Liberal

Do lema da Revolução Francesa “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, só aproveitaria o primeiro termo. Naturalmente, a liberdade é sempre jogada entre limites: o rio corre “livre” entre margens e barragens. “Igualdade” é abominável. Não existem duas folhas iguais numa árvore: nem em forma, nem em posição, nem em ritmo de desenvolvimento. Nada é igual. Forçar essa igualdade é massificar, estandardizar. Seres diferentes não podem ter “igualdade de oportunidades” – e efectivamente não têm, isso é apenas um chavão para turista ver, não é praticado em nenhuma organização no seu juízo perfeito, porque isso seria perverter o ajustamento que deve existir entre competências reais e requisitos de uma determinada função. Portanto, o que existe é diversidade. A diversidade não nos deve impedir de ser cordiais, independentemente, da espécie, do género, da família, da ordem, da classe, da divisão/filo, do reino e até do planeta. “Fraternidade” vem de “frater”, irmão – demasiado familiarista, demasiado associado a ligações de sangue e ideologia racial. O meu lema seria antes: “Liberdade, Diversidade, Cordialidade“.

Reservo-me o direito de apreciar o termo “liberal”, apesar de todas as transformações e deformações que sofreu, ao longo dos séculos. A passagem do tempo, o envelhecimento, tem-no amesquinhado, a ponto de, hoje em dia, chamar-se liberalismo ao capitalismo impiedoso. Um contra-senso linguístico: não deve ser chamado de “liber” aquilo que está permanentemente sujeito às condições de uma “capita”. Todo o tipo de liberdades foram tomadas para adulterar um livre conceito: inicialmente associado à condição legal do indivíduo e às suas habilitações académicas, foi adaptado à moral conservadora de uma sociedade de classes sob o jugo da Igreja, depois, com a aparição do Estado-nação, submeteu-se à lógica do partidarismo político, até que, quando a Economia tomou as rédeas dos destinos do mundo, converteu-se em escola económica, não sem significar duas abordagens muito diferentes, senão opostas.

Estas metamorfoses graduais acontecem com todas as palavras… – como fiar-se nelas? É, por isso, que os adoradores do “Significado” são ainda mais hilários do que os adoradores do “Significante”. Se alguém disser “sou liberal”, é preciso perguntar “qual dos nove (até ver) tipos de liberal?”:

Liberal (adj.)
12th century – “free, willing, zealous, gracious”. “Liberal arts” meant the education designed for a gentleman (Latin “liber”, a free man), opposed to technical or professional training;
mid-14th century – “generous, abundant, munificent”;
late 14th century – “noble, nobly born, rich”;
early 15th century – “extravagant, unrestrained, licentious”, in a bad sense;
16th-17th centuries – “free from restraint in speech or action”, as a term of reproach;
18th century – “free from prejudice, tolerant, laissez-faire, non-conservative”, it revived in a positive sense due to Enlightenment and French Revolution;
19th century – “tending in favor of freedom and democracy”, it dates from c.1801, from French libéral, originally used by English opponents (with suggestions of foreign lawlessness) to the party favorable to individual political freedoms. In U.S. politics, tending to mean “favorable to government action to effect social change” (opposed to conservatism) or “free from prejudice in favor of traditional opinions and established institutions” (and thus open to new ideas and plans of reform), which dates from 1823.
early 20th century – “a market economy under the guidance and the rules of a strong state”, in line with “ordo-liberalism” economic school (Lippmann, Rüstow), anti-capitalist and anti-socialist/communist. Mises became critical of the German “neo-liberals”; he complained that Ordoliberalism really meant “ordo-interventionism”. In a letter, Rüstow wrote that Hayek and his master Mises deserved to be put in spirits and placed in a museum as one of the last surviving specimen of the extinct species of liberals which caused the current catastrophe (the Great Depression). Michel Foucault, in his 1978-79 lectures on “biopolitics”, discusses this German approach: “Neo-liberalism is not Adam Smith; neo-liberalism is not market society”;
late 20th century – “free market”, in reference to the theories of the neo-liberal economic school (Hayek, Friedman, Mises). Those who regularly used the term neoliberalism in the 1980s typically applied it in its present-day, radical sense, denoting market fundamentalism.
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