Paisagens dobradas

«Half drunk, half sober, I wandered through the night;
then a crow call, and the moon sank to a midnight bell.»

– Ikkyu Sojun (1394-1481)

.

Benedita Feijó é uma designer de paisagens. Sabe certamente desenhar objectos, logótipos, sites e vestuário, possui os dotes de uma designer completa, mas o seu horizonte é a paisagem.

Benedita_Feijo7

Uma sobriedade é requerida ao elemento humano para criar paisagens em que se possa respirar e que se possa admirar, em vez das paisagens de acabrunhamento e cinzentismo que caracterizam, em grande parte, a estética da nossa urbanidade. Paisagens em que a sensação de frescura nos perpassa, em que a intensidade da cor nos desarma, em que o exterior assume o papel de anfitrião que durante séculos fomos habituados a remeter para o interior. Produziram-se residências e templos acolhedores, roubando ao exterior recursos (pedra-mármore, granito, madeira, ouro, etc.). Construíram-se habitações secundárias à custa de depauperar o nosso primeiro habitat: a Terra. Saqueámos a exterioridade para a meter no saco da interioridade: privatizámos a Natureza; reduzimos materiais inseridos em ciclos à condição de objectos ornamentais sem fluxo; macaqueámos depois esses ciclos mediante uma parafernália técnica (redes de esgotos, chaminés, condutas de lixo, fios eléctricos) que, apesar de toda a sua tecnologia, não atingem o nível de saúde, coordenação, economia e eficácia conjunta dos ciclos naturais (da água, do ar, do carbono, da luz).

Benedita reverte os dois lados da porta e convida-nos a entrar no exterior.

Benedita_Feijo1

Poderia ter-se dedicado à arquitectura paisagística, mas, ao menos, no nome “design” não está implícita a palavra arché: não se trata de reproduzir arquétipos. E também poderia ter-se restringido ao design de interiores, mas a paleta de cores que usa perderia o seu brilho, que vem do exterior. Nas suas obras, o interior é vestigial e acaba por ser ofuscado pela profusão vinda do exterior, seja ela devida a espécies naturais (flores, aves, montanhas, rios), seja a obras de arte humana concebidas para conviver com a exterioridade (pontes, monumentos, balões, aeroplanos).

Benedita_Feijo10

O design de Benedita Feijó desperta-nos para a necessidade de, tendo a indústria humana invadido a Natureza, consentir no reverso, e ser invadida por ela.

Benedita_Feijo11

Ao invés do humano se expurgar do animal (o asco higiénico aos “bichos”), imiscuir-se no meio-ambiente, animal entre os animais e homem entre os homens: diversidade máxima.

Benedita_Feijo8

Frequentemente, a paisagem é dupla: não uma, mas duas Terras (como o Antigo Egipto já intuía).

Benedita_Feijo2

No seu percurso, Benedita também se singularizou pela criação de imagens que afirmam em simultâneo os dois lados de um espelho ou dobra fractal.

Benedita_Feijo5

Benedita_Feijo6

Esta fase especulativa (de “speculum“, espelho) de Benedita não nos transporta para o mito de Narciso, pois não estamos perante um sujeito que mira o seu reflexo no espelho (reflexão). O que se faz é apresentar, em simultâneo, como indiscerníveis, duas metades que se prestam ao con-tacto: não se consegue atribuir a uma o lugar de sujeito real e a outra o lugar de imagem reflectida à sua semelhança, não se pode já desprestigiar uma por ser menos real do que a outra, uma que seria a causa e outra o efeito.

Benedita_Feijo4

Benedita_Feijo9

Estas obras de Benedita retiram-nos da lógica hierárquica da causalidade e do sujeito auto-centrado, para dar lugar à co-afirmação dos simétricos que reverberam juntos, como duas fontes emissoras. A síntese de ambos realiza-se ao meio, num horizonte virtual. A linha do espelho não limita mais, não está, não é linear. Há simetria, mas nem sempre acabada. E a Alice do outro lado do espelho não é imaginária, é real.

Benedita_Feijo3

Eis o que Benedita Feijó tem para nos oferecer: paisagens sem um centro único que sujeite o olhar como numa estereoscopia (onde estão dois, ver só um); composições em que os diversos materiais se combinam com a leveza dos intervalos vazios (espaços lisos de cor, pedaços de céu, ar) para levedar e “dobrar a massa”. São dois braços que se des-dobram em extensão; duas mãos que se estendem, uma contrabalançando a outra.

Benedita_Feijo12

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s