Os espelhos cavalgam

«O navio de espelhos
não navega, cavalga»

– Mário Cesariny, “A Cidade Queimada”.

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مروءة , Murua, cavalaria, bravura.

مرآة, Mira, donzela, espelho.

Murua e Mira derivam da mesma raiz consonantal (Mim+Rá). A diferença é construída: 1) na primeira sílaba, com base em vogais breves (damma [u] e kasra [i]); 2) na segunda sílaba, com base no grupo das letras mais ambíguas do alifato, as que desempenham simultaneamente o papel de consoantes fracas e de vogais longas, no caso, Alif e Uau. Curiosamente, é a donzela que porta o erecto Alif (coroado por um Hamza “sentado”), enquanto que o cavaleiro recebe o sinuoso Uau (seguido de um Hamza independente “em pé”). Os contrários permeados pelos contrários, para que se complementem, em vez de se oporem, em perpétuo equilíbrio. Ambas as palavras possuem no final um Tá Marbuta, ة , marca gráfica que não se lê e determina que o substantivo é feminino (a cavalaria, a donzela).

Murua designa o código de cavalaria que remonta à comunidade pré-islâmica (antes do advento de Maomé) e não necessariamente árabe (beduínos do Magreb, Berberes, Tuaregues, etc.). É mais provável que este termo tenha origem na palavra “Mouro” do que nos étimos latinos pejorativos (morte, negro) que lhe têm sido atribuídos. Os invasores da Península Ibérica eram exímios na arte da cavalaria, verbalizando certamente a regra de conduta que os unia. Murua sintetiza o que os Mouros dessa época entendiam por ser homem, quer dizer, “valentia, coragem, lealdade, honra, resistência, combate justo, humanidade com os fracos” – um ideal próximo do que o herói grego buscava, a enkrateia, simultaneamente, virilidade e virtude, ambas derivadas da vir, força. Um dos preceitos que a Murua colocava em prática era não perseguir e atacar pelas costas um exército adversário fugitivo e já visivelmente vencido. Antes de Meca ser conquistada por Maomé e convertida ao islamismo, o califa da dinastia omíada, Muawiyah I, considerado um virtuoso da Murua, resumiu em que é que esta consistia: “Não aplico a minha espada onde basta o meu chicote, nem o meu chicote onde basta a minha língua… Quando os homens puxam, eu solto; quando soltam, eu puxo”. É difícil não evocar a temperança (sophrosyne) grega.

No entanto, sem um intérprete que, pela escolha das vogais (incluindo as vogais longas), vocalize e disseque a diferença de sentido entre Murua e Mira, a raiz consonantal permanece a mesma: M-R.

E os espelhos cavalgam.

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