E levantam-se as pessoas

«E levantam-se as pessoas
Como quem se adormecesse.
Preparam-se para o sono
De uma vigília nas ruas
Nas casas e nos empregos.

E naufragam e sufocam
Nas avenidas do Tempo.
Conversam como quem fecha
Creches gaiolas enterros
– Crianças aves e mortos.

Nos sorrisos e nos risos
Na lucidez dos reflexos
Pensam os tristes dos homens
Ganhar os dias correndo.
Mas são retidos nas sombras.
São amarrados ao vento.
São sacudidos em potros
E forcas de entendimento.
Eles que são cabeleiras,
Nas chuvas de outros intentos
Nos rios e nas goteiras.

E levantam-se as pessoas
Como quem fosse viver.

Dá o Sol por sobre o Dia
Faz o dia apodrecer.

(Maduro quer dizer Morte
Com toda a sabedoria)

Deitam-se então as pessoas
Para a morte de outro dia.»

– Natércia Freire (1919 – 2004), “Os Intrusos”, 1971.

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