Rastejam assim na imbecilidade

«Entrincheirados simultaneamente no governo civil e na Época – isto é, na república e na monarquia –, seguros por isso do apoio de toda a imprensa e da consequente dificultação de qualquer protesto, atacam e insultam confiadamente. Atacam e insultam a quem? A um homem que não os atacou, que está sozinho ou tão pouco acompanhado que é como se o estivesse, sem posição que o torne perigoso a quem se ataca, sem influência que torne prejudicial a sua acção, supondo que ela em sua essência o seja. E por que foram movidos a esse insulto? Por aquilo mesmo que os devera demover, se o intentassem; por um manifesto em que sem dúvida transparece uma alta inteligência e se mostra uma altíssima dignidade. Estúpidos e sórdidos, são por isso incapazes de conceber a possibilidade de um talento alheio que não compreendam, ou senão de rebelar-se contra a alheia dignidade, como se a existência dela os humilhasse.
De resto, terão eles culpa? Fortes, como estão, com a força alheia, cujo apoio os torna representantes e símbolos dela, esta vasa do liberalismo e da democracia é já o transbordar das forças desintegrantes, de cuja acção provém a nossa miséria nacional. Sim, eles não são eles próprios: são o ambiente que os produziu. São bem o resultado da Monarquia dos Braganças e da República Portuguesa. São bem o produto de uma sociedade em que vários séculos de educação fradesca e jesuítica prepararam, pela anulação do espírito crítico e científico, o advento das ideias “liberais”; em a qual, portanto, a estagnação da inteligência se completou, como era lógico, com a perversão do carácter e a ruína da ordem.
É por essa mesma estupidez, e esta mesma complexa vileza, que o manifesto dos estudantes sendo que é de jovens, é entristecedor. Moços, cuja inteligência deveria ser, não por certo disciplinada porém álacre e dispersa, rastejam assim na imbecilidade. Jovens, cuja moral devia pecar só pelos defeitos do impulso e da precipitação, mostram-nos, no emprego da subtileza baixa, da desonestidade da inteligência e do cálculo sórdido, os vícios menos desculpáveis da decrepitude. (…)
Assim, muitas vezes, o que nos parece a loucura dos outros não é mais que a nossa própria incompreensão. (…)
Loucos são os heróis, loucos os santos, loucos os génios, sem os quais a humanidade é uma mera espécie animal, cadáveres adiados que procriam.
Disse o que tinha que dizer. Concluo saudando, que assim manda a tradição.
Aos estudantes de Lisboa não desejo mais – porque não posso desejar melhor – de que um dia possam ter uma vida tão digna, uma alma tão alta e nobre como as do homem que tão nesciamente insultaram. A Raul Leal, não podendo prestar-lhe, nesta hora da plebe, melhor homenagem, presto-lhe esta, simples e clara, não só da minha amizade, que não tem limites, mas também da minha admiração pelo seu alto génio especulativo e metafísico, lustre, que será, da nossa grande raça. Nem creio que em minha vida, como quer que decorra, maior honra me possa caber que a presente que é a de tê-lo por companheiro nesta aventura cultural em que coincidimos, diferentes e sozinhos, sob o chasco e o insulto da canalha.»

– Fernando Pessoa, “Sobre um Manifesto de estudantes”, 1923.

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