The mirror

«My heart is in the East and I am at the end of the West.»

«The Mirror

Into my eyes he lovingly looked,
My arms about his neck were twined,
And in the mirror of my eyes,
What but his image did he find?

Upon my dark-hued eyes he pressed
His lips with breath of passion rare.
The rogue! ‘Twas not my eyes he kissed;
He kissed his picture mirrored there.»

– Judah Halevi (c.1075-c.1141)

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Sonho

«O mundo

Encerra um sonho como realidade

E em cada seu fragmento (…)

Vive todo. (…)

As figuras de sonho não conhecem

O sonho (…) de quem são figuras,

Porque o mundo não só é (…) sonhado

Mas é dentro dum sonho um outro sonho

Em que sonhados são os sonhadores

Também.»

– Fernando Pessoa, “Fausto

Sempre reles?

«Peço que não faça como a gente vulgar, que é sempre reles; que não me volte a cara quando passe por si, nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor. (…)

Basta que me conserve com carinho na sua lembrança, como eu, inalteravelmente, a conservarei na minha.

 Fernando»

– F. Pessoa, Carta a Ophélia Queiroz, 29/XI/1920

Do argumento da autoridade

Se o consenso dos especialistas da área fosse condição “sine qua non” para um argumento de autoridade ser bom, dois problemas surgiriam:

a) O conhecimento não evoluiria por crises científicas colocando em causa os paradigmas vigentes, para usar a terminologia de Kuhn – e, portanto, Galileu ou Copérnico nunca se teriam tornado, posteriormente ou postumamente, autoridades;

b) Implicaria que conhecêssemos TODOS os especialistas de uma área, para saber se há consenso, o que é manifestamente impossível, daí que os autores que reconstituem o “state of art” sobre determinada questão baseiam-se em consensos ou dissensões parciais, aqueles que a sua cultura e posição social lhes permite.

Em suma, o argumento de autoridade é quase sempre mais uma falácia do que um bom argumento, sobretudo, numa sociedade em que se confunde “autoridade” com a obtenção de títulos pagos (ou seja, atribuídos de forma interessada, a troco de dinheiro) – não era afinal isto que os antigos filósofos gregos criticavam aos sofistas? Venderem como filosofia o que não era senão “doxa” aliada ao interesse económico?

Este simulacro de meritocracia, em que só se destacam aqueles que têm acesso a certos circuitos exclusivos de informação e de poder (como Bourdieu bem analisou) – independentemente dos seus talentos naturais – faz com que a “autoridade” reconhecida assente tantas vezes apenas numa certificação burocrática (diploma legal), e nalguma promoção mediática dos seus pares, mais do que na efectiva competência prática. Chega mesmo a haver amadores e auto-didactas mais competentes do que os autores ou profissionais certificados. Por outro lado, quando a um homem só é dado crédito e tempo de antena se ele fizer desfilar na passerelle um currículo repleto de títulos sonantes, se basta ele acenar à vista um simulacro de prestígio para que os holofotes a ele se dirijam, então é de esperar golpes de encenação e faz-de-conta como o do hábil Artur Batista da Silva, memorável performer.

De resto, estamos entregues a “relvas” de falsa autoridade.

É que um relvado, como sabem, é algo artificial, fabricado, normalizado pela lâmina do apara-relvas, um simulacro de Natureza mais parecido com uma alcatifa industrial verde. O que na Natureza há são ervas desalinhadas, que não formam “consensos” à mesma altura.