‘Este é o verdadeiro ditame de um perfeito superior’

«Melhor é não inclinar, que inclinar ao melhor. (…)

Todas as coisas deste mundo têm a sua inclinação natural: só uma há que não tem inclinação. E qual é? O centro. Todas as partes do universo propendem, carregam e inclinam para o centro; só o centro, que está no meio de todas, não inclina para parte alguma. E por que razão? Porque, se o centro inclinasse a uma ou a outra parte, no mesmo ponto se arruinaria toda a máquina do mundo: Fundasti terram super stabilitatem suam, non inclinabitur in saeculum saeculi (SI. 1o3, 5). Fundou Deus a terra — diz o profeta — sobre a sua própria estabilidade, a qual nunca se inclinou, nem inclinará jamais. — E que fundamento da terra é este tão estável e firme, que nem se inclina nem se há de inclinar? Não há dúvida que é o centro: Super stabilitatem suam, videlicet supra centrum ipsius, quoniam omnes partes terrae naturaliter tendunt in centrum[23] — comenta, com Aristóteles, Dionísio Cartusiano. — De maneira que todas as partes do universo se inclinam ao centro, e o centro a nenhuma delas se inclina, porque está no meio: In medio. Grande documento da natureza para as inclinações das vontades superiores. Quereis levar após vós as inclinações de todos? Não vos inclineis a nenhum. Porque o centro posto no meio não tem inclinação a nenhuma das partes, por isso todas as partes do universo se inclinam concordemente ao centro, e com a mesma inclinação e com a mesma concórdia se unem entre si e se conservam em paz. (…)

A terra não tem nem pode ter mais que um centro, e em ser um só consiste toda a sua firmeza (…).

O centro do mundo natural é o meio da terra; os centros do mundo político, são todos os que têm o mando e governo do mesmo mundo, ou de suas partes, diz S. Jerónimo. Dentro deste orbe político há muitos círculos, maiores ou menores, e cada um tem o seu centro. Os círculos maiores são os reinos, e o centro do reino é o príncipe; os círculos menores são as cidades, e o centro da cidade é o magistrado; os círculos mínimos são as famílias, e o centro da família é o pai. (…) Segue-se que para cada um destes centros se conservar dentro da sua esfera, e para a conservar a ela em paz e concórdia, é necessário que se ponha como verdadeiro centro no meio, e se mantenha e sustente na indiferença deste equilíbrio, sem inclinação a uma nem a outra parte: In medio. (…)

Que o príncipe não incline para a parte esquerda, que é a pior parte, bem está; mas, para a direita, por que não? A parte direita não é a melhor? Sim. Pois, por que não quer Deus que o príncipe se incline nem à melhor parte? Porque melhor é não inclinar que inclinar ao melhor. (…) — Inclino-me a não me inclinar. — Este é o verdadeiro ditame de um perfeito superior. Inclinar-se a não ter inclinação: Non declinabis ad de.xteram, neque ad sinistram.Porque inclinar-se a uma parte, qualquer que seja, é faltar ao equilíbrio da igualdade, e, com a desigualdade, perder a união, perder a paz, perder a concórdia e perturbar tudo. E assim seria na família ou na república, se se movesse o centro, se se deixasse o meio e se se inclinasse a cabeça: Stetit in medio — não só no meio — in medio — mas no meio sem inclinação — stetit.
No corpo natural bem se pode inclinar a cabeça sem movimento nem mudança do corpo; no corpo político não pode.»

– Padre António Vieira, “Sermão da Segunda Oitava da Páscoa”, pregado em italiano a 25 de março de 1674, Roma.

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[Este é que é o António Vieira que se devia dar nas escolas – não o dos peixinhos como parábola moral sobre virtudes e vícios, interpretada da forma mais ‘cafona’ possível -, o António Vieira dos sermões de Roma, onde o seu discurso atinge um máximo tal, que o próprio Papa lhe concede um especialíssimo privilégio, desautorizando e proibindo a provinciana Inquisição Portuguesa de pôr as maculosas manápulas em cima de tão esclarecido orador. Pior que errar é repetir os piores erros. Ainda hoje se procura silenciar Vieira e a sua defesa dum Quinto Império “espiritual e temporal”, “da Terra” – “e não do Céu”. Calem-se antes os caquéticos publicistas da lusofonia nacionalista e os conservadores da transcendência tradicional, e calem-se, sobretudo, os padres: «a
imagem de Cristo, que está na Igreja, é imagem morta» (António Vieira, “Sermão da Quarta Dominga da Quaresma”, IX, São Luís do Maranhão, 1657). Cada sermão de Vieira vos lança por terra.]

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