de satisfação e plenitude de que gozas na vida. (…)

O grande homem ama-te simplesmente como criatura humana, ser vivo. Deseja apenas que cesse o teu sofrimento milenar. Que cales o teu milenar cacarejo. Que não mais sejas besta de carga como o tens sido, porque ama a vida e desejaria vê-la liberta do sofrimento e da ignomínia. És tu que levas os homens verdadeiramente grandes a desprezarem-te, a retirarem-se com tristeza do teu convívio medíocre, a evitarem-te e, pior de tudo, a terem compaixão de ti. Se fosses psiquiatra, Zé Ninguém, um Lombroso, por exemplo, tentarias esmagá-los como a criminosos irrecuperáveis ou psicóticos. Porque os objetivos da vida dum grande homem são diversos dos teus – não consistem na acumulação. de bens, nem no casamento socialmente adequado das filhas, nem na sua carreira política, nem na obtenção de honras acadêmicas ou do Prêmio Nobel. (…) Zé Ninguém, tu estás sempre do lado dos opressores. (…)

Eu gostaria apenas que fosses tu próprio. Tu próprio, em vez do jornal que lês ou da balofa opinião do vizinho. (…)

Começas a perceber como funcionas, Zé Ninguém? Ainda não? Ora tentemos novamente. As “condições econômicas” do teu bem-estar na vida e no amor, confundiste-as com “mecanização”; a emancipação dos homens, com “grandeza do Estado”; o levantamento das massas, com o desfilar da artilharia; a libertação do amor, com a violação de todas as mulheres a que pudeste deitar a mão ao chegar à Alemanha; a eliminação da pobreza, com a erradicação dos pobres, dos fracos e dos desadaptados; a assistência à infância, com a “formação de patriotas”; o controle da natalidade, com medalhas às “mães de dez filhos”. (…) És assim, Zé Ninguém. Mas ninguém se atreve a dizer como és. Porque se tem medo de ti, Zé Ninguém, e se quer que te mantenhas pequeno. (…)

… tal como Jack London te disse no seu livro Martin Eden. Sei que o leste milhares de vezes, mas sem o entender: “Gênio” é a marca registrada do produto quando passa a estar à venda. (…) Sem dúvida que te agrada possuir “gênios” e render-lhes a devida homenagem. Mas queres um gênio bom, um homem de moderação e decoro, sem fantasia, isto é, um gênio comedido e adaptado, não um gênio rebelde e livre, capaz de quebrar as tuas barreiras e limitações. Queres o gênio limitado, tratável, uma máscara que possas passear sem medo e em triunfo pelas ruas das tuas cidades. És assim, Zé Ninguém. Bom na acumulação e no dispêndio, mas incapaz de criar. E é por isso que és o que és, toda a vida fechado num escritório solitário ou agarrado ao estirador, preso no colete-de-forças conjugal, ou professor das crianças que odeias. Incapaz de progredir ou de gerar algo de novo, porque és capaz de servir-te do que outros te oferecem em bandeja de prata. (…)

Um outro exemplo que demonstra a forma como destróis a tua liberdade: tu sabes e eu sei e todos sabemos que vives num estado de permanente frustração sexual; que facilmente encaras com avidez qualquer membro do outro sexo; que as conversas que tens com os amigos sobre temas sexuais se resumem ao repertório de anedotas obscenas; que, em suma, a tua imaginação é, sobretudo, pornográfica. Uma noite ouvi-te passar berrando com os teus amigos pela rua fora: “Nós queremos mulheres! Nós queremos mulheres!” Dado que o teu futuro faz parte das minhas preocupações, tentei criar instituições onde pudesses compreender melhor a tua miséria e modificá-la. Tu e os teus amigos vieram, em magotes, a reuniões que organizei no âmbito dessas instituições. E sabes porque foi assim, Zé Ninguém? Ao início cheguei a pensar que te movia um genuíno interesse, a vontade de dares novo sentido à tua vida. Só mais tarde entendi o que realmente te motivara. Pensavas que irias encontrar uma nova forma de bordel, onde seria fácil encontrar uma rapariga sem gastar um tostão. E quando o entendi, destruí por minhas próprias mãos as instituições que criara tentando ajudar-te. Não porque me pareça que haja algo de errado no fato de poderes encontrar uma rapariga nessas reuniões, mas porque a intenção com que vinhas a essas reuniões era vil. Por isso as destruí, por isso mais uma vez ficaste onde estavas… (…)

Na tua mente tudo se perverte. Aquilo a que eu chamo um ato de amor, é, na tua vida, um ato pornográfico. E nem sequer sabes do que estou a falar, Zé Ninguém. E é por isso que sempre retornas ao lameiro. (…)

Fazes uma idéia, Zé Ninguém, de como se sentiria uma águia que estivesse a chocar ovos de galinha? De começo a águia julga que está a chocar apenas pequenas águias que virão a tomar volume idêntico ao seu. Mas o que acaba por sair são sempre frangos. Desesperada, a águia espera que os frangos ainda possam vir a ser águias. O tempo passa e o que finalmente surge são galinhas cacarejantes. Então, nasce na águia a tentação de comer frangos e galinhas de uma assentada, e apenas uma pequena réstia de esperança a impede de o fazer. A esperança de que um dia surja do bando de frangos uma pequena águia capaz de sondar a distância a partir dos píncaros, de detectar novos mundos, novas formas. de pensar e viver. E só esta esperança impede a triste e solitária águia de devorar os frangos e galinhas, que nem sequer se dão conta de que uma águia os sustenta e acolhe, que vivem num íngreme rochedo, bem acima dos vales perdidos. Nunca olharam para a distância como a águia solitária. Limitaram-se a engorgitar dia após dia o que a águia lhes trazia de alimento. Deixaram-se aquecer debaixo das suas asas poderosas sempre que chovia ou trovejava, enquanto ela suportava a tempestade sem qualquer proteção. Ou chegaram a atirar-lhe pedras pelas costas, nos piores dias. Quando deu por isso, o primeiro impulso foi desfazê-los, mas, pensando melhor, encheu-se de compaixão. Esperava ainda que algum dia haveria de surgir dos muitos frangos míopes e cacarejantes uma pequena águia capaz de a acompanhar. Até hoje, a águia ainda não desistiu, de modo que, continua a criar frangos. Tu não queres ser águia, Zé Ninguém, e é por isso que és comido pelos abutres. Tens medo das águias, e é por isso que vives em grandes bandos e és comido em grandes bandos. Porque algumas das tuas galinhas chocaram os ovos de abutre e os abutres foram então os teus chefes contra as águias, as águias que desejariam ter-te levado mais longe, mais alto. Abutres que te ensinaram a comer cadáveres e a contentar-te com alguns grãos de trigo, a berrar: “Viva, Viva, Abutre!”. E apesar das tuas privações e da tua condenação aos milhares, continuas a ter medo das águias que protegem os teus frangos. (…)

Perguntas porque é assim, porque és assim? Não creio que ponhas a questão a sério e vais odiar-me quando ouvires a verdade: construíste a tua casa sobre a areia e agiste assim ao longo dos séculos porque és incapaz de respeitar a vida, porque até o amor dos teus filhos destróis antes que tenha tido tempo de desabrochar, porque não suportas nenhuma forma de espontaneidade viva, nenhum movimento livre e natural. (…)

És covarde na tua atividade intelectual, porque a atividade intelectual fecunda acompanha a vitalidade e o movimento do corpo, e tu temes o teu corpo. Muitos foram os grandes homens que te disseram: escuta a tua voz interior – segue a verdade do que sentes – venera o teu amor. Mas tu não deste atenção a tais palavras. Foram palavras perdidas no deserto, apelos mortos no vazio do teu nada, Zé Ninguém. Foi-te oferecida a escolha entre a exigência de superação do Übermensch de Nietzsche e a degradação do Üntermensch em Hitler. Berrando “Viva”, escolheste o Üntermensch. (…)

Poderias ter escolhido entre a crueldade da Inquisição e a verdade de Galileu. Escolheste torturar Galileu, de cujas descobertas ainda hoje beneficias, submetendo-o a toda a espécie de humilhações, e, em pleno século XX, continuas a utilizar os mesmos métodos da Inquisição. (…)

Se tu, Zé Ninguém, saldo das fileiras de milhões como tu, tomasses a teu cargo apenas uma pequena parcela da tua responsabilidade, o mundo não seria o mesmo e todos os grandes que te estimam não seriam condenados à morte pela tua mesquinhez. É porque não assumes qualquer responsabilidade que a tua casa assenta sobre areia. (…) O chão esvai-se-te debaixo dos pés, mas continuas a berrar: “viva, grande chefe, viva a Alemanha, a Rússia, o povo judeu!” Os teus filhos agonizam, mas continuas a preconizar “a disciplina e a ordem” que lhes impões batendo. (…)

Em lugar de protegeres a vida, irás derramando o sangue atrás dos séculos, na crença de que apenas alcançarás a liberdade com o auxílio de carrascos – de novo e de novo enterrado na lama por tuas próprias mãos. Continuarás através dos séculos a seguir embusteiros e energúmenos, cego e surdo ao apelo da VIDA, A TUA PRÓPRIA VIDA. Porque tu temes a vida, Zé Ninguém, e a destróis na crença de que o fazes em nome do “socialismo”, ou do “Estado”, ou da “honra nacional”, ou da “glória de Deus”. Há algo, no entanto, que não sabes ou não queres saber: que és tu que geras a tua própria miséria, hora após hora, dia após dia; que não entendes os teus filhos e que tu próprio lhes partes a espinha antes de terem sequer uma oportunidade de desenvolver-se; que devoras o amor; que és avaro e ávido de poder – que mantém o cão preso para te sentires “dono”. (…)

Antes da primeira guerra mundial não havia passaportes internacionais; podias viajar para onde quer que quisesses. A guerra levada a cabo em nome da “Liberdade e da Paz” acarretou consigo o controle de passaportes, que ficou para durar. Cada vez que queres percorrer trezentos quilômetros na Europa tens de pedir autorização aos consulados de pelo menos dez países. E assim continua sendo, anos depois de finda a segunda guerra, destinada a acabar com todas as guerras. (…)

Cala-te, Zé Ninguém. Há dois tipos de tons: o rolar da tempestade sobre a montanha e – o teu peido. Não passas de um peido e julgas-te perfumado a violetas. (…)

Terás de arrastar ainda durante séculos a tua mediocridade antes de poderes tornar-te senhor de ti próprio. Se me separo de ti é a fim de melhor poder servir o teu futuro. Porque à distância não podes atingir-me e tens mais respeito pelo meu trabalho. Desprezas o que te está perto. Colocas os teus lideres em pedestais porque doutra forma não poderias “fazer de conta” que os respeitas. É, por isso que, desde que a história é história, os grandes homens sempre souberam manter-te à distância. (…) Mas quando penso nos teus filhos recém-nascidos, no modo como os torturas a fim de os transformar em criaturas “normais” à tua imagem e semelhança, sou tentado a aproximar-me de ti novamente a fim de impedir os teus crimes. (…) Gostaria de levar-te a dar uma volta comigo por este mundo, Zé Ninguém, e mostrar-te o que és e o que foste, no presente e no passado, em Viena, em Londres, em Berlim, como “representante do poder popular”, como membro de algum credo. Poderias encontrar-te em toda a parte e reconhecer-te, quer fosses francês, alemão ou hotentote, se tivesses a coragem de olhar para ti próprio. (…)

Descobri que o teu espírito é uma função da tua energia vital, isto é, por outras palavras, que existe uma unidade entre o corpo e o espírito. Esta foi a linha de reflexão e investigação que segui, chegando à conclusão de que expandes essa energia vital sempre que te sentes bem e afetivamente seguro e que a retrais para dentro do teu próprio corpo sempre que tens medo. Durante quinze anos mantiveste-te silencioso quanto ao conteúdo destas conclusões. O que não me impediu de prosseguir a mesma via e de descobrir que esta energia vital, à qual dei o nome de “orgone”, se encontra também presente na atmosfera, fora do teu corpo. Consegui torná-la visível na escuridão (…). Mas tu, na tua qualidade de médico crente de que o psíquico é apenas uma secreção das glândulas endócrinas, apressas-te a afirmar a um dos meus doentes recuperados que o meu sucesso terapêutico foi apenas a resultado de “sugestão”. Ou, sofrendo como sofres de dúvidas obsessivas e fobias relacionadas com a obscuridade, afirmas em relação aos fenômenos que acabas de observar que também eles se devem à “sugestão” ou que te sentes como que saído de uma sessão espírita. (…)

És estúpido e vaidoso, vazio e macaqueante, Zé Ninguém. Sempre encontras forma de desvirtuar o essencial e assimilar o errôneo. O teu Napoleão, esse homenzinho de galões doirados, que nada nos legou senão o cumprimento obrigatório do serviço militar, surge nas tuas livrarias todo encadernado a doirados, enquanto o meu Kepler, que teve a intuição da tua origem cósmica, não se pode encontrar em nenhuma livraria. É por isso que continuas no lameiro, Zé Ninguém. (…)

Toda a tua mesquinhez e vileza é bem mais grave se vista à luz da tua imensa responsabilidade e importância. Afirma-se habitualmente que és estúpido – ora, eu sei-te inteligente, mas cobarde. Afirmam-te que és a escória da humanidade – eu diria que és a sementeira. Diz-se ainda que a cultura carece da experiência de escravos. Eu afirmo que nenhuma cultura pode ser edificada sobre qualquer forma de escravatura. A monstruosidade deste nosso século tornou ridícula toda e qualquer evolução cultural a partir de Platão. A cultura humana ainda nem sequer existe, Zé Ninguém! (…)

Pensas sempre a curto prazo, Zé Ninguém, o teu tempo medeia de uma refeição a outra. Terás de aprender a memória em termos de séculos, e a perspectiva do futuro em termos de milênios. Terás de aprendê-la em termos da verdadeira vida, em termos do teu desenvolvimento desde o primeiro floco plasmático até ao animal humano, capaz de caminhar ereto, mas incapaz ainda de pensar com justeza. Porque a tua memória não retém acontecimentos de há dez ou vinte anos, continuas repetindo as mesmas asneiras de há dois milênios. E mais ainda: agarras-te a elas – à tua “raça”, “classe”, “nação”, aos teus ritos religiosos compulsivos, à supressão do amor, como um piolho se aferra à pele. Nem te atreves a ver até que ponto te encontras atolado na tua miséria. De vez em quando, pões a cabeça pra fora e berras “Viva!”. O coaxar duma rã no charco tem pelo menos mais sentido. (…)

A minha contribuição real para a segurança do que é deveras vivo e do teu futuro só será possível se puder, de forma bem clara e nítida, fazer a separação entre a vida, as suas funções e características, e a tua forma de vida. (…)

SIM, DESEJAMOS PARA OS NOSSOS FILHOS A EXPRESSÃO LIVRE E ABERTAMENTE ALEGRE DO SEU AMOR E QUE NÃO TENHAM QUE VIVÊ-LO CLANDESTINAMENTE, EM BECOS ESCUROS, NA OBSCURIDADE DE ENTRE PORTAS. (…)

Posso contudo asseverar-te que nenhum Kaiser, nenhum Czar ou Pai do proletariado pode jamais conquistar-te. Escravizar-te, sim, mas nenhum foi capaz de superar a tua mediocridade. A única coisa capaz de conquistar-te será o teu sentido da pureza, a tua aspiração à verdadeira vida – e quanto a isso, não tenho a menor dúvida. Uma vez superada a tua mediocridade e mesquinhez, começarás a pensar – de início, sem dúvida, errática, ridícula e erroneamente, mas pensarás com seriedade. Terás de aprender a suportar a dor que todo o esforço de pensamento comporta em si mesmo, tal como eu e outros suportamos a pena de pensar-te – durante anos, em silêncio, de dentes cerrados. Esta nossa dor far-te-á pensar. E quando começares a fazê-lo sentirás a magnitude do absurdo dos teus quatro milênios de “civilização”. Ser-te-á difícil entender como foi possível que os teus jornais nada mais tivessem a relatar e comentar que paradas sem sentido, condecorações, crimes, enforcamentos, diplomacias, calúnias, mobilizações militares, desmobilizações, de novo mobilizações, pactos, bombardeamentos – e que não tenhas nunca reagido com agressividade ou te tenhas sequer apercebido do perigo que corrias. Talvez te houvesse sido possível entenderes-te a ti próprio se não tivesses engolido bovinamente tudo o que te caía nas mãos. Mas o que deveras será difícil aceitar é a verificação do fato de que tudo foste macaqueando e papagueando através dos séculos (…)

O que tens de verdadeiramente profundo é a pedra onde assentará a grandeza do teu futuro. É por isso que posso nomear com segurança o que não mais farás no futuro, porque será então que tu mesmo pasmarás perante o que fizeste durante toda uma era de quatro mil anos de incultura. Quererás agora ouvir-me? (…) Ouve. Escondes-te detrás da lenda do Zé Ninguém, porque tens medo de mergulhar e de ter de nadar no grande rio da vida (…)

Se não fosses tão terrivelmente medíocre, grande cientista do século XX, terias achado maneira de servir não à consciência nacional, mas uma consciência internacional que pudesse para sempre impedir a utilização de bombas atômicas; ou, se tal fosse impossível, terias exercido toda a tua influência, por meio de palavras inequívocas, para que nem sequer fossem construídas. (…)

Não é a greve que irá provar o teu senso de responsabilidade perante os males da tua sociedade. Quando entras em greve não trabalhas. Um dia virá em que, em vez de fazeres greves, saberás TRABALHAR deveras em nome da vida. (…)

Perguntas-me se poderei dizer-te quando saberás viver a tua vida em paz e segurança; a resposta consiste no inverso da tua forma de ser atual: viverás bem e em paz quando a vida significar para ti mais do que a segurança; o amor mais do que o dinheiro; a tua liberdade mais do que as linhas diretivas do partido ou a opinião pública; quando o modo de estar no mundo de um Beethoven ou de um Bach for o tom habitual de toda a tua existência (e já o é, Zé Ninguém, abafado pelo rumor da tua existência menor); quando a tua forma de pensar estiver de acordo, e não, como hoje, em discordância, com a tua forma de sentir; (…) quando finalmente a face humana do homem da rua puder expressar a alegria, a liberdade e a comunicação, não mais a tristeza e a miséria; quando os seres humanos não mais povoarem a terra com as suas ancas retraídas e rígidas e os seus órgãos sexuais enregelados. (…)

“Não dêem ouvidos a este capitalista, bolchevista, fascista, trotskista, internacionalista, sexualista, judeu, estrangeiro, intelectual, mitómano, utopista, demagogo, doido, individualista, anarquista. Onde está a vossa consciência de americano, russo, alemão, inglês, judeu?” Podes ter a certeza absoluta de que usarias qualquer destes slogans, ou outros, a fim de evitar a tua responsabilidade na forma como se processam as relações entre os homens. (…)

És GRANDE, Zé Ninguém, quando não és medíocre e mesquinho. A tua grandeza é a única esperança que nos resta a todos. És grande quando desempenhas com gosto a tua tarefa quando trabalhas na alegria a madeira, quando constróis, quando pintas e embelezas os teus espaços, quando trabalhas a terra, quando contemplas o céu na quietude e te comprazes na existência dos animais simples, no orvalho, quando danças e cantas, quando amas a beleza dos teus filhos, o corpo do homem ou da mulher que escolheste; quando vais até um planetário tentar entender o espaço ou a uma biblioteca ler o que pensaram da vida outros homens e mulheres. (…)

Fui eu que te revelei o campo infinitamente vasto da tua própria energia vital, a tua natureza cósmica. Essa é a minha recompensa. Os ditadores e os tiranos, os aduladores e difamadores e os chacais sofrerão a sorte que outrora lhes foi anunciada por um velho sábio:

Plantei a semente de palavras sagradas neste mundo.
Quando muito depois de morta a palmeira aluir o rochedo;
Quando a magnificência de todos os reis não for mais que podridão das folhas secas;
Através dos dilúvios mil arcas guardarão a minha palavra:
Ela prevalecerá.»

– WILHELM REICH, “Escuta, Zé-Ninguém!”

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