O erro de António Vieira

“A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis, praeversisque cupiditatibus facti sunt, sicut pisces invicem se devorantes: «Os homens com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros.» Tão alheia cousa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer! Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens.
Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os Brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer.»

– António Vieira, “Sermão de Santo António aos Peixes”, 1654.

.

Esqueceu-se António Vieira da piranha-pequena. As pequenas piranhas, bastante comuns nas águas da América do Sul, quando se aliam em cardume sob um mesmo objectivo, podem devorar um boi adulto em cinco minutos. Ensinam, pois, as piranhas aos homens o que hão-de fazer quando, sendo pequenos, querem destruir os grandes: entre-ajuda. Mas este é um factor que não abunda entre os pequenos, e é isto mesmo que faz alguém pequeno (que quer dizer também “vil, desprezível, mesquinho”) e não grande. As pequenas piranhas em uníssono formam um grande corpo (um fasces), enquanto que isoladas são muito menos temíveis.

Mas os pequenos comerem um grande “era menos mal”?

O filósofo Ferécides de Siros escreveu a Tales de Mileto: «Os piolhos infestaram-me e padeço de acessos de febre violenta. Dei portanto instruções a meus familiares para te levarem meus escritos após o meu sepultamento.» Eis um exemplo de como pequenos organismos podem rapidamente destruir um grande organismo. Inúmeras outras doenças poderiam ilustrá-lo, quando motivadas por seres microscópicos como bactérias, vírus ou células degenerescentes.

O facto é que, nesta tensão dialéctica, existem dois pólos fatais: num pólo, morrem os pequenos comidos pelos grandes; no outro, morrem os grandes comidos pelos pequenos. Bom – e bom quer dizer vivo – era não chegar a atingir nenhum dos pólos.
Nem os grandes comerem os pequenos, nem os pequenos comerem os grandes. Neste âmbito, a fonte do mal é a fome. Tanto grandes como pequenos andam esfomeados, ainda que o alimento deles não seja o mesmo, nem em quantidade, nem em qualidade.

Seria possível saciar a fome de pequenos e grandes, sem se comerem uns aos outros?

O ideal era que muitos pequenos e um grande se comessem ao mesmo tempo, sem se comerem, isto é, que trocassem um pouco de si sem irem até à consumação total (até ao “tudo está consumado”). Bom era que se ficassem pela saciedade parcial. Nem a lividez do jejum, nem o enjoo da satisfação.

Ah, mas nessa altura já não estaríamos a pregar a peixes, mas a atlantes.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s