A política segundo Fernando Pessoa

«FERNANDO PESSOA [Nota autobiográfica:] (…)

Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e Director-Geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral: misto de fidalgos e judeus.

Estado civil: Solteiro.

Profissão: A designação mais própria será “tradutor”, a mais exacta a de “correspondente estrangeiro” em casas comerciais. O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação. (…)

Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas. (…)

Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionário. (…)

Posição social: Anti-comunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.

Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos – a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.

Lisboa, 30 de Março de 1935.
Fernando Pessoa [assinatura autógrafa]»

«O comunismo é um dogmatismo sem sistema. Se o que há de lixo moral e mental em todos os cérebros pudesse ser varrido e reunido e, com ele, se formar uma figura gigantesca, tal seria a figura do comunismo, inimigo supremo da liberdade e da humanidade, como o é tudo o que dorme nos baixos instintos que se escondem em cada um de nós.»

«A mocidade de hoje viu, além disso, que os libertários, os socialistas, os democratas a arder em amor pelo povo, acabavam na concussão e no peculato, no uso, nas suas relações com o povo, da polícia e do exército. E, como esta experiência é a última, a mocidade de hoje lembrou-se de concluir que a realidade vale mais que as boas intenções, que é inútil pregar boas doutrinas se apenas as más podem vingar. Mais vale, pensaram eles, que se defendam, desde logo, as doutrinas antipáticas. Por mim, acho preferível defender, como algum dia farei, com a devida argumentação sociológica, que é mais legítimo que os políticos roubem e espoliem o povo, do que roubar e espoliar o povo chamando a essa atitude “governo popular”, “democracia”, “liberdade” e outras coisas assim. O anarquismo, o socialismo, o democratismo — todo esse lixo de teorias simpáticas que se esquecem de que teorizam para a humanidade de carne-e-osso — foram divinizações da mentira.»

«No que respeita à época presente, com os seus preconceitos liberalistas e igualitários, veremos que eles em nada impedem a operação instintiva, em plena afirmação igualitária, do fundamental egoísmo humano. Escolheremos para exemplo a mesma classe — a classe popular —, e iremos colher a amostra naquela parte da classe popular que mais extremo “liberalismo” estadeia — os infelizes mentais cuja ignorância sociológica e desconhecimento da história os leva a ter ideias socialistas ou parecidas, demência terminal do liberalismo. Vemos, com efeito, que esses pobres diabos busquem espontaneamente qualquer resultado de acordo com a base liberalista e igualitária da sua doutrina? Não o vemos. O que encontramos, é, ao contrário, a tendência para substituir aos pretensos “privilégios” do capital uns outros “privilégios” — os do chamado “trabalho”. A tendência espontânea é para a inversão dos factores, não para a sua igualização. E a célebre “ditadura do proletariado”, último avatar da ignorância e da asneira, revela, com a ingenuidade mental característica dos seus criadores, aquele naturel que revient au galop, quanto mais o querem escorraçar.»

«E entre essas coisas da decadência que em nossa alma […] se apresentavam, especialmente nos (…) aquelas teorias políticas — socialismo e anarquismo — que mais nitidamente são expressões de um modo de teorizar e de idear doutrinas, isto é, que mais flagrante, posto que maltusianamente (?) são o pensamento de uma sociedade em plena desintegração. À medida que nos sanearmos, iremos deixando de ser anarquistas e socialistas.»

«Compare Fernando Pessoa as discussões dos escolásticos com, sobretudo, as dos socialistas, comunistas e anarquistas modernos. É o mesmo especulativismo de manicómio, ressalvando que os escolásticos eram subtis, disciplinados no raciocínio e inofensivos, e os modernos «avançados» (como a si-próprios se chamam, como se houvesse «avanço» onde não há ciência) são estúpidos, confusos e, dada a pseudo-semicultura da época, incómodos.» [Por Álvaro de Campos]

«Passai, tradicionalistas auto-convencidos, anarquistas deveras sinceros, socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores para quererem deixar de trabalhar! Rotineiros da revolução, passai!» [Por Álvaro de Campos]

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One thought on “A política segundo Fernando Pessoa

  1. Deste plano em que me encontro ,venero estes pensadores que tão alto tenho, cujo combate `tripla maleita ( ignorância, tirania e fanatismo ) foram exímios lutadores. A nossa sociedade, inspirada nestes génios se quiser, tem tudo para fazer uma boa reflexão do papel de cada um de nós, e do que queremos para Portugal em particular e para o mundo em geral .

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