A invencionática de Manoel


“Só Dez Por Cento é Mentira – a Desbiografia Oficial de Manoel de Barros” (2009), documentário realizado por Pedro Cezar.

«Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!»

«Hoje eu atingi o reino das imagens,
o reino da despalavra.
Daqui vem que os poetas devem aumentar o mundo
com suas metáforas.
Daqui vem que os poetas podem compreender
o mundo sem conceitos.
Que os poetas podem refazer o mundo por imagens,
por eflúvios, por afeto.» (Despalavra)

«O olho vê, a lembrança revê e a imaginação transvê. É preciso transver o mundo.»

«II
Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.

III
Repetir repetir – até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo. (…)

IX
Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz .
Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

X
Não tem altura o silêncio das pedras. (…)

XIII
As coisas não querem mais ser vistas por
pessoas razoáveis:
Elas desejam ser olhadas de azul –
Que nem uma criança que você olha de ave.» (O Livro das Ignorãças)

«As pessoas que gostam mais de usar a razão para ler, não gostam muito de mim. Só aqueles que usam a sensibilidade são meus leitores, eu tenho certeza disso. As pessoas que lêem querendo compreender, não. Porque eu não quero falar nada. São só umas imagens. Eu acho que a minha poesia tem muito a ver com as artes plásticas, e com o cinema também.» (entrevista à Caros Amigos, por Bosco Martins)

«Poeta não é necessariamente um intelectual; mas é necessariamente um sensual.»

«Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.

Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.» (Retrato do Artista Quando Coisa)

«O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia uma
volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.» (Uma Didática da Invenção – O Livro das Ignorãças)

«Um fotógrafo-artista me disse outra vez: veja que pingo de sol no couro de um lagarto é para nós mais importante do que o sol inteiro no corpo do mar. Falou mais: que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica, nem com balanças, nem com barômetros, etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.»
(“Sobre importâncias” – Tratado geral das grandezas do ínfimo)

«Escrevi 14 livros
E deles estou livrado.
São todos repetições do primeiro.»

«Tenho uma confissão a fazer:
Noventa por cento do que escrevo é invenção
só dez por cento é mentira»

«Tudo que não invento é falso. (…)
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo. (…)
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore. (…)
Aonde eu não estou as palavras me acham. (…)
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja. (…)
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim. (…)
A minha diferença é sempre menos. (…)
Do lugar onde estou já fui embora.» (O Livro sobre Nada)

«Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar. (…)
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor os meus silêncios.» (O Apanhador de Desperdícios)

«Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar: divinare

«Poesia não é para compreender,
mas para incorporar.
Entender é parede:
procure ser árvore.»

«As coisas muito claras me noturnam.» (O fazedor de amanhecer)

«…Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação. Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina.» (Memórias Inventadas)

«Eu não amava que botasse data na minha existência.
Nossa data maior era o quando.
O quando mandava em nós.
A gente era o que quisesse ser só usando esse advérbio.»

«Nasci para
administrar o à-toa
o em vão
o inútil.
Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também
sabedoria mineral.»

«As coisas tinham para nós uma desutilidade poética.
Nos fundos do quintal era muito riquíssimo o nosso dessaber.
A gente inventou um truque pra fabricar brinquedos com palavras.
O truque era só virar bocó.»

«Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos.»

«Parece que o poeta serve para desacomodar as palavras. Não deixar que as palavras se viciem no mesmo contexto. Usar as palavras para ampliar o mundo há de ser outro milagre da poesia. Celebrar moscas é um exemplo de como podemos ampliar o mundo. Uma das regras importantes da poesia é não ser demonstrativa. Poesia não presta para demonstrar nada. Ela só presta para dar néctar.»
(MANOEL DE BARROS em DIEGUES, Douglas. Silêncios, nadas e borboletas. Uma entrevista de Manoel de Barros a Douglas Diegues. Edição do autor, s.d.)

– Manoel de Barros

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s