Do argumento da autoridade

Se o consenso dos especialistas da área fosse condição “sine qua non” para um argumento de autoridade ser bom, dois problemas surgiriam:

a) O conhecimento não evoluiria por crises científicas colocando em causa os paradigmas vigentes, para usar a terminologia de Kuhn – e, portanto, Galileu ou Copérnico nunca se teriam tornado, posteriormente ou postumamente, autoridades;

b) Implicaria que conhecêssemos TODOS os especialistas de uma área, para saber se há consenso, o que é manifestamente impossível, daí que os autores que reconstituem o “state of art” sobre determinada questão baseiam-se em consensos ou dissensões parciais, aqueles que a sua cultura e posição social lhes permite.

Em suma, o argumento de autoridade é quase sempre mais uma falácia do que um bom argumento, sobretudo, numa sociedade em que se confunde “autoridade” com a obtenção de títulos pagos (ou seja, atribuídos de forma interessada, a troco de dinheiro) – não era afinal isto que os antigos filósofos gregos criticavam aos sofistas? Venderem como filosofia o que não era senão “doxa” aliada ao interesse económico?

Este simulacro de meritocracia, em que só se destacam aqueles que têm acesso a certos circuitos exclusivos de informação e de poder (como Bourdieu bem analisou) – independentemente dos seus talentos naturais – faz com que a “autoridade” reconhecida assente tantas vezes apenas numa certificação burocrática (diploma legal), e nalguma promoção mediática dos seus pares, mais do que na efectiva competência prática. Chega mesmo a haver amadores e auto-didactas mais competentes do que os autores ou profissionais certificados. Por outro lado, quando a um homem só é dado crédito e tempo de antena se ele fizer desfilar na passerelle um currículo repleto de títulos sonantes, se basta ele acenar à vista um simulacro de prestígio para que os holofotes a ele se dirijam, então é de esperar golpes de encenação e faz-de-conta como o do hábil Artur Batista da Silva, memorável performer.

De resto, estamos entregues a “relvas” de falsa autoridade.

É que um relvado, como sabem, é algo artificial, fabricado, normalizado pela lâmina do apara-relvas, um simulacro de Natureza mais parecido com uma alcatifa industrial verde. O que na Natureza há são ervas desalinhadas, que não formam “consensos” à mesma altura.

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One thought on “Do argumento da autoridade

  1. Muito bom texto. Sou advogado. Como posso citar trechos deste texto como referência em petições? Qual seria o autor do texto? Desde já agradeço pelo texto e pela atenção.

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