Escrever não é senão loucura

«O problema é saber em que direção vão os fios que tecem a escrita. Sobre esse ponto, a escrita posterior ao século XIX existe manifestamente para ela mesma e, se necessário, ela existiria independentemente de todo consumo, de todo leitor, de todo prazer e de toda utilidade. Ora, essa atividade vertical e quase intransmissível da escrita assemelha-se, em parte, à loucura. A loucura é, de algum modo, uma linguagem que se mantém na vertical, e que não é mais a palavra transmissível, tendo perdido todo o valor de moeda de troca: seja porque a fala perdeu todo o valor e não é desejada por ninguém, seja porque se hesita em servir-se dela como de uma moeda, como se um valor excessivo lhe tivesse sido atribuído. […] Essa escrita não circulatória, essa escrita que se mantém de pé é justamente um equivalente da loucura. […] Por trás de todo escritor esconde-se a sombra do louco que o sustenta, o domina e o recobre. Poder-se-ia dizer que, no momento em que o escritor escreve, o que ele conta, o que ele produz no próprio ato de escrever não é outra coisa senão a loucura. Esse risco de que um sujeito ao escrever seja levado pela loucura… é justamente a característica do ato de escrita. É quando encontramos o tema da subversão da escrita. Penso que se possa ligar o caráter intransitivo da escrita, de que fala Barthes, a esta função de transgressão.»

– FOUCAULT, “Dits et Écrits”, 1994, p.982.

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