A carecada regulamentar dos pseudo-jardins públicos

«Árvore, não pude mais ver-te mártir, doente, diminuída pela poda a vergonhoso candelabro encimado por ridículo panacho. Que procuramos? A que lógica obedecemos? Como podemos plantar-te, tratar-te durante anos, para proceder a tais massacres? E como ousamos repetir estas bárbaras operações? Que fica de ti, da tua harmonia passada, que fica da nossa paisagem? (…)»

– Emmanuel Michau, introdução de “A poda das árvores ornamentais”, p. 8-12.

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«As árvores que dignificam as nossas praças e avenidas e embelezam os nossos jardins e parques são um elemento essencial de qualidade de vida, autênticos oásis no “deserto” que são tantos dos nossos espaços urbanos actuais. E, no entanto, é por demais evidente a ainda quase absoluta ausência de sensibilidade para o papel da Árvore em Meio Urbano. (…)
De facto, é inacreditável como certos preconceitos sobre a poda de árvores ornamentais estão arreigados nos responsáveis pela sua gestão e manutenção. É frequente ouvirmos dizer, como justificação, que as “podas” radicais, ou “rolagens”, rejuvenescem e fortalecem as árvores, ou que são a única forma económica de controlar a sua altura e perigosidade… quando, na verdade, devia dizer-se de uma poda o mesmo que de um árbitro: – tanto melhor quanto menos se der por ela! (…)

1. A poda drástica rejuvenesce a árvore?- NÃO! São as folhas a “fábrica” que produz o alimento da árvore. Uma poda que remova mais do que um terço dos ramos da árvore – e as “podas” radicais removem a copa na totalidade! – interfere muito com a sua capacidade de se auto-alimentar, destruindo o equilíbrio copa/tronco/raízes. O facto de, após uma operação traumática, as árvores apresentarem uma rebentação intensa – como tentativa “desesperada” de repor a copa inicial – não significa rejuvenescimento, mas sim um “canto-de-cisne”, à custa da delapidação das suas reservas energéticas. (…)

2. Fortalece-a? – NÃO! A poda radical é um acto traumatizante e debilitante, uma porta aberta às enfermidades. A copa das árvores funciona como um todo, sendo os ramos exteriores um escudo para os mais internos, evitando queimaduras solares. Se, subitamente, se alterar este equilíbrio, e todos os ramos ficarem expostos às condições climatéricas de forma igual, a árvore fica sem defesas. Para além disso, as pernadas duma árvore massacrada têm, pelo seu grande diâmetro, dificuldade em formar calo de “cicatrização”. Os cortes nestas condições são muito vulneráveis a ataques de insectos e fungos que causam podridões. (…)!

3. Torna-a menos perigosa? -NÃO! Estas “podas” induzem a formação, nos bordos das zonas de corte, de rebentos de grande fragilidade mecânica, pois têm uma inserção anormal e superficial no tronco. Como se desenvolvem, ao longo dos anos, podridões junto às zonas de corte, esta ligação fica ainda mais fraca, tornando estes ramos instáveis e potencialmente perigosos a longo prazo.

4. É a única forma de a controlar em altura? – NÃO! A quebra da hierarquia – que estava estabelecida entre os ramos naturalmente formados – permite o desenvolvimento de novos ramos de forte crescimento vertical, mas agora de uma forma desorganizada e muito mais densa! Não se resolve, assim, o motivo porque geralmente se recorre a esta supressão da copa, pois em alguns anos a árvore retoma a altura que tinha, sem nunca mais voltar a ter a beleza e naturalidade características da espécie…

5. É mais barata? – NÃO, se a gestão do património arbóreo for pensada a médio e longo prazo! Aparentemente parece ser mais económico recorrer-se a uma rolagem única do que fazer pequenas intervenções anuais e utilizar os princípios correctos de poda e corte, investindo na formação do pessoal ou recorrendo a profissionais especializados nas situações mais complexas. No entanto, esta economia é de curto prazo, pois, se por um lado as árvores se desvalorizam a todos os níveis, por outro lado está-se a onerar o futuro, que terá que “remediar” uma decrepitude precoce ou resolver a instabilidade mecânica dos rebentos formados após os cortes. E a redução drástica da esperança de vida das árvores implementa custos acrescidos para sua remoção e substituição… »

– Francisco Coimbra (ex- Vice-presidente da SPA, Sociedade Portuguesa de Arboricultura), “A propósito das ‘podas’ da Avenida Dr. Manuel Lousada… Se as árvores falassem!!!”, artigo publicado no Jornal da Mealhada de 27.03.2002.

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«Há muito que em Portugal, pelo menos nas maiores cidades, deixou de haver jardinagem em espaços públicos. Os recintos universitários não são alheios a esse mal: os (impropriamente denominados) jardins que rodeiam os edifícios são na verdade extensos relvados, com meia dúzia de árvores proibidas de crescer plantadas aqui e ali com manifesta relutância. Em vez de jardineiros, há empresas de manutenção de espaços verdes que vêm aparar a relva duas vezes por mês e, uma vez por ano, podar as árvores para as fazer regressar às dimensões que tinham um ano atrás. É uma “jardinagem” toda subtractiva: poda, arranca, limpa, apara; nunca acrescenta uma flor, um arbusto, um canteiro. Para quê pagar um serviço tão triste, tão destrutivo e tão desqualificado? Se não há jardins nem gosto em mantê-los, então o orçamento em jardinagem deveria ser próximo de zero. Para evitar que o relvado se transformasse num mato eriçado, bastaria cortá-lo quatro ou cinco vezes por ano. Além da poupança orçamental, ganhar-se-ia um jardim com flores silvestres; e as árvores, livres do ritual da poda, poderiam finalmente fazer-se adultas.

Numa das entradas menos usadas da Faculdade de Letras do Porto, à rua da Pena, vicejavam há dias umas exuberantes umbelíferas com cerca de dois metros de altura. Distracção do “jardineiro”, entretanto já corrigida, que se terá esquecido durante algumas semanas de submeter esse recanto do relvado à carecada regulamentar. (…)»

Paulo Araújo.

Outros testemunhos:

«Todos não somos demais para nos insurgirmos contra esta mania das limpezas das nossas Câmaras Municipais. Pelos vistos, é uma fobia que se repete por todo o país. Também aqui na Lourinhã, quando chega a Primavera, aparecem as máquinas e limpam tudinho sem nenhuma outra preocupação que não seja vencer a guerra aberta contra tudo o que cresce de forma espontânea.» – Fernanda Delgado do Nascimento

«No outro dia vimos uma cena na serra da Aboboreira (perto de Amarante) que nos deixou de boca aberta: estavam várias brigadas de roçadores a aplicar a máquina zero nas partes mais altas da serra, dizimando importantes zonas de vegetação natural como cervunais. E as mesmas câmaras que pagam este belo serviço (talvez para ocupar desempregados) são capazes de editar brochuras (como fez a Câmara de Amarante sobre a serra da Aboboreira) enaltecendo os valores naturais dos espaços que se empenham em destruir.» – Francisco Clamote

«É uma pena que tanta gente em Portugal ache que a vegetação espontânea é uma praga que tem de ser extirpada.» – Paulo Araújo

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«… poucas são as autarquias que nutrem algum respeito pelo património arbóreo do seu concelho e entregam a sua gestão a técnicos habilitados para tal.
Eu acrescentaria mesmo, que este é um problema cultural extensivo a toda a Península Ibérica; já tive a oportunidade de observar situações escandalosas na vizinha Espanha (…). Outra coisa bem diferente se passa no norte da Europa…

Por cá, volto a relembrar, que qualquer cidadão pode propor uma árvore ou um conjunto de árvores, como sendo de interesse público, bastando para tal enviar o máximo de informação (fotografias e localização exacta são imprescindíveis) sobre a(s) árvore(s) para a Direcção-Geral dos Recursos Florestais (sugiro também a consulta do Portal do Cidadão).»

Pedro Nuno Teixeira Santos.

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«”… muitos dos problemas de quedas de árvores resultam de podas mal feitas no passado”, disse o vereador [do Ambiente da Câmara Municipal do Porto, Rui Sá] ao PÚBLICO.»

– “Câmara do Porto intervém em sete mil árvores até Abril e abate duas dezenas por motivos sanitários” (Por Jorge Marmelo), in Público, 26/02/2005.

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«… durante muitos anos cometeram-se grandes erros (muitos deles apenas puderam ser constatados agora, à luz da realidade e da evolução dos próprios conceitos técnicos e científicos) na plantação de árvores na Cidade. Espécies não adequadas às condições do Porto e ao meio urbano, distâncias muito pequenas entre árvores de alinhamento, caldeiras (espaço de terra envolvente ao tronco) com dimensões desadequadas (muitas delas com o cimento e o alcatrão mesmo junto ao tronco), proximidade às casas (o que obriga a podas sistemáticas causando os desequilíbrios das copas), espécies cujas características de desenvolvimento são desadequadas ao espaço disponível, etc.
(…)»

– Texto de Rui Sá, Vereador do Ambiente da Câmara Municipal do Porto, publicado na secção de opinião do Primeiro de Janeiro, 01/04/2005.

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Tarkovski, “O Sacrifício” (1986). Cena sobre a natureza desnaturada do jardim e da figura humana.

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«We arrive at the turnoff to Crater Lake and go up a neat road into the National Park… clean, tidy and preserved. (…) It turns it into a museum. (…) It looks fake.»

– Robert M. Pirsig, “Zen and the Art of Motorcycle Maintenance”.

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