Porque as pedras, inertes e geladas, já foram sóis, estrelas, alvoradas…

«Tu revives na terra áspera e dura,
Que é leite e mel na boca da verdura.

Leite e mel da raíz, do sugadoiro,
Que mama fragas e dá frutos d’oiro.

Sim, revives mais pura, muito mais,
No granito e no lodo e nos metais.

Matéria bruta
Não vê, não fala, não escuta,

Não pode amar,
Sem se tocar.

Quando se toca é que se liga,
Tem de ser densa para ser amiga.

Na rude e baixa natureza
O amor é solidez, a afeição é dureza.

E por isso o cristal
É um verdadeiro santo mineral.

Rochedo ou bronze
Mantém na estátua o génio criador,
Porque rochedo e bronze
São dois blocos d’amor.

O sonho ideal e genial, sonho impoluto,
Não se esvaiu, porque fundiu
No sonho bruto…

Fragas imóveis, taciturnas,
Que nós pisamos, caminhando,
São almas lentas, ínfimas, nocturnas,
Cegas e surdas, que se estão beijando!…

A pedra, ó luz, te absorve e te agradece,
Nunca te esquece, ó luz, nunca te esquece:

Porque as pedras, inertes e geladas,
Já foram sóis, estrelas, alvoradas…

(…)

E ainda mais santa e mais harmoniosa
Que nos olhos da pomba ou no cálix da rosa,
Tu revives, ó luz, na música dos ninhos,
Na alegria infantil dos passarinhos.

A ave canta,
Sonorizando aurora na garganta…

Verdilhão, toutinegro, rouxinol
Declamam luz, gorjeiam sol.

Morre a canção na escuridão…

Canção alada!
Tu és a voz idealizada
Da natureza flórida e fecunda,
Ébria, bebendo oceanos d’alvorada…
Toda a alma da luz, que a terra inunda,
Todo o anseio da terra ao fulgor imortal,
Cantam na voz da cotovia,
Cristalizam na límpida harmonia
Dum beijo d’ouro ideal!…

O mundo, ó luz, te absorve e te devora,
Mas revives no mundo mais intensa,
Mais próxima de Deus a cada hora,
Nas vidas todas desta vida imensa,
Vidas sem fim, almas sem fim,
Que o segredo do amor junta e condensa,
Por meus olhos magnéticos, em mim!

Lampejam no meu corpo, humanizadas,
Mortas constelações e mortas alvoradas.

Desde que a Vida me gerou em dor
E fui éter, estrela, água, montanha e flor;

Desde que verme obscuro andei a rastros,
E lobo em pé, sob o clarão dos astros,

Ao verter uma lágrima ligeira,
Me senti homem pela vez primeira;

Quantos sóis, nebulosas, firmamentos,
Varridos já n’asa dos ventos,

Não deram luz ao lodo triste,
Que em mim, sonhando e suspirando, existe?!…

Todo o meu corpo é luz esplendorosa,
Sou um hino de luz religiosa,
Gravitando na órbita de Deus…
Milhões d’auroras riem no meu canto,
Ondas d’estrelas brilham no meu pranto,
Pélagos de luas há nos olhos meus!…

Esta carne, este sangue, esta miséria,
E este ideal imortal que me conduz,
Já foram brasas na amplidão etérea,
Por isso exultam devorando a luz…

Vive de luz minha alegria e minha mágoa,
Bate na luz meu coração,
Fulge na luz o meu olhar…
Ó luz tremente, eu bebo-te na água,

Ó luz ardente, eu como-te no pão,
E calco-te na lama e sorvo-te no ar!…
Ó luz! Luz! Luz!
Como te hei-de remir e te hei-de consolar?!…»

– Guerra Junqueiro, in “Oração à Luz”, 1904.

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