O debate necessário entre Foucault e Chomsky

[Adaptado do e-mail para um amigo, a propósito deste vídeo e da vinda de Chomsky a um congresso em Portugal:]

Chomsky, com todas as suas boas intenções “subjectivistas” e “idealistas”, é herdeiro da linhagem moralista que agrada tanto aos anglo-saxónicos – Locke, Bentham, Stuart Mill, Rawls, Searle… – combinando-a com as trivialidades do “marxismo” tradicional (luta de classes, dominados vs. dominantes, etc.), adoptadas por um burguês.

Por seu lado, Foucault, menos ingénuo e mais precavido contra o “antropocentrismo/personalismo” (“problema pessoal é ausência de problema”), dá estocadas com sobriedade: se o seu interlocutor julga que só é válida a “sua” (isto é, do seu espaço-tempo) noção do que é a “boa” natureza humana, do que é a “boa” justiça, desemboca num moralismo pretensioso (“é ou não é em nome de uma justiça ‘mais pura’ que você critica o funcionamento da Justiça”?; “espécie de tribunal em nome de uma justiça ideal, uma justiça superior e humana”, “numa sociedade sem classes, não creio que utilizássemos tal noção de justiça”), sem se aperceber que é tudo uma questão de combate “necessário” entre poderes (“vou-lhe responder em termos de Spinoza, o proletariado não faz a guerra à classe dirigente porque ele considera que essa guerra é justa… mas porque ele quer… tomar o poder”), e que o indivíduo, ao invés de causa, surge como efeito (“indivíduos que são, de maneira directa ou indirecta, o produto da sociedade na qual nos encontramos”).

As noções de “saber” e de “poder” de Foucault saem de um diagrama (Velho Mundo, francês) que é, evidentemente, mais espesso em História do Pensamento do que o diagrama de Chomsky (Novo Mundo, americano) – e isso vê-se. Fica clara uma das principais clivagens entre analíticos e continentais: os primeiros tendem ao discurso dos juízes ou sacerdotes convencidos da sua razão auto-suficiente (lógicos, psicólogos, linguistas, todos ainda cartesianos), enquanto que os segundos, quero dizer, os mais avançados de entre eles, estão num patamar em que Aristóteles, Freud, Saussure e, sobretudo, Descartes (que era, aliás, francês) já foram ultrapassados.

Talvez exagere um pouco, mas, é como comparar, no tratamento da figura, Egon Schiele com Francis Bacon.

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Dei-me conta que, ao adaptar este e-mail para o blog, tratei de remover todos os índices referentes à minha própria pessoa – não é sobretudo isso que distingue a conversa coloquial de café do suposto rigor do ensaio científico? Como se o primeiro discurso devesse pender para o lado do sujeito e o segundo devesse pender para o lado do objecto. Na realidade, são os dois produtos do mesmo corte: nascem ao mesmo tempo e correlativamente.

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