A gente entra numa Ideologia e…

«A gente entra numa Ideologia e manda aviar um pouco de Economia, que tem boa reputação; logo porém o funcionário nos avisa, com um sorriso técnico, que não pode fornecer-nos Economia sem aviar também uma certa porção de Polícia Política – tão necessária, não é assim? Vai então a gente pede que, em vistas disso, nos pese um pouco de Justiça Social; mas o funcionário, com o sorriso ainda por fechar, logo nos informa de que, para nos abastecer de um pouco de Justiça, tem de nos vender também uma dosezinha de Campos de Concentração – muito úteis, não é verdade? A gente horroriza-se e pede, já a medo, um pouco de Liberdade; mas logo o merceeiro lembra que para isso – não é assim? – temos evidentissimamente de adquirir também a defesa da Liberdade, ou seja, a Ditadura. Para não sairmos de mãos vazias, pede a gente nesse caso um bocado de Humanismo – que é artigo à venda, e pelo preço da chuva, em todas as tendas, mas logo o homenzinho, e de afogadilho, nos lembra que para isso só há o processo de gramar uma certa arte, uma certa literatura, uma certa música, um certo cinema, uma certa filosofia. E daqui não se sai: ou tudo ou nada.»

– Vergílio Ferreira, “Palavras finais. Tréplica de Vergílio Ferreira“, segunda resposta à invectiva do neo-realista Alexandre Pinheiro Torres contra o existencialismo, Jornal de Letras e Artes, 20 de Fevereiro de 1963.

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