Por-menores

Leonor Feijó é irmã de Benedita, mas entre os estilos de ambas não há necessariamente um parentesco. Se Benedita privilegia paisagens; Leonor mima personagens. Se a primeira junta elementos do quotidiano numa profusão luxuriante; a segunda dispõe figuras oníricas num espaço frequentemente liso. As cores de uma resplandecem com um brilho forte e solar; os tons de outra são suaves e penumbrosos como se vistos à luz da lua.

No traço de Leonor Feijó, há uma busca explícita da menoridade da menor idade. O título do seu portfólio – “little hands” – exprime essa procura: o que importa não é avaliar o tamanho das mãos da autora, mas antes o envolver-se com as mãos num permanente devir-menor. “O trabalho da criança é pouco, mas quem o despreza é louco”. A criança labora intensivamente: ela muda e devém o que cria. Nos seus trabalhos, transparece essa fusão e trans-fusão entre a personagem e qualquer elemento com que ela tome contacto, seja fluxo, animal, objecto ou quimera: a menina devém água, avestruz, bicicleta, anjo… Através do transporte afectivo da criança-artista, tudo é possível. Por isso, as personagens de Leonor requerem uma hifenização constante, pois novos seres resultam de outros já conhecidos.

Repare-se no seu políptico de quatro meninas, ou quatro fases de menina, duas a duas (decresço/cresço, vou/não vou) sobre fundo claro ou escuro:

Leonor_Feijo1 Leonor_Feijo2
Leonor_Feijo4 Leonor_Feijo3

As ilustrações de Leonor vivem de por-menores, que se diriam in-significantes (não submissos a uma significância pré-estabelecida), caso não fossem tão significativos:
– A menina-água cujo corpo decresce e se esvai pelos sete orifícios do escoadouro, não significa a urgência de estimarmos os recursos hídricos como sendo 80% do nosso próprio corpo?
– A menina-avestruz não significa que a ave corredora é aquela que esconde os referenciais que tem na sua cabeça, para melhor saber o caminho e levar atrás uma multitude de olhos na cauda?
– A menina-bicicleta que se aguenta em pé sobre duas rodas, afirmando ser um veículo que não vai a lado nenhum, não significa aquela viagem imóvel tão cara ao pensamento oriental?
– A menina-anjo de asas abertas, que cresce para fora a partir de dentro de uma campânula de vidro, meio cheia de terra, com os pés enrolados em pequeninas serpentes, não significamos nós?

Mas este é apenas o lado empírico da interpretação. É preciso juntar-lhe o outro lado: o da imaginação viva, atentando em pormenores.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s