Desenho do Chão

Vozes, dizem, vingam

«É a hora que a voz me pede
para que a desenhe.
Nem isso, quer sair
mesmo rabiscada,
garrancho.

Suportou a entranha de muitos
e muitas, em mim.
Não pode mais aqui dentro.

Seu jeito de me aturar
tem dias que a deixa louca,
pois vive de me escavar,
me lambe a pele da boca. (…)»

Desengastaia

«Os limites do meu mundo, os limites do meu corpo
arrebentam os limites da minha linguagem.»

Nosso dansá

«É o tempo todo terra…
Gira tudinho o tempo…

Nosso povo canta em roda
Pé no chão revoluciona
O corpo não se acomoda
Alma aranha na sanfona (…)»

Lugar comum

«O lugar onde me acolhi
Me quer faiscando a todos!
Quer me ver sorrindo
Quer beber meu choro

A gente onde me acolhi
Quer domar o medo
Melhorar de vida
Entender a dor

O sonho onde me acolhi
Guerreia com o pesadelo
Trabalha nos dias santos
Cresce com os filhos e filhas

Os pés onde me acolhi
Se apertam na multidão
Se arriscam num chão minado
Aprendem a ver de noite

A força onde me acolhi
É o alicerce da casa
Do corpo, do colo, do beijo
A cada pouso da luta (…)

– Silvio Diogo, “Desenho do Chão

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