Separar o trigo do joio

joio-e-trigo

«Quando o trigo brotou e formou espigas, o joio também apareceu. Os servos do dono do campo dirigiram-se a ele e disseram: “O senhor não semeou boa semente em seu campo? Então, de onde veio o joio?”. “Um inimigo fez isso”, respondeu ele. Os servos lhe perguntaram: “O senhor quer que o tiremos?”. Ele respondeu: “Não, porque, ao tirar o joio, vocês poderiam arrancar com ele o trigo. Deixem que cresçam juntos até à colheita. Então direi aos encarregados da colheita: juntem primeiro o joio e amarrem-no em feixes para ser queimado; depois juntem o trigo e guardem-no no meu celeiro”.»

– Mateus 13:24-30

Joio – do latim, “jolium”; em francês, “ivraie”, termo que deriva de “ivre”, ebriedade, em razão dos efeitos produzidos pelo consumo da planta em pequenas quantidades, comparáveis à embriaguez. O trabalho de separar o trigo do joio é chamado “joeirar”. Após amontoarem os grãos e a palha no meio do campo, os lavradores usavam um grande garfo de madeira de cinco pontas, o “peneiro”, para lançar ao ar uma porção. Os grãos de trigo, sendo mais pesados, caíam em baixo, enquanto a palha do joio era soprada pelo vento. A “pá de joeirar” entrava em acção quando o monte ficava pequeno demais para ser levantado com o garfo. Se não houvesse vento natural, ele era produzido artificialmente por alguém agitando um pedaço de pano grosso.

Trigo – do latim, “triticu”, triturado, resultante do acto de triturar, “triturare” (“tri”, três + “turare”, tornear, furar). A espiga de trigo é encimada por um triângulo de grãos, ao passo que o joio é apenas palha sem grão.

O moralista teórico (o tipo que julga que sabe) pega na parábola acima e acrescenta-lhe sinais: negativo de um lado, positivo do outro; bom versus mau. Quer matar um deles. Precisa de uma lavagem ao cérebro.

Mas o moralista prático (o tipo que mora e saboreia) sente que o lugar do trigo e do joio estão devidamente assegurados. Só ao joio cabe ser reunido em feixe e arder. Só ao trigo cabe cair e depositar-se no celeiro. Um não é mau e o outro não é bom. São como os dois andares de uma casa: o joio é leve e leva-o o vento; o trigo pesa e sedimenta. O joio induz a embriaguez; o trigo está condenado à trituração (três Parcas rodam os tornos, moem). “Deixem que cresçam juntos até à colheita”. E quando a colheita vem – a Morte é ceifeira – então, separa-se o trigo do joio. Facto.

Mas o mais engraçado na parábola bíblica do trigo e do joio, é que “Deus” acolhe o trigo (o tridente) e dispersa o joio. Joie de vivre.

A parábola seria exacta, se os seus intérpretes/tradutores não fossem mal intencionados. Mal acordados?

Função de uma parábola: afirmar ao mesmo tempo o infinitamente pequeno e o infinitamente grande, sintetizar o molecular e o galáctico, sem produzir um universal.

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