Memória de uma intensidade

Vives-me na lembrança
como algo que não és, criança
que eu, por defeito, construí,
imagem de um buraco de si.

Invades-me o apolíneo sonho,
sempre com aquele ar tristonho
do pequeno grande ditador,
incapaz de acolher o amor.

És como a página amarelecida
desse livro que é a vida,
tão árduo e complicado de se ler,
e lês, quando deverias viver.

Mas, mesmo contra vontade,
não deixo de ser, na realidade,
uma tua diáfana extensão,
no inconsciente e na irrazão.

Como se lá estivesse unido,
nesse lugar tão pouco comprido,
tudo o que a consciência separar,
por excesso de se vigiar.

Não há solução possível para nós,
senão um silêncio cortante e atroz
e a distância sempre aumentada:
da mais pura intensidade, fazer nada.

Assim como o fogo cinza faz,
e o rio fluente, no gelo, jaz,
também assim, petrificados,
guardaremos os nossos dados.

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