Advertência contra a dialéctica

«Antes de Sócrates, os modos dialécticos eram repudiados numa boa sociedade: eles eram considerados maus modos, eram comprometedores. Os jovens eram advertidos contra eles. (…) Só se escolhe a dialéctica apenas quando não se tem outros meios. (…) Só pode ser a auto-defesa daqueles que já não têm outras armas. Tem-se que forçar o direito de cada qual: até que se chegue a esse ponto, não se faz uso dela».

– Nietzsche, “Crepúsculo dos Deuses”.

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«Se ambos fôssemos iletrados, a vida seria impossível! (…) Eu acho que se os proprietários casassem com ​​os proprietários, os ricos casassem com ricos, e os iletrados casassem com os seus iguais, nada funcionaria. É muito melhor que as pessoas que sabem ler casem com analfabetos, que os ricos se casem com os pobres, que os sem-abrigo casem com os proprietários de terras. E assim, todos nós nos poderíamos ajudar a nós próprios. Eu acho que isto é o melhor».

– Abbas Kiarostami, “Através das Oliveiras”.

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Em vários domínios da sociedade, assiste-se à “separação das águas” entre a terra e o céu, ou seja, entre os cidadãos de quinta categoria e os que têm o privilégio de pertencer à primeira.

De referir, alguns exemplos práticos.

Na alimentação, o cidadão de quinta categoria consome o que pode comprar, isto é, a comida barata e toxicodependente da agricultura e pecuária industriais, empenhadas em obter no menor período de tempo a produção máxima e, logo, o maior lucro (à custa de todos os outros factores, como saúde, sustentabilidade económica no longo prazo, poluição ambiental, etc.). Os alimentos naturais ou biológicos, de consequências menos agressivas, por terem um preço “gourmet”, ficam reservados para os bolsos dos cidadãos de primeira categoria.

Na instrução, o cidadão de quinta categoria educa-se (ou tenta chegar ao fim ileso) no caos das escolas públicas, com gravíssimos problemas de falta de recursos (o que afecta desde a qualidade do ensino até à alimentação deficitária fornecida nas cantinas), ineficácia na prevenção de casos de “bullying” e na gestão do nível de ruído (poluição sonora excessiva compromete a concentração e desempenho escolares), abandono escolar precoce muito recorrente, baixos índices de aproveitamento, entre outros. O cidadão de primeira pode pagar colégios muito melhor apetrechados a nível de tecnologias e métodos inovadores, em que “bullying” e ruído estão contidos dentro de limites mais razoáveis, em que o abandono escolar praticamente não existe e o aproveitamento é maximizado (podendo recorrer a explicações de apoio), e, mais tarde, encaminhar-se para as instituições de ensino superior mais cotadas pelo mercado de trabalho.

Na obtenção de emprego, o cidadão de quinta categoria é obrigado a desmultiplicar-se por institutos de emprego e formação profissional, agências de recursos humanos, mil e um meios de publicação de classificados, e “rezar” para que o chamem para entrevista e que passe em todos os testes psico-técnicos. O cidadão de primeira não precisa de procurar muito; normalmente, quando se sabe que vai sair de um posto, já o estão a convidar para outro, de modo que essas generosas ofertas de emprego jamais se convertem em anúncio.

Nas tecnologias, sempre que surge um novo “gadget” ou plataforma, o cidadão de primeira é o primeiro a ouvir falar deles e a explorar abertamente (ou mesmo gratuitamente) as suas potencialidades revolucionárias, enquanto que, quando chegam aos ouvidos e às mãos do cidadão de quinta categoria, já se transformaram em produtos fechados à experimentação e inflacionados pelos interesses económicos da indústria.

Não é assim que a ignorância, o fanatismo e a tirania são fabricados, potenciados?

Pense-se no caso das mulheres de há séculos atrás, que eram consideradas mais estúpidas do que os homens (quantas tiveram de lutar contra esses preconceitos, por exemplo, Virginia Woolf). Não é que fossem, em essência, mais estúpidas, é que tinham acesso a menos recursos (só em 1861 é que surgiu a primeira instituição de ensino superior pública aberta a mulheres, na Suécia). Tendo em conta que, hoje em dia, o sexo feminino se destaca por um aproveitamento universitário superior ao do outro sexo, é notório que, em cerca de um século, não só “recuperaram” a inteligência, como elevaram a fasquia do que era a inteligência “masculina”.

Um outro exemplo: aqueles meios onde o “apartheid” de raças ainda persiste. A revivalista propaganda neo-nazi recorre a uma série de subterfúgios pseudo-científicos, supostamente fundados na genética, para legitimar a ideia de que os “pretos” e outras raças inferiores são mais estúpidos do que nós, europeus “puros” (o actual sub-produto da “raça ariana”). Para além dos judeus, menosprezam indivíduos de etnias provenientes, na sua larga maioria, de países ditos de “Terceiro ou Segundo Mundo”, onde existem magros recursos educativos, e que, ao emigrarem à procura de melhores condições de vida, vão encontrar nos países de acolhimento uma série de obstáculos (nomeadamente, a aprendizagem da língua, a obtenção de trabalho, etc.). Dêem-lhes o alimento de que precisam, e vê-los-ão florescer. Quentin Tarantino fez o favor de nos recordar que o autor da célebre máxima dos mosqueteiros – “Um por todos, todos por um” – era negro.

Mas faço esta breve evocação histórico-social, para questionar qual é o interesse de perpetuar uma sociedade fechada, à base de bloqueios (económicos, sobretudo), que fabrica perversamente, e de uma só vez, esta clivagem persistente entre cidadãos de primeira e de quinta categoria.

É verdade que, muitas vezes, são os cidadãos de quinta categoria que agem contra si mesmos, que fortalecem os fascismos que os reprimem, pela sua conivência ou inacção.

É verdade que estas categorias soam demasiado dialécticas e artificiais quando escritas, que não são estanques, e que é possível a um cidadão de origens modestas ascender ao primeiro plano, tal como o inverso.

Contudo, as tendências em massa acima referidas são verificáveis.

Portanto – e já que tem havido tanto “hype” em torno da co-adopção de crianças por casais homossexuais -, imagine-se o que era avançar com uma série de outras co-adopções bem mais importantes: a co-adopção entre pobre e rico, entre dominado e dominante, entre sub-desenvolvido e desenvolvido, entre ignorante e esclarecido, entre liberal e fundamentalista, entre saudável e doente, entre empregado e desempregado, etc. Imagine-se a quanto não se chegaria se nos co-adoptássemos todos uns aos outros.

É a única forma de destruir estes pares de opostos que se guerreiam entre si e que fazem as pessoas crer na utilidade de diferenciar Bem e Mal (reservando sempre para si, claro, o epíteto “Bem”, o inferno são sempre os outros).

Não é que tenhamos de ser todos iguais, não é que todos tenham de ser cidadãos de primeira (a disponibilidade de recursos na Terra não o permitiria, 7 biliões de consumidores “premium” só em sonhos), não é que todos tenhamos de ser cidadãos de quinta categoria (agrotóxicos para todos, ignorância para todos, desemprego para todos, etc.).

É que temos de fazer circular com maior liberalidade os recursos disponíveis, que inúmeras vezes são retidos por oligopólios e plutocracias centradas sobre si, é que temos de nos entre-ajudar e construir em conjunto o cidadão do meio (não necessariamente mediano ou medíocre)… tal como a Natureza prefere a via do meio (a água e solo mais favoráveis são de pH “neutro”, quanto ao espectro electromagnético, a melhor radiação, não são os UV nem os IV, mas a intermédia, e quem quer um tufão ou a ausência sufocante de vento, se é possível a brisa suave?).

A elite, por vezes, pensa que é um desperdício de recursos, que a ralé é estúpida por natureza, que, como consequência, a selecção natural e social os limitou à condição mais bestial entre os humanos. Independentemente da ralé tantas vezes dar razão à elite neste seu julgamento, compreenda-se que pessoas envenenadas em corpo e mente, sujeitas às mais agrestes condições ambientais, enfraquecidas pela falta de recursos, é natural que se tornem ignorantes, fanáticas e tirânicas.

Quem quer que estime a vida como princípio activo e não estático, móbil, acolherá aquele provérbio chinês que diz: “Ama-me quando eu menos merecer, pois é quando eu mais preciso”.

Enquanto isso não acontecer, este mundo social (que, felizmente, não é o único mundo possível) é um lugar deveras “dégoûtant” para se viver.

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