A arte real

«Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real. É destino, salvação, realização e vida.»

«Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor. E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a procurar a justiça pela própria natureza da sua poesia. Como Antígona, o poeta do nosso tempo diz: “Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres”. Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas, a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência, mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.»

«Creio na nudez da minha vida. Eu não acredito na biografia, que é a vida contada pelos outros.»

«Esta Gente

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova

E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

[in “Geografia”, 1967]

«Eu não sou nada saudosista. As coisas que me interessam são as coisas que continuam a ser actuais, que continuam a ser vivas, que continuam a actuar. Quando deixaram de actuar, deixaram de existir, porque não existiam realmente. Eu acredito profundamente que nós vamos escolhendo a eternidade neste mundo, quer dizer, que é já aqui que nós construímos e criamos a eternidade, e que aquilo que vamos encontrar é aquilo que nós formos capazes de encontrar já aqui. Porque se não tivermos encontrado aqui, também não vamos encontrar mais tarde.»

«Quando eu morrer, voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar».

– Sophia de Mello Breyner Andresen, retirado do filme com o mesmo nome de João César Monteiro.

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