Há uma cor que me persegue

Há uma cor que me persegue e que eu odeio,
Há uma cor que se insinua no meu medo.
Porque é que as cores têm força
De persistir na nossa alma,
Como fantasmas?
Há uma cor que me persegue, e hora a hora
A sua cor se torna a cor que é a minha alma.

………………………………

O verde! O horror do verde!
A opressão angustiosa até ao estômago,
A náusea de todo o universo na garganta
Só por causa do verde,
Só porque o verde me tolda a vista,
E a própria luz é verde, um relâmpago parado de verde…

……………………………

Odeio o verde.
O verde é a cor das coisas jovens
— Campos, esperanças, —
E as coisas jovens hão-de todas morrer,
O verde é o prenúncio da velhice,
Porque toda a mocidade é o prenúncio da velhice.

Uma cor me persegue na lembrança,
E, qual se fora um ente, me submete
À sua permanência.
Quanto pode um pedaço sobreposto
Pela luz à matéria escura encher-me
De tédio ao amplo mundo!

– Alberto Caeiro (Fernando Pessoa), in Novos Temas (Ensaios de literatura e estética). João Gaspar Simões. Lisboa: Inquérito, 1938.

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mote seu

Se Helena apartar
do campo seus olhos,
nascerão abrolhos.

voltas

A verdura amena,
gados que pasceis,
sabei que a deveis
aos olhos d’ Helena.
Os ventos serena,
faz flores d’ abrolhos
o ar de seus olhos.
Faz serras floridas,
faz claras as fontes…
Se isto faz nos montes,
que fará nas vidas?

Trá-las suspendidas,
como ervas em molhos,
na luz de seus olhos.
Os corações prende
com graça inumana;
de cada pestana
uma alma lhe pende.
Amor se lhe rende
e, posto em giolhos,
pasma nos seus olhos.

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mote alheio

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

voltas

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

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mote alheio

Verdes são as hortas
com rosas e flores;
moças que as regam
matam-me d’amores.

voltas

Entre estes penedos
que daqui parecem,
verdes ervas crecem,
altos arvoredos.
Vai destes rochedos
água com que as flores
d’outras são regadas
que matam d’amores.

Co a água que cai
daquela espessura,
outra se mestura
que dos olhos sai:
toda junta vai
regar brancas flores,
onde há outros olhos
que matam d’amores.

Celestes jardins,
as flores, estrelas,
horteloas delas
são uns serafins.
Rosas e jasmins
de diversas cores;
Anjos que as regam
matam-me d’amores.

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mote alheio

Minina dos olhos verdes,
porque me não vedes?

voltas

Eles verdes são,
e têm por usança
na cor, esperança,
e nas obras não.
Vossa condição
não é d’ olhos verdes,
porque me não vedes.

Isenções a molhos
que eles dizem terdes,
não são d’ olhos verdes,
nem de verdes olhos.
Sirvo de giolhos
e vós não me credes,
porque me não vedes.

Haviam de ser,
por que possa vê-los,
que uns olhos tão belos
não se hão-de esconder;
mas fazeis-me crer
que já não são verdes,
porque me não vedes.

Verdes não o são,
no que alcanço deles;
verdes são aqueles
que esperança dão.
Se na condição
está serem verdes,
porque me não vedes?

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mote alheio

Vós, Senhora, tudo tendes,
senão que tendes os olhos verdes.

voltas

Dotou em vós Natureza
o sumo da perfeição
que, o que em vós é senão,
é em outras gentileza;
o verde não se despreza,
que, agora que vós o tendes,
são belos os olhos verdes.

Ouro e azul é a milhor
cor por que a gente se perde;
mas a graça desse verde
tira a graça a toda a cor.
Fica agora sendo a flor
a cor que nos olhos tendes,
porque são vossos… e verdes!

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mote alheio

Sois fermosa e tudo tendes,
senão que tendes os olhos verdes.

voltas

Ninguém vos pode tirar
serdes bem assombrada;
mas heis-me de perdoar,
que as olhos não valem nada.
Fostes mal aconselhada
em querer que fossem verdes:
trabalhai de os esconderdes.

A vossa testa é jardim,
onde Amor se desenfada:
é branca e bem talhada
que parece de marfim.
Assi é, e, quanto a mim,
isso nace de a terdes
tão perto dos olhos verdes.

Os cabelos dasatados
o mesmo Sol escurecem;
senão que, por serem ondados,
algum tanto desmerecem:
mas, à fé, que se parecem
a furto dos olhos verdes,
não vos pese de os terdes.

As pestanas têm mostrado
ser raios que abrasam vidas;
se não foram tão compridas
tudo o mais era pintado:
elas me tinham levado
já sem o vós saberdes,
se não foram os olhos verdes.

O mimo desse carão
nem pôr-lhe os olhos consente:
e ser liso e transparente
rouba todo o coração.
Inda assim achareis gente
que lhe não pese de o terdes;
mas não seja cos olhos verdes.

Esse riso é composto
de quantas graças naceram;
senão que alguns me disseram
vos faz covinhas no rosto.
Na vontade tenho posto
dar-vos a alma, se quiserdes,
a troco dos olhos verdes.

Nunca se viu, nem se escreve
boca nem graça igual,
se não fora de coral
e os dentes de cor de neve.
Dou-me a Deus, que me leve!
Sofrerei quanto tiverdes;
não me tenhais os olhos verdes.

Essa garganta merece
outras palavras, não minhas,
senão que é feita em rosquinhas
de alfenim, o que parece.
Eu sei quem se ofrece
a tomar tudo o que tendes,
e também os olhos verdes.

Essas mãos são ferropoias,
só com vê-las, enfeitiça;
senão que são alvas e cheias,
e têm a feição roliça,
com que apelais por justiça,
para com elas prenderdes
os que têm vossos olhos verdes.

A vossa galantaria
matará a quem falardes;
tendes uns desdéns e tardes
que eu logo vos roubaria.
Dou-me a Santa Maria!
Sou cujo de quanto tendes,
também desses olhos verdes.

outras voltas ao mesmo mote

Tudo tendes singular,
com que os corações rendeis,
senão que rindo fazeis
covinhas para enterrar;
e para ressucitar
tem força a graça que tendes;
senão que tendes os olhos verdes.

Tudo, Senhora, alcançais,
quanto ser fermosa alcança;
senão que dais esperança
cos olhos com que matais.
Se acaso os alevantais,
[é para as almas renderdes;
senão que tendes os olhos verdes].

– Luís de Camões

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O nosso amor é verde.
Nós somos verdes.
Verdes como são os campos e as árvores
quando regressa a Primavera.
Verde é tudo quanto é belo.
Tu és verde, meu amor.
Verde
VEEEEERDE
O nosso amor é verde –
mas não digas a ninguém….

– Natália de Andrade

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The two Bodies of the King

«For the King has in him two Bodies, viz., a Body natural, and a Body politic. His Body natural (if it be considered in itself) is a Body mortal, subject to all Infirmities that come by Nature or Accident, to the Imbecility of Infancy or old Age, and to the like Defects that happen to the natural Bodies of other People. But his Body politic is a Body that cannot be seen or handled, consisting of Policy and Government, and constituted for the Direction of the People, and the Management of the public weal, and this Body is utterly void of Infancy, and old Age, and other natural Defects and Imbecilities, which the Body natural is subject to, and for this Cause, what the King does in his Body politic, cannot be invalidated or frustrated by any Disability in his natural Body. […] [T]he King has two Capacities, for he has two Bodies, the one whereof is a Body natural, consisting of natural Members as every other Man has, and in this he is subject to Passions and to Death as other Men are: the other is a Body politic, and the Members thereof are his Subjects, and he and his Subjects together compose the corporation, as Southcote said, and he is incorporated with them, and they with him, and he is the Head, and they are the Members, and he has sole Government of them: and this Body is not subject to Passions as the other is, nor to Death, for as to this Body the King never dies, and his natural Death is not called in our Law (as Harper said) the Death of the King, but the Demise [“Legado”] of the King, not signifying by the Word (Demise) that the Body politic of the King is dead, but that there is a Separation of the two Bodies, and that the Body politic is transferred and conveyed over from the Body natural now dead, or now removed from the Dignity royal, to another Body natural

“Plowden’s Reports” quoted in Kantorowicz, E., “The King’s Two Bodies: A Study in Medieval Political Theology”, 1957.

Slavoj Zižek’s missed encounter with Deleuze

«…in order to read Žižek properly one needs to love both high culture and low comedy. In fact reading his books is in itself a lot like watching a Marx brothers movie. (…)

Between passages of serious engagement with Deleuze, Žižeks writes sentences like: “And to go a step further, is the practice of fist-fucking not the exemplary case of what Deleuze called the “expansion of a concept?”… No wonder Foucault, Deleuze’s Other, was practicing fisting” (Organs 188). Such a sentence is objectionable not because it is irreverent, politically incorrect or because it touches upon a taboo [all of that, in fact, would make it at least slightly interesting], but simply because it is irrelevant.

Žižek’s argument, of course, is reminiscent of Freud’s wonderfully laconic statement about the logic of negation. When a patient told Freud that he did not know the identity of a female figure that he had seen in his dream but that he was sure that it was ‘definitely not his mother,’ Freud simply notes: “We correct, it is the mother.” Similarly, when Deleuze notes that his philosophy, whatever it might be, is ‘definitely not Hegelian,’ Žižek simply notes: ‘We correct, it is Hegelian.’ (…) Žižek sexualizes this love in an image itself taken from Deleuze: “what monster would have emerged if we were to stage the ghastly scene of the specter of Hegel taking Deleuze from behind” (47). Deleuze’s original goes like this: “I saw myself as taking an author fom behind and giving him a child that would be his own offspring, yet monstrous. It was really important for it to be his own child, because the author had to actually say all I had him saying. But the child was bound to be monstrous too, because it resulted from all sorts of shifting, slipping, dislocations, and hidden emissions that I really enjoyed.” (“Letter to a Harsh Critic.” Negotiations. 1972 – 1990 (New York: Columbia UP, 1995, 3-12. 6)). What is Žižek’s investment in this image, which curiously redoubles the one on another philosophical postcard? Anybody who has ever read one of Žižek’s books knows that the two basic attractors around which his thought revolves are Lacan and Hegel. As the philosophical supplement to Lacanian psychoanalysis, Hegel is probably even more important to Žižek than he is to Lacan. He is a constant presence in Žižek’s books, sometimes more, as in Tarrying with the Negative (Durham: Duke UP, 1993) which, let me note in passing, contains the theoretical background on Hegel that Žižek reheats in Organs Without Bodies, and sometimes less, but even when Žižek is not directly talking about Hegel, he is ‘talking Hegel.’ Not surprisingly, Žižek’s deepest interest lately is the legacy of German idealism a.k.a. Hegel & Co. [For more on this interest, see the interview with Žižek in ebr]. For somebody so invested in Hegel, Deleuze, in his acknowledged and often repeated dislike of Hegel, must present a formidable irritation. He is the philosophical itch Žižek would love to scratch. (…)

The stakes, therefore, are high and they go something like this: If Hegel|Lacan can be saved from Deleuze by way of turning Deleuze into Hegel|Lacan, Žižek, and with him psychoanalysis, has scored big. [Derrida is a less threatening reference. Žižek had dealt with him en passant when he had argued that Lacan is not a poststructuralist.’ If it turns out, however, that Deleuze is not Hegel|Lacan and that he refuses to be turned into them, Žižek is in trouble. (…)

Organs Without Bodies is over long stretches not about Deleuze at all.The reason for this is not so much that Lacan and Deleuze mark “incompatible fields” (Organs xi) whose collision entails “over and above the symbolic exchange” (xi) a “traumatic impact” (xi) but simply because Žižek, probably even more so than in his other books, loves to digress. More than half of it [roughly 138 of its 226 pages] is either not about Deleuze, or stands only in a very loose relation to his work. In particular, these are the chapters in the ‘consequences’ section [pages 111 to 148], two of which start off with short Deleuzian references to then go on to ‘something completely different.’ At such moments, one suspects that the Deleuzian argument is merely a rhetorical glue that holds together a number of textual [auto]samplings that round up once more Žižek’s usual suspects: Bush, Slovenia, Cognitive Science, Hitchcock, the Palestine, the Left, the Right, the Middle, bad jokes, dumb movies. (…)

Žižek relates Deleuze’s “becoming Hegel” (50) directly to Deleuze’s notion of immanence, which constitutes a “subterranean link” (51) between the two. Žižek’s claim is that “if there ever was a philosopher of unconditional immanence, it is Hegel” (51), which means that there is really no difference between Deleuze and Hegel because Hegel is ‘always already’ Deleuze. Unfortunately, Hegel’s immanence – and here comes what I take to be the single most crucial sentence of Žižek’s book – is “the immanence of our thought” (51, emphasis added), which means that it has absolutely nothing to do with Deleuze’s concept of immanence. One really wonders how Žižek could have missed this obvious fact, as if he would stand in front of the Deleuzian map, unable to find the names written across it in giant letters! One is tempted here to quote Žižek against himself, although the context is different: “This insight seems so obvious, stating it seems so close to what the French call a lapalissade, that one is surprised how it has not yet been generally perceived” (20) (…)

To immediately separate this from a Lacanian logic, this consciousness is not a human – and thus a Hegelian – consciousness. Rather, it is “a pure stream of a-subjective consciousness, a pre-reflexive impersonal consciousness, a qualitative duration of consciousness without a self” (25). (…)

Ultimately, to be a Lacanian is fine, and to be a Deleuzian is fine as well. Both systems have their own internal consistency, logic and beauty. But in order to really talk, one first has to try and find the lines and the vectors that make up the cosmos of the ‘other.’ Žižek either never took the time for that or he was not able to distance himself enough from the Lacanian logic. Ultimately, the desire to incorporate Deleuze – to sublate him into his own brand of Hegelianism – must have been just a bit too strong for Žižek to really connect with Deleuze. As a result, the book is ultimately a failure. (…)

One wonders what kind of love Žižek meant when he talked, in connection with Deleuze, about his “true love for a philosopher” (Organs 3). (…) Žižek, it seems, can love Deleuze only when he has first dressed him up in Hegelian drag.»

“Is it possible not to love Zižek?” on Slavoj Zižek’s missed encounter with Deleuze by Prof. Dr. Hanjo Berressem (University of Cologne), 2005.

Crítica da crítica

“Perhaps the only difference between me and other people was that I always demanded more from the sunset — more spectacular colors as the sun hit the horizon — that’s perhaps my only sin.”

– Joe, Nymphomaniac.

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Serão críticas como esta capazes de detectar o mais importante nos filmes, num filme, de Lars Von Trier, ou de quem quer que seja?

Cerca de 60% do texto, ao invés de comentar o filme propriamente dito, dedica-se a tecer piadolas pessoais sobre o percurso de Trier (compará-lo à Miley Cyrus é de uma vulgaridade…) ou a construir segundos sentidos com o nome dos seus actores (o crítico acharia graça a que fizessem trocadilhos com o seu apelido?).

A arte da crítica é mais do que “dizer mal”, “mandar umas bocas foleiras”. Mantê-la nesse nível rasteiro é um mau serviço ao leitor, ao jornal e ao cinema. Mais do que um “Livro de Estilo”, o Público devia era ter um “Livro de Ética”, para evitar cair no degredo sensacionalista das revistas de bate-boca.

Se fizesse crítica de cinema, faria por não desencorajar ninguém a ir ver um filme, nem mesmo no caso de um blockbuster manhoso, porque até para esses há público, como sabemos. E nem é pelo Lars Von Trier, o qual já granjeou um estatuto internacional e um lugar na História do Cinema que lhe permite rir das críticas de qualquer crítico… É pelos trabalhadores ligados ao cinema em Portugal, sobretudo, ao cinema independente. Evitaria contribuir para a contracção de uma indústria já muito maltratada neste país. Contem quantos cinemas fecharam na capital nos últimos anos – os dedos de uma mão não chegam… A própria Cinemateca Portuguesa está de rastos.

Lembro-me de uma fichinha da autoria do senhor Luís Miguel Oliveira, distribuída pela Cinemateca por altura da reposição de um filme de Peter Greenaway, denegrindo a obra cinematográfica desse realizador no seu conjunto, sem nenhuma justificação pertinente, desancando-o a “pau de oliveira” (pronto, vamos começar todos a fazer piadas com os apelidos uns dos outros?).

Parece que todos os realizadores de que o senhor Luís Miguel Oliveira não gosta, estão no meu panteão dos melhores (sim, Trier, Greenaway…) – é azar.

Não vi ainda o filme “Nymphomaniac”, só o trailer banido pelo Youtube (a censura acabou com o 25 de Abril?) e os excertos dos capítulos que a Zentropa disponibilizou nas redes sociais. Só por essa amostra de cenas, já deu para reconhecer “pontos salientes” suficientes para me motivar a vê-lo com a certeza de que será interessante – e nenhum comentário tacanho me demoverá de o fazer.

A suposta “dicotomia puritana sobre a qual von Trier constrói o filme” não é do Trier – é do Luís Miguel Oliveira. O crítico esquece-se de que está a interpretar. Interpreta a imagem de caixotes do lixo como “sordidez”; para outros, os contentores são recipientes de grande utilidade. Interpreta o sexo como “fonte de vida”; porque não fonte de morte? (Bataille, Foucault…). O senhor Luís Miguel Oliveira faria melhor em dedicar-se à pesca, já que uma das poucas coisas que reteve do filme foi a “cultura piscícola”.

Até a actriz principal de “Nymphomaniac” (Charlotte Gainsbourg), que estará mais por dentro da lógica do filme do que qualquer crítico, confessa modestamente que não tem a certeza de o ter compreendido, mas os críticos, esses, estão auto-convencidos de que perceberam tudo e de que podem julgar taxativamente em função disso. É, actualmente, fácil demais encontrar pessoas que percebem tudo (mas que não entendem nada).

Razão tinha o arguto César Monteiro em dizer que:

“Os críticos não percebem os filmes que vão ver. (…) Li uma crítica dum filme (…). Não percebe nada do “plot”. Ploft. Não entendeu. Se não entendeu, porque é que escreve? Eu não entendo, mas eu não escrevo.”

Fala do cinema, mas não se poderia dizer o mesmo dos críticos literários?