‘Esprit de corps’

«Ibn Khaldoun definia a máquina de guerra nômade por: as famílias ou linhagens, mais o espírito de corpo. A máquina de guerra entretém com as famílias uma relação muito diferente daquela do Estado. Nela, em vez de ser célula de base, a família é um vetor de bando, de modo que uma genealogia passa de uma família a outra, segundo a capacidade de tal família, em tal momento, em realizar o máximo de “solidariedade agnática“. A celebridade pública da família não determina o lugar que ocupa num organismo de Estado; ao contrário, é a potência ou virtude secreta de solidariedade, e a movência correspondente das genealogias, que determinam a celebridade num corpo de guerra.26 (…)

26 Cf. Ibn Khaldoun, La Muqaddima, Hachette. Um dos temas essenciais dessa obra-prima é o problema sociológico do “espírito de corpo”, e sua ambigüidade. Ibn Khaldoun opõe a beduinidade (como modo de vida, não como etnia), e a sedentariedade ou citadinidade. Entre todos os aspectos dessa oposição, em primeiro lugar está a relação inversa do público e do secreto: não só existe um segredo da máquina de guerra beduína, por oposição à publicidade do citadino de Estado, mas no primeiro caso a “celebridade” decorre da solidariedade secreta, ao passo que, no outro caso, o segredo se subordina às exigências de celebridade. Em segundo lugar, a beduinidade joga ao mesmo tempo com uma grande pureza e uma grande mobilidade de linhagens e sua genealogia, ao passo que a citadinidade faz linhagens muito impuras, e ao mesmo tempo rígidas e fixas: a solidariedade muda de sentido, de um pólo ao outro. Em terceiro lugar, e sobretudo, as linhagens beduínas mobilizam um “espírito de corpo” e se integram nele como nova dimensão: é o Açabiyya, ou então o Icktirak, de onde derivará o nome árabe do socialismo (Ibn Khaldoun insiste na ausência de “poder” do chefe de tribo, que não dispõe de constrangimento estatal). A citadinidade, ao contrário, faz do espírito de corpo uma dimensão do poder, e vai adaptá-lo à “autocracia”. (…)

Somente a partir de Sólon, Nomos vai designar o princípio das leis e do direito (Thesmoi e Dike), para depois ser identificado às próprias leis. Numa época anterior, há antes uma alternativa entre a cidade, ou polis, regida pelas leis, e os arredores como lugar do nomos. Uma alternativa semelhante encontra-se em Ibn Khaldoun: entre a Hadara como citadinidade, e a Badiya como nomos (o que não é cidade, mas campo pré-urbano, platô, estepe, montanha ou deserto).»

– Deleuze & Guattari, “Mille Plateaux”

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s