Balanço patriótico

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Balanço patriótico:

Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúsio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, bêsta de nora, agùentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalépsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, emfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional,—reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta;

Um clero português, desmoralizado e materialista, liberal e ateu, cujo vaticano é o ministério do reino, e cujos bispos e abades não são mais que a tradução em eclesiástico do fura-vidas que governa o distrito ou do fura-urnas que administra o concelho[1]; e, ao pé dêste clero indígena, um clero jesuítico, estrangeiro ou estrangeirado, exército de sombras, minando, enredando, absorvendo,—pelo púlpito, pela escola, pela oficina, pelo asilo, pelo convento e pelo confissionário,—fôrça superior, cosmopolita, invencível, adaptando-se com elasticidade inteligente a todos os meios e condições, desde a aldeola ínfima, onde berra pela bôca epiléptica do fradalhão milagreiro, até à rica sociedade elegante da capital, onde o jesuìtismo é um dandismo de sacristia, um beatério chic, Virgem do tom, Jesus de high-life, prédicas untuosas (monólogos ao divino por Coquelins de fralda) e em certos dias, na igreja da moda, a bonita missa encantadora,—luz discreta, flores de luxo, paramentos raros, cadeiras cómodas, latim primoroso, e hóstia glacée, com pistache, da melhor confeitaria de Paris;

Uma burguesia, cívica e políticamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provêm que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro[2];

Um exército que importa em 6.000 contos, não valendo 60 réis, como elemento de defesa e garantia autonómica;

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; êste criado de quarto do moderador; e êste, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do país, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre,—como da roda duma lotaria;

A Justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara a ponto de fazer dela um saca-rôlhas;

Dois partidos monárquicos, sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, na hora do desastre, de sacrificar à monarquia ou meia libra ou uma gota de sangue, vivendo ambos do mesmo utilitarismo scéptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguêm deu no parlamento,—de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar;

Um partido republicano, quási circunscrito a Lisboa, avolumando ou diminuindo segundo os erros da monarquia, hoje aparentemente forte e numeroso, àmanhã exaurido e letárgico,—água de pôça inerte, transbordando se há chuva, tumultuando se há vento, furiosa um instante, imóvel em seguida, e evaporada logo, em lhe batendo dois dias a fio o sol ardente; um partido composto sobretudo de pequenos burgueses da capital, adstritos ao sedentarismo crónico do metro e da balança, gente de balcão, não de barricada, com um estado maior pacífico e desconexo de vélhos doutrinários, moços positivistas, românticos, jacobinos e declamadores, homens de boa-fé, alguns de valia mas nenhum a valer; um partido, emfim, de índole estreita, acanhadamente político-eleitoral, mais negativo que afirmativo, mais de demolição que de reconstrução, faltando-lhe um chefe de autoridade abrupta, uma dessas cabeças firmes e superiores, olhos para alumiar e bôca para mandar,—um dêsses homens predestinados, que são em crises históricas o ponto de intercepção de milhões de almas e vontades, acumuladores eléctricos da vitalidade duma raça, cérebros omnímodos, compreendendo tudo, adivinhando tudo,—livro de cifras, livro de arte, livro de história, simultaneamente humanos e patriotas, do globo e da rua, do tempo e do minuto, fôrças supremas, fôrças invencíveis, que levam um povo de abalada, como quem leva ao colo uma criança;

Instrução miserável, marinha mercante nula, indústria infantil, agricultura rudimentar;

Um regime económico baseado na inscrição e no Brasil, perda de gente e perda de capital, autofagia colectiva, organismo vivendo e morrendo do parasitismo de si próprio;

Liberdade absoluta, neutralizada por uma desigualdade revoltante,—o direito garantido virtualmente na lei, posto, de facto, à mercê dum compadrio de batoteiros, sendo vedado, ainda aos mais orgulhosos e mais fortes, abrir caminho nesta porcaria, sem recorrer à influência tirânica e degradante de qualquer dos bandos partidários;

Uma literatura iconoclasta,—meia dúzia de homens que, no verso e no romance, no panfleto e na história, haviam desmoronado a cambaleante scenografia azul e branca da burguesia de 52, opondo uma arte de sarcasmo, viril e humana, à frandulagem pelintra da literatura oficial, carimbada para a imortalidade do esquecimento com a cruz indelével da ordem mendicante de S. Tiago;

Uma geração nova das escolas, entusiasta, irreverente, revolucionária, destinada, porêm, como as anteriores, viva maré dum instante, a refluir anódina e apática ao charco das conveniências e dos interesses, dela restando apenas, isolados, meia dúzia de homens inflexos e direitos, indenes à podridão contagiosa pela vacina orgânica dum carácter moral excepcionalissíssimo;

E se a isto juntarmos um pessimismo canceroso e corrosivo, minando as almas, cristalizado já em fórmulas banais e populares,—tão bons são uns como os outros, corja de pantomineiros, cambada de ladrões, tudo uma choldra, etc. etc.,—teremos em sintético esbôço a fisionomia da nacionalidade portuguesa no tempo da morte de D. Luís, cujo reinado de paz podre vem dia a dia supurando em gangrenamentos terciários.

O advento do materialismo burguês, inaugurado pela ironia scéptica do Rodrigo, acabava pela galhofa cínica do Mariano. O riso de sibarita, levemente amargo, desfechava no riso canalha, de garotão de aljube. O patusco terminava em malandro.

A burguesia liberal, mercieiros-viscondes, parasitagem burocrática, bacharelice ao piano, advogalhada de S. Bento, morgadinhas, judias, sinos, estradas, escariolas, estações, inaugurações, locomotivas (religião do Progresso, como êles diziam), todo êsse mundo de vista baixa, moralmente ordinário e intelectualmente reles, ia agora liquidar numa infecta débâcle de casa de penhores, num Alcacer-Kibir esfarrapado, de feira da ladra.

A nação, como o rei, ia cair de podre.

O conflito inglês e a revolução brasileira, dois cáusticos, puseram a nu, de improviso, toda a nossa debilidade orgânica,—miséria de corpo e miséria de alma.

Falecimento e falência. Ruínas. Montões de vergonhas, trapos de leis, cisco de gente, lama de impudor, carcassas de bancos, famintos emigrando, porcos digerindo, ladroagem, latrinagem, um salve-se quem puder de egoismos e de barrigas, derrocada dum povo numa estrumeira de inscrições,—700 mil contos de calote público, a bela colheita do torrão português, regado a oiro, a libras, desde 52 até 90.

A crise não era simplesmente económica, política ou financeira. Muito mais: nacional. Não havia apenas em jôgo o trono do rei ou a fortuna da nação. Perigava a existência, a autonomia da pátria. Hora grande, momento único. A revolução impunha-se. Republicana? Conforme. Se o monarca nos saísse um alto e nobre carácter, um grande espírito, juvenil e viva encarnação de ideal heróico, tanto melhor. A revolução estava feita. Imprimia-se, dum dia ao outro, no Diário do Govêrno.

Mas feita com quem, perguntarão, se tudo era lôdo? Feita com o elemento moço do exército e da marinha, com quási todo o partido republicano[3], com individualidades íntegras e notáveis dos partidos monárquicos, com a juventude das escolas, com um sem-número de indiferentes por nojo e por limpeza, com os duzentos homens de sério valor intelectual dispersos nas letras, nas sciências, no comércio e na indústria, e com o povo, o povo inteiro, que acordaria, Lázaro estremunhado, da sua campa de três séculos, à voz dum vidente, ao grito dum Nunalvares.

O português, apático e fatalista, ajusta-se pela maleabilidade da indolência a qualquer estado ou condição. Capaz de heroismo, capaz de cobardia, toiro ou burro, leão ou porco, segundo o governante. Ruge com Passos Manuel, grunhe com D. João VI. É de raça, é de natureza. Foi sempre o mesmo. A história pátria resume-se quási numa série de biografias, num desfilar de personalidades, dominando épocas. Sobretudo depois de Alcacer. Povo messiânico, mas que não gera o Messias. Não o pariu ainda. Em vez de traduzir o ideal em carne, vai-o dissolvendo em lágrimas. Sonha a quimera, não a realiza.

O próprio Pombal é o Desejado? Não. Fez-se temer, não se fez amar. Cabeça de bronze, coração de pedra. Moralmente, ignóbil. Rancoroso, ferino, alheio à graça, indiferente à dôr. Inteligência vigorosa, material e mecânica, sem vôo e sem asas. Um brutamontes raciocinando claro. Falta-lhe o génio, o dom de sentir, nobreza heróica, vida profunda,—humanidade, em suma. Máquina apenas. Não criou, produziu. A criação vem do amor, a génese é divina. Criar é amar. Por isso a obra lhe foi a terra. Pulverizou-se. Só dura o que vive. Uma raíz esteia mais que um alicerce. Pombal em três dias, num deserto, quis formar um bosque. Como? Plantando traves. Adubou-as com mortos e regou-as a sangue. Apodreceram melhor.

Sei muito bem que o estadista não é o santo, que o grande político não é o mártir, mas sei tambêm que toda a obra governativa, que não fôr uma obra de filosofia humana, resultará em geringonça anecdótica, manequim inerte, sem olhar e sem fala.

A ductilidade, quási amorfa do carácter português, se torna duvidosas as energias colectivas, os espontâneos movimentos nacionais, facilita, no entanto, de maneira única, a acção de quem rege e quem governa. Cera branda, os dedos modelam-na à vontade. Um grande escultor, eis o que precisamos.

Há, alêm disso, bem no fundo dêste povo um pecúlio enorme de inteligência e de resistência, de sobriedade e de bondade, tesoiro precioso, oculto há séculos em mina entulhada. É ainda a sombra daquele povo que ergueu os Jerónimos, que escreveu os Lusíadas. Desenterremo-la, exumemo-la. Quem sabe, talvez revivesse!

Fôra o rei um homem, que a nacionalidade moribunda se levantaria por encanto. E bem se me dava a mim da questão política, da forma de govêrno. Essencial, a forma do governante. Prefiro uma boa república a uma boa monarquia. A coroa de rei, de pais a filhos transmissível, como a coroa de Vénus; o trono hereditário como as escrófulas,—absurdo evidente. Mas se de absurdos anda cheio o mundo! Salta-se menos da majestade à ex.^a que da ex.^a ao tu. Impero eu mais no meu criado que o rei em mim[4]. Há em cada burguês uma monarquia. Milhões de burgueses, milhões de absurdos. E eliminam-se acaso numa hora?

Não se tratava por emquanto de modalidades orgânicas de existência; tratava-se de existir. Problema social e problema político marchariam evolutivamente na órbita ininterrupta do seu destino. Quando um vapor alagado vai ao fundo, discute a marinhagem construções navais? Primeiro salvá-lo, o estaleiro depois. Quer dizer: a revolução urgente não era social, nem política, era moral. Nem havia a escolher entre monarquia e república, pois que, para escolher entre duas coisas, é necessário existirem, e a república, tanto custava a realizar, que ainda até hoje a não fizemos.

A segurança da pátria exigia inadiavelmente à frente do govêrno um homem de superior inteligência, de altivo carácter, de ânimo heróico e resoluto. Era-o D. Carlos? obedeceríamos a D. Carlos. Uma alma, uma vassoira e uma carroça; de nada mais precisava. Varrer, limpeza geral, pôr isto decente! Tal embaixador levantára castelos de milionário com o dinheiro da nação? Transferi-lo de embaixada: representante vitalício do Limoeiro em África. Tal ex-ministro compra as quintas, vendendo a vergonha? Penhora e prisão. Os bens ao erário, o corpo à penitenciária. Deslaçar grã-cruzes e chumbar grilhetas. Norte e Leste, lamas do Tejo, Banco Lusitano, obras do estado, etc., etc., todas essas montureiras gangrenadas,—poios de escândalos, obscenamente fermentando ao ar livre,—queimá-las a calcium, purificá-las a vitríolo. Calcamos infâmias, respiramos veneno. Que um ciclone de justiça nos purificasse o ar e desentulhasse as estradas. Caminho livre, atmosfera nova! Quem baldeou o país à ruina, à miséria do lar, à indigência da alma? Idiotas? Aposentá-los em onagros. Bandidos? Metê-los na cadeia.

E a questão económica? Resolvida por si. Direi mais: útil e necessária. Mas resolvida de que forma? Pelo sacrifício de todos, pela abnegação colectiva. As pátrias, como os indivíduos, só se regeneram sofrendo. A dôr é salvadora. Não há virtude sem martírio, não há Cristo sem cruz. A Redenção vem da Paixão. A vida fortalece-se na angústia. Nem só a do homem, a vida inteira, a vida universal. A procela avigora o roble, e o ferro candente adquire a têmpera, mergulhando-o em gêlo. Quando a desgraça parece matar uma nação, é que tal nação estava morta. O cáustico, que levantou o doente, decompõe o cadáver.

Resumindo: desastres, misérias, vergonhas, infortúnios, calamidades, subjugadas com energia e padecidas com nobreza, enseivariam de novo alento o coração exânime da pátria. O raio lascou a árvore? Brotaria, amputada, com maior violência. A alma habita na raíz.

Mas seria possível conjurar quatro milhões de interesses, quatro milhões de egoismos, num ímpeto de fé heróica e de renúncia? Era. Digo-o sem hesitar. O sibarita que ria, o cevado que ronque. Era! O espírito, como o fogo, consome traves, calcina pedras, derrete metais. O facho duma alma pode incendiar uma Babilónia. Um iluminado pode abrasar um império. Tem-se visto. O cofre-forte é de ferro, a libra é de oiro, o egoismo é de bronze, mas a electricidade impalpável, invisível, imponderável, volatiliza tudo num momento. Ora o espírito é a electricidade de Deus. Nada lhe resiste. Devora séculos, evapora mundos. Jesus e Buda,—um crucificado, o outro mendigo,—refazem o globo, põem nova máscara à criação. Joana d’Arc e Nunalvares, irmãos gémeos, redimem duas pátrias. Focos ambulantes de espírito divino, arrastam e vencem,—magnetizando. O céu é contagioso como a lepra.

Claro que o milagre exige a fé. Nem todos os sábios juntos escreveriam os evangelhos. A língua do homem, sem a língua de fogo, não apostoliza, discursa. Um Doutor não é um Messias.

A metempsicose, em moderno, do grande Condestável, eis o meu sonho. Um justiceiro e um crente. Braço para matar, bôca para rezar. Pelejas como as de Valverde só se ganham assim: ajoelhando primeiro. O Nunalvares de hoje não usaria cota, nem escudo, mas, ao cabo, seria idêntico. A mesma chama noutro invólucro. Não combateria castelhanos, combateria portugueses. O inimigo mora-nos em casa. Aljubarrota no Terreiro do Paço e os Atoleiros… nos mil atoleiros de infâmias que enodoam as ruas, e obstruem o trânsito. Queríamos um justo inexorável, um santo heróico, com a verdade nos lábios e uma espada na mão. Os quadrilheiros que infestam Lisboa e os sub-quadrilheiros que infestam as províncias, anulá-los, esmagá-los num dia, numa hora, sem pena e sem remorso, vasando-os logo,—atascadeiro de baixezas, lôdo de malandros,—pelo buraco infecto duma comua. Depois pregar a tampa. Um colector in pace, um cano de esgôto jazigo de família.

E, removidos os focos epidémicos, voltaria em breve a saúde geral. A obra de reconstrução, inda que lenta, marcharia sem estôrvo. Humanizar o ensino, nacionalizar a indústria, um clero português e cristão, a justiça fora da política, o exército fora de S. Bento, os burocratas para a burocracia, o professorado para as escolas, o poder legislativo entregue às fôrças independentes e vivas do país, arrotear o solo, colonizar a África,—tudo era possível, tudo era simples, desde que nos dessem uma fé, uma crença, vida luminosa,—uma alma!

Alma! eis o que nos falta. Porque uma nação não é uma tenda, nem um orçamento uma bíblia. Ninguêm diz: a pátria do comerciante Araújo, do capitalista Seixas, do banqueiro Burnay. Diz-se a pátria de Herculano, de Camilo, de Antéro, de João de Deus. Da mera comunhão de estômagos não resulta uma pátria, resulta uma pia. Sócios não significa cidadãos. O burguês estúpido, perante as calamidades que nos assaltam, computa-as em libras, redu-las a dinheiro. Parece que se trata duma mercearia em decadência. Dívida flutuante, impostos, câmbios, cotações, alfândegas, cifras, dinheiro, nada mais. A ruína moral não entra na conta nem por um vintêm. Deve e há-de haver, eis o problema. Direito, Justiça, Honra, Pundonor,—palavras! Se o gigo das compras andasse farto e os negócios corressem, podiam encafuar Jesus Cristo na penitenciária e sua Mãe no aljube, que a récua burguesa, dizendo-se católica, não se moveria. O câmbio estava ao par.

Falir um banco, que desastre! Falir uma alma…—Mas que demónio é isto de falir uma alma?—

Ouve lá, burguês rotundo. Um exemplo. Ouviste já nomear por acaso o Fialho de Almeida? Vagamente. Ora bem; êsse Fialho é a mais rica natureza artística que Portugal tem gerado há duas dúzias de anos. Um talento grande, rutilando em génio por instantes. Em génio, sim. Leiam os Pobres, o Filho, a Vélha, o Idílio triste. Natureza de sensibilidade vibrátil, agudíssima, quási mórbida. Depois português, idolatrando o seu Alentejo, adorando a sua pátria, instintivamente, orgânicamente, como a raíz adora a terra.

A uma tal natureza, em Lisboa, de 90 a 93, hora a hora assistindo à decomposição putrefacta daquela percevejaria nausente, não lhe era lícito o refúgio nirvânico dos metafísicos ou dos hábeis na decantada tôrre de marfim. O Fialho estava pobre e o marfim muito caro. Índole ardente e valorosa, palpitante de plebeismo robusto, de humanidade sanguínea, olvidou planos de arte, sonho alado, quimera astral, e de chicote nas unhas, mordaz e mordendo, arremeteu contra a fandangagem da sociedade lisboeta, como alguêm que marchando direito a um nobre destino, se atirasse de repente às ondas, aventurando a vida,—para salvar um bêbado.

Entre os projectos literários do admirável artista, um havia mais que todos acariciado e fecundo, os Cavadores, rústico poema, síntese sublime da vida da terra, da planta e do camponês, obra de fisiologista, de psicólogo e de poeta, reçumando sangue, transpirando lágrimas, drama tangível e real, movendo-se numa atmosfera enigmática de infinito e de sonho. Um livro elevado. Lisboa rasgou-lho. Em troca deu-lhe os Gatos. Dum poeta épico fez isto: um varredor da Baixa. O Fialho durante três anos varreu o Chiado, espiolhou a Havanesa, catou S. Bento. Os trapos converteram-no em trapeiro. A águia baixou a milhafre. O milhafre é útil, depura e limpa. Os Gatos foram, em parte, uma obra de justiça, por vezes de cólera. Mas o rancor dos bons denota ainda bondade. Só os grandes idealistas desceram a grandes satíricos. Cristo dava chicotadas.

Nos Gatos estoira de quando em quando um rugido de tigre. É o melhor do panfleto. O resto, tirante algumas páginas literárias, maravilhosas, descamba na insignificância,—cisco, anecdotas, noticiário, zero. O estilo não basta. Uma melancia em bronze não deixa de ser uma melancia. Os Gatos tem valor moral e valor de arte. Mas êste é relativo, e portanto inferior, e aquele ineficaz, e por tanto menos proveitoso. Varrer Lisboa nos Gatos, acho bem; varrê-la no Diário do Govêrno, acharia óptimo. Conclusão: o desmantelamento da sociedade portuguesa actuou no espírito impressionável dum grande poeta, esterilizando-lhe a génese da obra humana, imorredoira, e fecundando-lhe a semente da obra particularista e transitória. Desviou do seu curso natural a água límpida que regava plátanos e searas para com ela inundar estrumeiras e desentupir esgotos.

Bom burguês, compreendes agora o que é a falência dum espírito? Calcula, pois, em 2 milhões de consciências[5], o déficit moral, a ruína interior, que os teus guarda-livros não escrituram nas agendas. Perdeste dinheiro, meu rico homem, na quebra fraudulenta dum banco? O Fialho e nós perdemos os Cavadores na quebra fraudulenta duma nação. O prejuízo maior foi o nosso. O nosso, o da pátria. Porque é mister que to diga, bom burguês: sem o banco de Portugal ficaríamos pobres 30 anos. Mas sem os Lusíadas ficaríamos pobres para sempre. As libras voltam. O génio não se repete. Por isso, burguês odioso, te não lamento. Mais ainda: regalam-me às vezes, Deus me perdoe, os teus desastres, lembrando-me que só te levantarás honradamente, quando se te der, de fome, um nó nas tripas! Idiota! Nem egoista és. Vês apenas dinheiro, e hão-de deixar-te sem camisa. Inda bem. Só nu ficarás decente.

Continuemos. A nação, mais do que de libras, carecia de alma. Quem lha daria? Quem a tivesse como o sol tem luz: infinita. Pobre D. Carlos! Que havia de êle dar,—mediocridade palúrdia, já aos 25 anos atascado no cebo dinástico, nas banhas brigantinas! Alma? Bem alma, não; quási, pequena diferença: lama. Uma inversão de duas letras. Ligeiro lapso, cuja emenda é esta: Viva a república!

O rei falhára. Nulo, insignificante. Pedir-lhe génio, heroismo, grandeza, sublimidade,—o mesmo que pedir astros a uma couve ou raios a uma abóbora.

A existência da pátria dependia da revolução. O rei não pôde, não soube, ou não quis fazê-la. Em suma, não a fez. Perdeu-se. Que restava? Fazê-la o povo. Não a fazendo, perdia-se tambêm.

O rei, em vez de cortar o cancro, identificou-se com êle. Chaga maior, operação mais grave. Já ninguêm suprimirá o cancro, sem suprimir a realeza.

O republicanismo não é aqui uma fórmula de direito público; é a fórmula extrema de salvação pública. No prédio em chamas há só uma janela aberta. Preferem os monárquicos morrer queimados, por a janela estar pintada de vermelho? Fôsse ela branca, que eu saltaria sem escrúpulos.

Republicano e patriota tornaram-se sinónimos. Hoje quem diz pátria, diz república. Não uma república doutrinária, estúpidamente jacobina, mas uma república larga, franca, nacional, onde caibam todos. Não dum partido, da nação. Presidente o melhor. Foi por acaso miguelista? Embora. Uma revolução por selecção de caracteres.

Tal movimento cívico, espiritualizado e grande, requeria pelo menos um homem. Existe? Existiu: José Falcão.

José Falcão! Alma tão nobre de patriota não a conhecerei jàmais. A ideia de pátria, feita verbo, nela encarnára divinamente. Hóstia sublime! Trigo de comunhão deu-nos a fé, e trigo de viático, na hora da nossa morte, dá-nos ainda a esperança.

À volta de mim vejo monturos, dentro de mim encaro cinza. Tudo acabou, não é verdade? Melancólicamente revolvo a cinza, poeira de quimeras, e uma flámula fulge, uma brasa crepita… É a alma dele… Não quer apagar-se. Mesmo dentro de nós, túmulos cerrados, continúa ardendo. Àmanhã de tais campas podem brotar ainda lavaredas.

Grande homem! Como o sangue em momento de pânico reflue de chofre ao coração, dir-se-ia que na hora suprema toda a alma da pátria naquela alma se ajuntára.

Em José Falcão a inteligência era robusta, a sciência enorme, mas a grandeza moral incomparável e soberana. Dizia o que pensava, fazia o que sentia. Um justo. Portanto, um solitário. Querendo viver puro, viveu em si mesmo. Isolou-se. Nem ambicioso, nem vaidoso. Nos altos píncaros, de gêlo e de luz, não há micróbios.

Egoista intelectual? Nunca. Ânimo generoso, os problemas sociais cativaram-no. A sociedade evitou-a. Livros e família: cérebro pensando, coração amando.

Mas o sentimento da pátria com tal furor e febre lhe girava no sangue, tão inato e profundo lhe ardia lá dentro, que aquele homem de ideias instantaneamente se volveu, como por milagre, em homem de acção. O ruído molestava-o; procurou o ruído. A turba incomodava-o; procurou a turba. Agitou-se três anos em movimento frenético. Pátria! Pátria! a visão constante, o sonho de toda a hora! Fogo sagrado, fogo devorador. Queimou-se, abrasou-se nele. Auto-de-fé dum corpo nas lavaredas duma crença.

O patriotismo tornára-se em José Falcão um misticismo. Compreende-se bem. Ideia tão inflamável, em tão candente natureza moral sublima-se, ilumina-se, perde-se no êxtase, no enlêvo, no transcendentalismo religioso. Aquele homem exalava de si o quer que fôsse de sobrenatural e de divino. Sentia-se que no grande momento arriscaria tudo: família e vida, fortuna e lar. Através do crente apercebia-se o herói. Por isso arrastava. A eloqùência vinha-lhe espontânea, dominadora, magnética. Não a eloqùência literária dos artistas. Eloqùência de alma, verbo interior, luz de uma chama.

Depois naquele homem tudo era português, sóbrio, simples, varonil, vernáculo: figura, gesto, palavra, intonação, modo de vestir, maneira de andar. Tudo beirão, tudo nosso. Nem um galicismo. Austero e risonho, violento e meigo,—a singeleza na grandeza. Lembrava ainda o Condestável. Como êle, espírito heróico, braço de ferro para o comando, bôca de santo para a piedade.

Extenuado e letárgico, pressentindo a morte, nunca desanimou. Pois a doença da pátria não era ainda bem mais grave? Por ela sim, desejaria viver, desejaria morrer. A fôrça física abandonava-o, só a vontade sôbre-humana o tinha de pé. Era já uma existência feita de ressurreições, um ideal galvanizando um cadáver.

Dizia-nos êle, quási no fim: Não duro muito; aproveitem-me.

Morria daí a meses.

Não há uma íntima e dolorosa afinidade entre a alma quebrantada dum povo, baldadamente, durante séculos, evocando um Messias, e a breve aparição dum redentor, miragem súbita, que mal se desenha se desfaz?

Tal a árvore-espectro, frutos de aurora sonhando, caveiras torvas produzindo, que um dia gerou, milagre de amor! o pomo de oiro deslumbrante, e o viu desprender, esbroando em cinza, do galho nú, do ramo estéril de esqueleto…

Árvore nocturna, a morte gira-te nas veias, e os frutos de Ideal que tu concebes já trazem no âmago, quando nascem, as larvas deletérias do sepulcro…

Desiludido, assim o creio por vezes. Depois a um golpe de sol, o Quichote revive, exalto-me de novo, de novo espero… Florinha azul, beijo de Deus,—divina Esperança…

* * * * *

Escrevi há ano e meio as páginas que aí ficam. Tencionava completá-las, documentando-as. Inútil. O inquérito definitivo à montureira circundante é a ferro e fogo, não a pena e a tinta, que deve executar-se.

Ampliarei ainda estas anotações com o protesto que foi dado a lume, quando o govêrno tolheu a homenagem a Guilherme Braga. É um rápido exame dos planos últimos da monarquia. Por isso o transcrevo. Ei-lo:

O govêrno proìbiu a manifestação anti-jesuítica, que hoje deveria realizar-se no cemitério de Agramonte em volta da campa do grande poeta Guilherme Braga.

Os jesuítas são o auxiliar da monarquia. Atacando-os, atacamos o Rei. O ministério não o permite. Não há que estranhar. É lógico.

Desde a crise do ultimatum inglês, que tanto podia significar uma onda de vida nova como o estertor dum moribundo, resvala a nação, dia a dia, ao letargo estúpido da indiferença. Estará morta? Estará cataléptica? O futuro, breve talvez, o vai dizer.

Mas na opinião do mundo, já Portugal não existe. Dura, mas não existe. Dura geográficamente, mas não existe moralmente. A Europa já considera isto uma coisa defunta, espólio a repartir, iguaria a trinchar. Salva-nos da gula dos comensais a rivalidade dos apetites. No dia em que se harmonizem devoram-nos.

Como resistir? pela fôrça física? impossível. Não há balas nem libras, não há ouro nem ferro. Qual o meio então? Um único: a fôrça moral. Não vale tudo, mas vale alguma coisa. Na balança da realidade efémera, os canhões pesam como bronze, e o Direito e a Justiça pesam como ar. Sim; às vezes, não sempre.

Houve profetas que domaram leões: mártires que aterraram algozes. E quando um homem ou um povo sucumbem altivos em nome da verdade, êsse homem ressuscitará nas consciências, e êsse povo ressuscitará na História. O justo, expirando na Cruz, ao terceiro dia levanta-se do túmulo. O covarde, mergulhando em lôdo, em lôdo agoniza e em lôdo se transforma.

Qual era, pois, a grande missão de um govêrno em Portugal? Fazer de quatro milhões de espíritos um só espírito, juntar quatro milhões de vontades numa só vontade. Raios de luz divergentes, aquecem; convergentes abrasam. Um cento de meias abnegações individuais perdem-se, quási estéreis, na indiferença colectiva. Não mudam aos olhos da Europa a fisionomia portuguesa. Mas a abnegação e o sacrifício de todos, a comunhão unânime e grandiosa num ideal de Justiça, num ideal de Pátria, transfigurar-nos-ia por encanto, de povo de chatins em povo de heróis, de mortos com direito ao cemitério, em gente viva com direito ao pão, com direito à luz.

E o problema religioso, nada mais singelo: na esfera do pensamento, liberdade absoluta; na esfera dos actos, tolerância recíproca.

O povo dos campos mantêm a sua fé tradicional. Quando se dirige a Deus precisa ainda uma língua: o Padre. Faltando-lhe a hóstia, falta-lhe Cristo. Levando-lhe a igreja, levam-lhe o Céu.

O Catolicismo é roble caduco, mas nos galhos exangues, de verdura pálida, inúmeras aves inocentes gorgeiam ainda, fabricam o ninho em que adormecem. Não lancemos o machado ao tronco do roble, sem dar aos corações ingénuos, que o povoam, outra verdura calma onde se abriguem. O mundo róla no infinito; no infinito deve igualmente girar o espírito do homem. Ai dos que vivem só na terra, olhando o horizonte com o olhar da carne! Êsses não vivem. Andam kilómetros e contam horas, mas o Espaço é a jornada da alma e o Tempo a hora eterna que não finda. O homem sem o ideal sôbre-humano, regressa à bestialidade donde veio.

Se o cavador miserável não comunga em Cristo senão pela hóstia, que a hóstia lhe seja oferecida, mas cândida e branca, em mãos de misericórdia e de pureza. Organizem um clero nacional e cristão, evangelista pela virtude, embora católico pelo dogma. Varram da Igreja a estrumeira política; para bispos escolham santos, e a questão religiosa desaparece num momento. Spinosa ou Schopenhauer entender-se-iam muito bem com S. Francisco de Assis.

Porêm, os homens que há muito dirigem os destinos da Nação, últimas varreduras do constitucionalismo agonizante, quási sempre democratas vazios aos vinte anos, e cínicos redondos aos quarenta, são incapazes de um plano de govêrno, gerado numa filosofia superior, amoldado a uma razão prática luminosa e traduzido em factos, por uma vontade inabalável e contínua. Que êles, francamente, visam apenas salvar o seu interesse, o seu egoismo e as suas lantejoulas de medíocres.

Conservam a realeza no intuito de se conservarem a si próprios. Mas uma realeza moribunda só entre mortos alcançará reinar. Fazer do País um cemitério de almas, eis o problema. As associações protestam? Dissolvidas. Os clubes ameaçam? Trancados. As Côrtes incomodam, às vezes? Suprimem-se. Os jornais irritam? Cadeia. Todo o obstáculo, desfazê-lo: se é venalidade, pela compra; se é moralidade, pela tirania. Há consciências que se indignam? Prendam-nas. Há gente que se revolte? Fuzilem-a. Ordem! muita ordem! Quer dizer: Silêncio! Digerir e calar. O País inteiro uma campina raza, e nela manobrando, ovante e livre, o general Queirós. Olhai: galopa de Norte a Sul e nem um montículo para surpresas, uma ravina para emboscadas. Planura perfeita: bem chã, bem unida e bem morta. Vivos, a municipal e a polícia.

Receio, pois, de quem? da burguesia liberal? Por via de regra o burguês, liberal ou não, traz nos intestinos um polícia ingénito: o mêdo. Anda guardado.

Receio do operário? O operário português é sofredor e humilde. A grande indústria concentra-se em Lisboa e Pôrto, onde a polícia usa revólvers e a municipal Kropatcheks. Contudo, a maré do socialismo invade, formidável, os parlamentos europeus. À cautela, proteger S. Bento. Decreta-se uma lei, inutilizando o voto ao operário: eleitor, às vezes; elegível, nunca.

Receio do exército? Lisongeá-lo… e diminuí-lo. O exército é a municipal.

Óptimo. Só fica uma nuvem negra: os campos, a plebe da enxada. Horda infinita. Na alucinação da miséria, quem a há-de conter? O Queirós? O Graça? Não chegam. Só um Queirós em cada aldeola, um Graça em cada freguesia. O perigo, enorme, vem daí. Meio milhão de esfarrapados com êste general—a Fome, tornam-se invencíveis. Existe apenas um recurso: Deus. Muito bem. Trate-se com Deus.

Il y avec le ciel des accommodements. Há efectivamente. Mas conforme o céo, e conforme o Deus. O Deus dos Evangelhos, por exemplo, é um Deus esquisito, não presta. Leva à submissão, nunca à ignomínia. Capaz de gerar um mártir, nunca um hipócrita. Depois, a sua doutrina igualitária, em certos temperamentos, cria alucinados, produz rebeldes. O Niilismo é filho bastardo de Jesus. E êle, o próprio Deus, numa crise de cólera, não desatou às chicotadas? Com o Deus do Calvário, abrigo de humildes, redentor de plebes, um homem de estado, espelho de cordura, não deve entrar em negócios. Arrisca-se.

Quer-se um Deus maleável, arguto, scéptico, inteligente: o Deus da Companhia de Jesus. Ora aí está um Deus civilizado, sem preconceitos, útil a um govêrno. Instruído e metódico, ambicioso e cauteloso. Boa educação, boas maneiras, limpeza de roupas, latim excelente.

Sabe catequizar uma duquesa ou fanatizar uma peixeira. Dispõe de infernos com lavaredas de fogo ou lavaredas de gaze, de céus confortáveis para gente rica e céus de quinto andar para a canalha. Harmoniza o lausperene com a quermesse, S. Carlos com Santo Inácio, um sermão com um baile, e o Espírito-Santo da Igreja de S. Luís com o tiro aos pombos na tapada da Ajuda.

Por isso a monarquia firmou aliança com o Jesuíta, e o Jesuíta vai esburacando o sub-solo moral da pátria portuguesa. Alastrou, minou, furou sem ninguêm ver. Debaixo da terra. Agora aparece. Caminhou na sombra, de joelhos, como um larápio. Agora mostra-se. Mostra-se e desafia. A rêde escura da sua influência abrange a área da nação. Colégios e conventos em todas as cidades, em todas as províncias. Levantou baluartes, estratégicamente, escolhendo o terreno. Julga-se inexpugnável. Manobra à luz, desfila em batalhões, forma em revistas. É a guarda municipal da consciência portuguesa. O seu Deus corresponde-se com o ministério, tem entrada na côrte e verba no orçamento.

Perguntarão: Se o govêrno dispunha do clero, por que chamou o jesuíta? Se havia de casa o abade, por que recorreu ao missionário? É que o abbade, desmoralizado pelo constitucionalismo em sessenta anos de tranquibérnia eleitoral, perdeu, lentamente, aos olhos do camponês, o carácter augusto de intermediário de Jesus. O missionário, ainda não.

E eis aí porque o govêrno pactuou com o jesuíta, e nos inibe de responder, como desejávamos, àquela entrudada grotesca de Santo António, que durante semanas emporcalhou as ruas de Lisboa. Carnaval sacrílego! A humildade, a virtude e a pureza do sublime franciscano, enxovalhadas e calcadas em correrias de titeriteiros e de bêbedos! O discípulo cândido da mais angélica alma que ventre materno deu à luz, exposto a glorificações mercenárias, a apoteoses aviltantes! Para celebrar a dôr, foguetórios e músicas! Para celebrar a mansidão, toiradas e baionetas! Para celebrar a renúncia, jogos e toiros, galopes e clarins! Um banquete suntuoso, uma raínha constelada de jóias, convivas em fardalhões auriluzentes, damas cobertas de brocado, na mesa opulenta uma hecatombe luculiana, e um burguês anafado e ventrudo, ao dessert, copo de champagne na mão, erguendo um brinde (com arrotos), à doçura, à singeleza evangélica do amigo do Poveréllo, de Santo António de Lisboa! E não fulminou Deus o animalejo estercorário!

E, por fim, aquela debandada de entremez eclesiástico, em que os padres de Jesus, loucos de terror, cegos de covardia, largavam da mão as coroas e as insígnias, para melhor se escapulirem, desordenados e fedorentos.

Iremos a Agramonte, iremos silenciosos, a um e um, esconder em flores o túmulo modesto dêsse belo poeta, a quem a sociedade, em troca do Génio, doou amarguras e vilipêndios. Tardia romagem da nossa indesculpável ingratidão. E, emquanto a protestos ruidosos, só um a fazer. Mas êsse deve fazê-lo a nação inteira, e sem pedir licença aos governantes. Protesto único e definitivo, donde resulte uma sociedade virtuosa e nobre, equitativa e harmónica, impregnada, nas leis e nos costumes, da moral sublime de Jesus, e refractária, portanto, à moral ambígua do Jesuíta.

* * * * *

Eis aí, em síntese, a obra do rei e do govêrno. Obra de estupidez, obra efémera. Imbecis. Conhecem, da Eternidade, o minuto em que jantam, e, do Espaço, as dôze cabeças de comarca onde fazem bulha. Raciocinam com os pés, com as mãos, com os olhos, com os ouvidos, com o estômago. No crânio, farelos. Supõem-se grandes, e não existem. Mandam, decretam, dão ordens, e não existem. Só espiritualmente se existe, vivendo no infinito, e êles, espiritualmente, moram no vão duma escada.

E julgam, os idiotas, salvar o rei! Por que forma? Já o disse: tornando o país um cemitério de almas. Dinastias agonizantes querem vasalos defuntos. Entre quatro milhões de cadáveres um ventre com duas pernas, dois braços, uma abóbora nos ombros e uma espada na mão, a distância, movendo-se, ilude ainda: parece gente. Rodeiam-no baionetas, cavaleiros o guardam. Contra quem? contra os mortos. Invencível então, não é verdade? Perdido, inteiramente perdido. Se os mortos ressurgem, êle evapora-se. Se tudo é findo, se os Lázaros se não levantam, quando chegarem os corvos, principiarão por êle o seu banquete. Ou devorado pela nação, ou devorado pelo estrangeiro. A nação acorda? É o exílio. Submete-se? É que está morta, e, das nações que morrem, as nações vivas se alimentam.

Mas, por emquanto, folga. O dia de hoje pertence-lhe. O estado é o rei. Cidadão há um único: D. Carlos. Os deveres são nossos, os direitos, dele. É dele o meu pensamento, é dele a minha bôlsa, é dele a minha vida. Estrangula-me as ideias, arromba-me a gaveta, ou corta-me o pescoço, conforme queira. A justiça é um relógio que êle atrasa, adianta ou faz parar, segundo lhe dá na vontade. Decreta a Lei e nomeia o Juiz. O parlamento é o seu capricho. Entre uma toirada e uma ferra, escreve ordenações com uma navalha. O país é D. Carlos. Seja. E quem é D. Carlos? Aí vai um retrato que é um libelo:

Tôrre do Outão. Esta primeira fantasia régia de sua majestade importou em duzentos contos de réis, ou mais, subtraídos ao tesouro. Jurídicamente, um crime. Artísticamente, uma indecência.

Exéquias de D. Luís, mandadas celebrar pelo município de Lisboa, capital do reino: Sua majestade, apesar de convidado, não quis assistir. Foi-se aos coelhos para o Alfeite. Se vagueiam no ar as almas dos que morrem, a de D. Luís I, nesse dia, chumbou-a porventura, ao levantar da hóstia nas exéquias, a filial escopeta do Snr. D. Carlos.

Ultimatum inglês: Roubados e insultados. O país protesta, num vigoroso movimento de indignação e de cólera. Uma criatura houve que ficou impassível: o rei. Não teve aquela mão um gesto de furor, não encontrou aquela bôca uma palavra de altivez. No dia seguinte, em carro descoberto, charuto a arder, expunha D. Carlos, na Avenida, aos transeúntes atónitos, a inconsciência lôrpa da sua figura habitual.

Convénio inglês: O art. 75.^o da constituìção do reino diz o seguinte: O rei é o chefe do poder executivo e o exercita pelos seus ministros de Estado. São suas principais atribuìções: § 8.^o Fazer tratados. Bem. De duas, uma: ou o rei conhecia o convénio que o Snr. Barjona negociava em Londres, ou não o conhecia. Naquela hipótese, todas as injúrias, todos os doestos, toda a lama aviltante, que a nação, às mãos ambas, arremessou ao convénio, cáem, de chofre, em sua majestade. Se era alheio ao convénio, alheio e indiferente a um acto nacional, de vida ou de morte para a honra da pátria, então ou sua majestade é um miserável ou sua majestade é um irresponsável[6]. Daqui não há fugir.

Chegam a Lisboa as bases do convénio. O Snr. D. Carlos em 21 de Agosto de 1890, ao procurar nos jornais o anúncio dos teatros, viu-as naturalmente, viu-as de-certo. Ignorância, agora, não a pode alegar. Conhecia o crime. Que fez? Abram as Novidades de 22 de Agosto. No artigo editorial, violentíssimo, há êstes períodos:

«Na história da nossa decadência, levantou-se um novo e ruìnoso padrão. O tratado do Snr. Hintze Ribeiro segue-se nesta série lamentosa ao tratado de Methwen, e deixa-o no escuro.

Em nossa honra e consciência, diremos alto e bom som: o tratado firmado em nome de Portugal com a Inglaterra é um padrão de imperecível ignomínia, e o dia, em que o seu texto completo fôr publicado no Diário do Govêrno, deverá ser considerado por todos os cidadãos amantes do seu país como um verdadeiro dia de luto nacional.»

E mais adiante, na 3.^a coluna, sob o título—As festas em Sintra, o
Rally paper, o Baile,—escreve ainda o mesmo jornal:

«Conforme estava anunciado, realizou-se ontem em Sintra, nos terrenos da
Granja do Marquês, o Rally paper. Perto das 3 horas chegaram el-rei e
a raínha num landeau à Daumont, acompanhados pela Snr.^a D. Josefa
Sandoval, veador António de Vasconcelos e oficial às ordens A. de
Serpa.»

Segue uma comprida nomenclatura de altos senhores e nobilíssimas damas, que, em volta do rei, tomaram parte na função.

E conclue a notícia:

«Na retirada, suas majestades vinham em carro descoberto, escoltados por todos os jogadores que tinham entrado na partida, e seguidos por mais de duzentas carruagens descobertas, conduzindo tudo o que há de mais elegante em Sintra.»

E eis aí como o rei de Portugal e tudo que há de mais elegante em Sintra
encaravam a imperecível ignomínia do tratado de 20 de Agosto de 1890.
Hipp, hipp, hurrah! God save the King! Viva Salisbury! Viva D. Carlos!
Que imundície!

Sua majestade, ainda à última hora, doente, no castelo da Pena, queria a recomposição do gabinete Serpa, isto é, mantinha o convénio. Foi o Snr. João Crisóstomo quem determinou a queda do govêrno, afirmando ao rei que, se êle insistisse, a revolução era inevitável.

Sintetizando: O tratado de 20 de Agosto, no juízo da imensa maioria do país, quási a unanimidade, significava a última das afrontas, a última das vergonhas. Pois o Snr. D. Carlos deixou-o negociar, no dia que êle chegou a Lisboa celebrou uma festa, sustentou-o meses contra a vontade clara da nação, largando-o apenas, humilhado, diante das baionetas e da revolta.

O país, rasgando-o, rasgou-lho na cara.

Revolta do Pôrto: O Verbo era de luz. Encarnou mal. Daí o desastre. A lava purpúrea, não abrindo cratera, rompeu, angustiosa, por uma fenda. Colem o ouvido na montanha: há trovões lá dentro. Um dia dêstes será vulcão. Adiante…

O município do Pôrto, em 12 de Fevereiro de 91, dirigiu ao rei uma mensagem. Copio dela estas frases:

«Não basta repelir e condenar os factos, é mister, mais que tudo, inquirir das causas que os tornam possíveis e mesmo fáceis. E a consciência nacional, interrogada, responde sem hesitar que erros de muitos anos; abusivas tolerâncias em toda a espécie de deveres sociais e públicos; quebras freqùentes de disciplina, tanto na classe militar como em toda a ordem de serviços públicos; relaxação no cumprimento das obrigações de cada um; irresponsabilidade freqùente para faltas de toda a ordem; deploráveis complacências acobertadas com o que abusivamente se chama a doçura dos nossos costumes, tais parecem as causas gerais que permitiram e facilitaram tão deploráveis acontecimentos. E a câmara municipal do Pôrto, neste momento intérprete dos sentimentos da cidade, entende que faltaria ao seu dever, se não chamasse a atenção de V. M. sôbre êstes males, que é dever de todos os cidadãos, desde a mais elevada gerarquia à mais humilde condição, combater e destruir a todo o custo, se quisermos salvar a nossa pátria do inevitável naufrágio das nações que chegam a semelhante estado.».

(Extracto da representação da Câmara do Pôrto ao Rei, em 12 de fevereiro de 91.)

Eis agora o extracto da resposta do Snr. D. Carlos:

«O sustentamento da justiça e a rigorosa aplicação das leis são o fundamento moral de toda a sociedade bem organizada; a pública administração tem de ser necessáriamente económica e modesta; a política precisa de se mostrar, agora e sempre, evidentemente elevada e respeitável nos seus intentos e nos seus caracteres dominantes. Êstes salutares princípios que a digna vereação municipal do Pôrto me relembra na sua mensagem, professo-os eu como verdades fundamentais, e tenho-os para normas inquebrantáveis da minha magistratura constitucional. Diz-me a consciência que lhes tenho sido fiel; e se ainda não pude mostrar toda a minha profunda dedicação pela nossa pátria, tem sido isso devido ao pouco tempo da minha vida de rei, desgraçadamente assombrada por acontecimentos de que me não cabe a responsabilidade, mas de que sinto, como os que muito a sentem, a triste e dolorosa significação.»

Que quer isto exprimir? Que a câmara do Pôrto, com o aplauso de D. Carlos, justificou a revolta de 31 de janeiro. Embora lhe desaprovassem a forma, justificavam-lhe a essência. Mas a braveza dum acto, quando a razão o determina, desculpa-se bem. Há um julgador que diz a um réu: «A lei condena-te, mas a verdade absolve-te.» Que faz êsse juiz, quando êle é um rei? Perdoa.

Volveram anos. Os grandes criminosos, a que se referia a mensagem do município do Pôrto, onde é que estão? Nas mais altas dignidades, rodeando o trono.

E o tenente Coelho, meu senhor? onde é que está êle? Apodrecendo em África.

Viagem do Snr. D. Carlos ao Pôrto, depois do 31 de janeiro: Mais dum ano decorrera, antes de sua majestade se abalançar à viagem. Serenados os ânimos, mete-se a caminho. Os estudantes, em Coímbra, assobiam-no. Chega ao Pôrto. Desfila o cortejo. Ao lado do carro de sua majestade seguia um chefe de esquadra, a pé, durindana ao vento. Entala-se-lhe o gládio numa das rodas, partindo-se em bocados. O monarca desembaínha, veloz, a sua espada de comandante em chefe, e bizarramente lha entrega com donairosa cortesia. Lá está na esquadra.

Baile do ministro inglês, em Sintra: No verão de 1892 dava o ministro inglês uma festa pomposa em honra do Snr. D. Carlos. Sua majestade aceitou-o. O ministro inglês, naquele instante, era a Inglaterra. O soberano de Portugal era a nação portuguesa. Pois o rosto que levára a bofetada sangrenta ia ver-se aos espelhos do animalejo que lha dera! Ia limpar os escarros ao guardanapo de quem lhos atirou!

Um rei que a fatalidade inexorável, que o destino impiedoso submetesse, algemado, a similhante vergonha, choraria de raiva lágrimas de sangue, a não guardar no íntimo da alma, como D. Carlos, o retrato de D. João VI, num pataco falso. Desejaria eu ver, em lance de tal ordem, a grande e melancólica figura de D. Pedro V. Que trágica altivez e que dorida nobreza não exprimiria o seu olhar! E D. Carlos? D. Carlos, em toda aquela noite pavorosa, jogou descuidadamente o bleuff, espécie de batota, com dois casquilhos elegantes do mundanismo que se diverte. Verifiquem, lendo o Jornal do Comércio, que relatou o baile. Acrescento mais: quem o relatou assistiu a êle.

Dissolução das côrtes. Primeiro golpe de estado: O Snr. D. Carlos, um belo dia, farto de atirar às perdizes, alveja à queima-roupa o código político da nação. Com que fim? Salvar-nos, salvar a pátria. Era a vida da pátria, que, em risco iminente, o constrangia à ditadura. Espesinhava os códigos, para manter a nacionalidade, sacrificando (com que mágoa!) o juramento do rei à existência do reino. Acto solene, acto grandioso. D’ora-avante quatro milhões de espíritos do seu espírito viveriam. Escultor dum povo, cinzelador duma raça, ia fazer história, fazer humanidade. Como Deus, trabalhava em almas. Um rei idealista, que em tal momento, no fogo divino duma obra de arte,—quadro ou estátua, música ou poema,—quisera sublimar-se, escolheria naturalmente uma obra elevada, de essência religiosa, de feitio heróico. Guilherme, o visionário, escutaria o Lohengrin. Carlos, o gordo, foi ao Brasileiro Pancrácio. Os jornais o disseram. Textual: ao Pancrácio. Perfeito, simbólico.

Regresso da expedição à Guiné: Vai um bando de homens, filhos da miséria, a terras inóspitas e distantes jogar a vida pela pátria. Chegam, cumprido o dever, exaustos e dizimados. Quem lhes sai ao encontro? O rei? O rei, àquela hora, ou andava às lebres ou palitava os dentes. Galardoou-os com meia dúzia de crachás. Eram poucos. Muito bem: que os rifassem. E rifaram-nos!

Pândega a Paris: Vinte e quatro dias no cérebro do mundo. Que trouxe de lá sua majestade? Recibos e gravatas.

Viagem à Inglaterra: Quando em 30 de Janeiro de 1891 compunha eu êste verso,—A desonra, a abjecção, o trono… e a Jarreteira—, envolvia a Jarreteira, em último logar, a máxima ignomínia. Tão grande, que parecia hiperbólica. Vaticinei, adivinhei. Ei-la, a insígnia infamante, na perna esquerda do Snr. D. Carlos. Na outra, já a raínha Vitória, no dia 11 de Janeiro, lhe havia soldado uma grilheta.

Viagem à Alemanha: Dias antes do roubo de Keonga houve baile no Paço. Na quadrilha real, em frente da Snr.^a D. Amélia, quem? O ministro alemão. Não bastava. Deveria D. Carlos envergar, de joelhos, uma libré prussiana. E foi envergá-la. Contam os jornais que lha improvisaram numa noite, em dôze horas. Escudeiro novo de senhor tão grande, queria logo vesti-la.

O entêrro de João de Deus: Reinou alguns anos o Snr. D. Carlos, sem se lembrar um minuto de que João de Deus existia. Compreende-se. Da Heresta a uma férra a distância é larga. Sobrevem,—justiça imanente!—a apoteose nacional do grande lírico. A alma da pátria, num vago desejo de renascer, contrapunha a soberania do espírito à soberania da carne; a pureza, vestida de beleza, à traficância, vestida de impudor; a idealidade mística dum génio ao crasso materialismo visceral da imunda récua dos governantes. E eis logo o Snr. D. Carlos a admirar o poeta e a visitá-lo em sua casa, deitando-lhe à garganta, a ver se o prende, uma coleira qualquer de S. Tiago. O intuito evidenciava-se: erigir a glória de João de Deus em pára-raios da monarquia. Mas a homenagem, tardiamente hipócrita, não iludiu o senso íntimo da juventude, radiosa origem espontânea daquela consagração de amor e de verdade. Na festa de D. Maria gelou-se à volta de D. Carlos um silêncio de morte. Nem um viva. Aclamava um povo o seu maior génio, a suprema flor da idealidade duma raça, e o chefe dêsse povo era afastado, como um intruso, que ninguêm convidára, que ninguêm ali conhecia.

Volvido um ano morre João de Deus. As Necessidades e o Terreiro do Paço afectam, decorativamente, pungidoras mágoas. O snr. Hintze, lúgubre e solene, banhado em pranto, de joelhos, rouqueja trémulo, fitando o cadáver, esta despedida angustiosa: Adeus, Mestre! Como se o João de Deus houvera sido alfaiate, barbeiro ou sapateiro, únicas mestranças que a estética do Snr. Hintze poderia aquilatar devidamente.

Quarenta mil homens, a pé, seguiram o féretro. Na cauda, em três côches, três paquidermes do ministério, espapaçados e sonolentos, a ruminar asneiras.

E o Snr. D. Carlos, que os meus olhos buscaram, em vão, ansiosamente, durante quatro horas, onde é que estava, onde estaria êle? Duas gazetas o disseram no mesmo dia, em telegrama indêntico, de Mafra. Ei-lo: Mafra, 15, às 8 da noite. O Snr. D. Carlos retirou hoje às 5 e meia da tarde; o resultado da caçada foi: 10 galinholas, 5 gamos e 15 coelhos. Por alma do sublime poeta do amor e das estrêlas, das florinhas e das aves, dos anjos e das crianças, rezou o Snr. D. Carlos, inconsolavelmente, uns trinta tiros de espingarda. Dez Padre-Nossos na grelha, cinco Avè-Marias de escabeche e quinze Salvè-Raínhas, à Colete Encarnado, em môlho de vilão.

A cultura intelectual de sua majestade: Transcrevo, duma publicação comemorativa do centenário Henriquino, êste famoso documento do Snr. D. Carlos. É um autógrafo. Diz assim:

«Para celebrar a imorredoura memória, do Infante D. Henrique, nada encontro melhor, do que, transcrever, a estância de Camões, que serve de epígrafe à excelente e benemérita, tradução, do notável livro de Major».

Leram? Que indigência de frase e que pontuação! Um estudantinho imberbe não escreveria aquilo.

E eis aí, a ligeiros traços, a vera efígie de sua majestade o Snr. D. Carlos. Quem a olhar, exclamará por fôrça: Viva a República! Nesta agudíssima crise nacional a república é mais do que uma simples forma de govêrno. É o último esfôrço, a última energia, que uma nação moribunda opõe à morte. Viva a República! é hoje sinónimo de—Viva Portugal!

Notas:

[1] Há excepções individuais, claramente. A fisionomia geral, no entanto, é aquela.

[2] Se o Nazareno, entre ladrões, fôsse hoje crucificado em Portugal, ao terceiro dia, em vez do Justo, ressuscitariam os bandidos. Ao terceiro dia? que digo eu! Em 24 horas andavam na rua, sãos como pêros, de farda agaloada e grã-cruz de Cristo.

[3] Continuaria a haver algumas dúzias de republicanos, por coerência, brio pessoal ou teima doutrinária. O espírito republicano que alastrou no país, esse extinguia-se, ou antes não se tinha gerado.

[4] Um rei segundo a Carta, entende-se.

[5] É meia consciência por habitante. Talvez excessivo.

[6] Irresponsável segundo Lombroso, não segundo a Carta.»

– Guerra Junqueiro, “Pátria”, 1896.

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