Love dialogue

A pretender asks his pretended one:

– You look like a virgin. I wonder if you are…

– Physically or mentally?

– What do you mean?…

– Mentally, I will always be a virgin, no matter how many men I physically sleep with.

– It seems you’re trying to conceal something…

– No, don’t get me wrong. There’s nothing to conceal… After all, I am blonde, and, as with all blondes, there’s a virginal air flow passing through my head.

– You’re obviously not being very flattering with blondes and with yourself.

Darling, if you did know a real blonde, you would notice that I am actually being very flattering with them and with myself. I bet you have never slept with one either… which makes you a virgin in the reverse way.

– Are you now flattering me?

– If you think so…

End of dialogue.

The key of the total intelligibility

«Distinguished Sir,

I received on Saturday last your very short letter dated 15th Nov. In it you merely indicate the points in the theological treatise, which have given pain to readers, whereas I had hoped to learn from it, what were the opinions which militated against the practice of religious virtue, and which you formerly mentioned.

However, I will speak on the three subjects on which you desire me to disclose my sentiments, and tell you, first, that my opinion concerning God differs widely from that which is ordinarily defended by modern Christians. For I hold that God is of all things the cause immanent, as the phrase is, not transient. I say that all things are in God and move in God, thus agreeing with Paul, and, perhaps, with all the ancient philosophers, though the phraseology may be different; I will even venture to affirm that I agree with all the ancient Hebrews, in so far as one may judge from their traditions, though these are in many ways corrupted. The supposition of some, that I endeavour to prove in the Tractatus Theologico-Politicus the unity of God and Nature (meaning by the latter a certain mass or corporeal matter), is wholly erroneous.

As regards miracles, I am of opinion that the revelation of God can only be established by the wisdom of the doctrine, not by miracles, or in other words by ignorance. This I have shown at sufficient length in Chapter VI concerning miracles. I will here only add, that I make this chief distinction between religion and superstition, that the latter is founded on ignorance, the former on knowledge; this, I take it, is the reason why Christians are distinguished from the rest of the world, not by faith, nor by charity, nor by the other fruits of the Holy Spirit, but solely by their opinions, inasmuch as they defend their cause, like everyone else, by miracles, that is by ignorance, which is the source of all malice; thus they turn a faith, which may be true, into superstition.

Finally, to disclose my meaning more clearly on the third head, I say that for salvation it is not altogether necessary to know Christ according to the flesh; but with regard to the eternal son of God, that is, God’s eternal wisdom, which has manifested itself in all things and chiefly in the humanmind, and most of all in Jesus Christ, a very different view must be take [dico ad salutem non esse omnino necesse Christum, secundum carnem noscere; sed de aeterno illo Dei filio, hoc est Dei aeterna sapientia, quae sese in omnibus rebus, et maxime in mente humana et maxime in mente Christi Jesu manifestavit, longe aliter sentiendum].

For without this, no one can attain to a state of blessedness, since this alone teaches what is true and false, good an devil. And since, as I have said, this wisdom has been manifested most of all through Jesus Christ, his disciples have preached it as far as he revealed it to them [quatenus ab ipso fuit revelata], and have shown themselves able to glory above all others in that spirit of Christ. As to the additional teachings of certain Churches that God took upon himself human nature, I have expressly indicated that I do not understand what they say.

Indeed, to tell the truth, they seem to me to speak no less absurdly than one who might tell me that a circle has taken on the nature of a square [circulus naturam quadrati induerit]. This, I think suffices to explain what is my opinion on those three heads [capitibus]. As to whether it is likely to please the Christians of your acquaintance, you will know better than I. Farewell.»

– Spinoza’s letter to Henry Oldenburg (the secretary of the Royal Society in London), November 1675 (a year and a half before Spinoza’s death).

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«By affirming the total intelligibility for humankind of the essence of God and things, Spinoza is consciously opposing Descartes (…). Absolute rationalism, imposing the total intelligibility of God, the key of the total intelligibility of things, is thus for Spinozism the first article of faith. Through God alone is the soul purged from the multiple superstitions, for which an incomprehensible God serves as the ultimate refuge, and through him does the soul accomplish this perfect union of God and humanity that conditions salvation.»

– Martial Gueroult, Spinoza, p. 12.

7,8

O coração é um sensível sismógrafo.
Mas a potência espiritual
está rigorosamente envolvida
pela impotência mundana.
Os animais correm horas
antes do acontecimento?
O homem, quando empurra em si a besta,
é a sensibilidade mais animal do mundo.
O coração corre – durante semanas –
com o acontecimento
e abandona-o antes da ruína.
Há coisas que mais vale não saber
antes do agora,
que é sempre a hora
da nossa morte.
Espírito intempestivo,
espírito vivo,
canta comigo,
mas canta baixinho,
que, se teu núcleo de notas
toca a parede da membrana,
demole a ponte
por onde eu passo, amigo.

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‘Este é o verdadeiro ditame de um perfeito superior’

«Melhor é não inclinar, que inclinar ao melhor. (…)

Todas as coisas deste mundo têm a sua inclinação natural: só uma há que não tem inclinação. E qual é? O centro. Todas as partes do universo propendem, carregam e inclinam para o centro; só o centro, que está no meio de todas, não inclina para parte alguma. E por que razão? Porque, se o centro inclinasse a uma ou a outra parte, no mesmo ponto se arruinaria toda a máquina do mundo: Fundasti terram super stabilitatem suam, non inclinabitur in saeculum saeculi (SI. 1o3, 5). Fundou Deus a terra — diz o profeta — sobre a sua própria estabilidade, a qual nunca se inclinou, nem inclinará jamais. — E que fundamento da terra é este tão estável e firme, que nem se inclina nem se há de inclinar? Não há dúvida que é o centro: Super stabilitatem suam, videlicet supra centrum ipsius, quoniam omnes partes terrae naturaliter tendunt in centrum[23] — comenta, com Aristóteles, Dionísio Cartusiano. — De maneira que todas as partes do universo se inclinam ao centro, e o centro a nenhuma delas se inclina, porque está no meio: In medio. Grande documento da natureza para as inclinações das vontades superiores. Quereis levar após vós as inclinações de todos? Não vos inclineis a nenhum. Porque o centro posto no meio não tem inclinação a nenhuma das partes, por isso todas as partes do universo se inclinam concordemente ao centro, e com a mesma inclinação e com a mesma concórdia se unem entre si e se conservam em paz. (…)

A terra não tem nem pode ter mais que um centro, e em ser um só consiste toda a sua firmeza (…).

O centro do mundo natural é o meio da terra; os centros do mundo político, são todos os que têm o mando e governo do mesmo mundo, ou de suas partes, diz S. Jerónimo. Dentro deste orbe político há muitos círculos, maiores ou menores, e cada um tem o seu centro. Os círculos maiores são os reinos, e o centro do reino é o príncipe; os círculos menores são as cidades, e o centro da cidade é o magistrado; os círculos mínimos são as famílias, e o centro da família é o pai. (…) Segue-se que para cada um destes centros se conservar dentro da sua esfera, e para a conservar a ela em paz e concórdia, é necessário que se ponha como verdadeiro centro no meio, e se mantenha e sustente na indiferença deste equilíbrio, sem inclinação a uma nem a outra parte: In medio. (…)

Que o príncipe não incline para a parte esquerda, que é a pior parte, bem está; mas, para a direita, por que não? A parte direita não é a melhor? Sim. Pois, por que não quer Deus que o príncipe se incline nem à melhor parte? Porque melhor é não inclinar que inclinar ao melhor. (…) — Inclino-me a não me inclinar. — Este é o verdadeiro ditame de um perfeito superior. Inclinar-se a não ter inclinação: Non declinabis ad de.xteram, neque ad sinistram.Porque inclinar-se a uma parte, qualquer que seja, é faltar ao equilíbrio da igualdade, e, com a desigualdade, perder a união, perder a paz, perder a concórdia e perturbar tudo. E assim seria na família ou na república, se se movesse o centro, se se deixasse o meio e se se inclinasse a cabeça: Stetit in medio — não só no meio — in medio — mas no meio sem inclinação — stetit.
No corpo natural bem se pode inclinar a cabeça sem movimento nem mudança do corpo; no corpo político não pode.»

– Padre António Vieira, “Sermão da Segunda Oitava da Páscoa”, pregado em italiano a 25 de março de 1674, Roma.

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[Este é que é o António Vieira que se devia dar nas escolas – não o dos peixinhos como parábola moral sobre virtudes e vícios, interpretada da forma mais ‘cafona’ possível -, o António Vieira dos sermões de Roma, onde o seu discurso atinge um máximo tal, que o próprio Papa lhe concede um especialíssimo privilégio, desautorizando e proibindo a provinciana Inquisição Portuguesa de pôr as maculosas manápulas em cima de tão esclarecido orador. Pior que errar é repetir os piores erros. Ainda hoje se procura silenciar Vieira e a sua defesa dum Quinto Império “espiritual e temporal”, “da Terra” – “e não do Céu”. Calem-se antes os caquéticos publicistas da lusofonia nacionalista e os conservadores da transcendência tradicional, e calem-se, sobretudo, os padres: «a
imagem de Cristo, que está na Igreja, é imagem morta» (António Vieira, “Sermão da Quarta Dominga da Quaresma”, IX, São Luís do Maranhão, 1657). Cada sermão de Vieira vos lança por terra.]