Condizer

Condizer –
tolos a mulher e o homem que julgam
tratar-se de combinar a cor
do colar com a do vestido,
da mala com a dos sapatos,
do casaco com a das calças.
Quer dizer,
– ou não tão tolos assim –
digam-me:
que é uma mala?
que são sapatos?

Condizer –
a rima, afinal?
Essa tensão que nasce
entre versos,
como dois pólos,
que con-juntam
ou con-jugam,
uma consoada
ou uma dissonância,
a paz
ou a guerra.

Condizer –
a gota de água
que expande
concêntricas vagas
na superfície do lago.

Condizer –
o murmúrio,
cujo amplificador
é o oco das montanhas,
a voz que aumenta
com a distância,
nas vibrações
e reverberações
do eco.

Condizer –
com a Terra inteira,
com o espaço todo?
Levar este pontinho,
este nada de gente,
até à excentricidade máxima
da curva que se desborda
no infinito,
retornando.

Condizer –
eis quando,
no mundo sublunar,
o relâmpago
coincide com o trovão;
e também no mundo subterrâneo,
pois, que são ideias e palavras
senão relâmpagos e respectivos trovões;
e, no mundo subsolar,
esses fulgores ou clarões
que fazem reviver Orfeu?

Ah, encontrar pessoa
com quem se condiga,
se é possível,
não é deste mundo,
senão talvez de três
– e ao mesmo tempo,
diga-se.
Gaia ciência, reéalismo e chicote,
ou, traduzindo por miúdos
– o pós-moderno explicado às criancinhas –
Nietzsche, Reé
e Lou Salomé:
rima!

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Pessoa, qual delas?

«Considero, sim senhor, Fernando Pessoa como um grande talento. Mais: afirmo que como crítico e como ironista não houve outro que o igualasse (…), não digo que não foi mau poeta. Digo que não foi poeta, isto é, nem bom nem mau poeta. E se foi poeta, foi-o só com exclusão de todos os outros, desde Homero até aos nossos dias. Veja a “Tabacaria”: não passa de uma brincadeira. Que poesia há ali? Não há nenhuma, como não há nada… nem sequer cigarros!… Fernando Pessoa tentou intelectualizar a poesia, e isso é a morte dela (…). Veja o poema (poema?!) que começa “O que nós vemos das coisas são as coisas”… Isto não é poesia, nem filosofia, nem nada… (…) Fernando Pessoa quanto era lógico na prosa, era ilógico no verso. (…) Em resumo, Fernando Pessoa não foi poeta, porque foi dotado dum raciocínio matemático (…), quanto ao Fernando Pessoa político, a impressão que tenho é a de que em política era o mesmo que em poesia. Tinha a arte de tornar o «sim» igual ao «não» e vice-versa… Em suma, um “blagueur” genial»
– Teixeira de Pascoaes, “Fernando Pessoa visto por Teixeira de Pascoaes”, «O Primeiro de Janeiro», suplemento «Das Artes e das Letras», 24 de Maio de 1950.

«Não se pretende investir aqui contra um pacato empregado de escritório chamado Fernando Pessoa. Provavelmente, qualquer dia, ainda se virá a descobrir que ele, afinal, era um grande poeta (…). Todos ficaríamos muito mais tranquilos se, por fim, simplesmente ouvíssemos: Fernando Pessoa? Não conheço…»
– Mário de Carvalho, “Tanto Pessoa já enjoa”, «Diário de Lisboa», 23 de Maio de 1985.

«Não sei se gostarei de dez por cento daquilo que escreveu (…). O Pessoa irrita-me em grande parte (…). Mas, mais do que isso, irrita-me a liturgia, o exercício sacralizante em redor da sua figura. É irritante e injusto (…) há muitos nomes que têm sido prejudicados por essa corrida a Pessoa»
– Vasco Graça Moura, “Vasco Graça Moura: Sou um homem de acção”, «Ler», 3, p. 16-19. Lisboa: Círculo de Leitores, 1988.

«De Fernando Pessoa irrita-me a planeada aridez, a esterilidade dos afectos, a mediocridade das emoções, o vazio do coração, o snobismo do manga-de-alpaca intelectual. (…)»
– Maria Teresa Horta, “Não gostar de Fernando Pessoa”, «Tempo». Lisboa, 5 de Maio de 1988.

Divulga-se que várias personalidades não gostam de Fernando Pessoa – tal facto, passando de boca em boca, chega aos manuais escolares do Ensino Básico, onde obtém destaque de exemplo (quiçá, com a intenção de promover o juízo crítico, em vez da crítica do juízo?). Os juízes – haja quem os critique.

Têm todo o direito de gostar ou de não gostar – seja de Pessoa ou de batata frita -, mas qual a necessidade de justificar, de pretender ter razão? Discutem gostos! Falam de Pessoa ou da pessoa?

Curiosamente, antes de saber que não gostavam de Pessoa, já não me diziam muito tais personalidades. Quem sabe se um dia virei a achar neles outras pessoas.

Digo mesmo mais: há uma forte probabilidade de eu não gostar de uma personalidade que não goste de Pessoa, porque é, muito provavelmente, o tipo de personalidade que coloca, entre a sua própria pessoa e Pessoa, uma personificação a obstruir (o que, mesmo que não se dêem conta, tem o seu quê de pessoano).

No entanto, eu não tenho a menor dúvida sobre onde reside a maiúscula. E porquê? – para os que precisam de ter sempre uma ‘razão’ – porque é em razão das muitas pessoas que Pessoa foi e das muitas que nele ainda hoje se encontram, que vós, anti-pessoanos, se despeitam e envergam a máscara de persona non grata, brandindo invectivas contra aquele que vos fez um discurso laudatório: tudo! de todas as maneiras! Quero dizer: Álvaro de Campos. Sim, porque já Bernardo Soares abomina-vos:

«…odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a ortografia também é gente.»

Ou será apenas o ortónimo – o Pessoa “ele próprio” – que vos desgosta? Creio que até a Pessoa desgostava, daí ter inventado outros para lhe darem descanso de si mesmo. Era, ao menos, um desgosto substituído pelo gosto em criar.

Verdade se diga, não vos ouvi ainda apontarem as reais vulnerabilidades de Pessoa – por exemplo, não ter compreendido Nietzsche (ainda que fosse nietzscheano à sua maneira, em tanta coisa) – mas isso já seria partir do pressuposto de que vós o teríeis compreendido, quando nem Pessoa, que escreve na mesma língua (será mesmo a mesma?), compreenderam… Como censurar Pessoa – que deve ter lido Nietzsche a partir de uma tradução personificada pela época proto-nazi?

Considera-se que a personificação é um recurso estilístico segundo o qual se atribui vida a seres inanimados, porém, possui também um duplo negativo, através do qual se sobrepõe a um espírito vivo letras ou imagens mortas que não condizem com ele. A personificação negativa é a figura de estilo preferida dos juízes, dos racionalistas, das feministas…

O objecto de si mesmo

«(entra um jovem sobraçando um maço de poemas cortados
em diagonal pelo mito de Rimbaud)

poemas cortados em diagonal pelo mito de Rimbaud,
um jovem ávido cheio de cotovelos
no meio da multidão
– afastem-se afastem-se que eu quero entrar no filme,
eu quero que me descubram,
eu vim a correr de noite até aqui,
eu sou o astro de que grandeza primeira,
tragam depressa o rapaz das filmagens,
eu quero ser o actor do terramoto
– afaste-se, senhor, não é a sua vez
– não me afasto que a minha vez é sempre,
oh dêem qualquer coisa ao rapaz frenético:
um relâmpago fotográfico em cheio no rosto,
um calmante,
um sôco,
um bombom recheado maria gloriazinha,
vai ser difícil vai ser difícil o rapaz não tem escrúpulos,
tem uma fome que vem das primeiras letras,
o rapaz é órfão de toda a gente,
ele quer á força entrar no filme:
logo a primeira imagem em plano glorioso,
mas calma aí, isso não é assim tão raro
¿mas não vêem vocês aí aquele rosto faminto
não vêem os olhos assassinos?
ele era capaz de matar para ter uma chamada ao palco,
ora ora o mundo está cheio disso:
rapazes que nunca foram amados quando crianças com ranho no nariz e lágrimas nos olhos ardentes,
bom bom mas isto aqui não é propriamente,
eu sei eu sei contudo não custa nada,
bom para acabar com isto tudo para sempre
aprontem aí um Nobel para salvar uma vida,
¿um Nobel está bem mas enquanto espera
porque não se arranja vá lá um Cervantes um Camões uma coisa dessas?
pôrra dêem-lhe tudo: um reinado, uma dinastia inteira se é tão sôfrego assim,
melhor à cautela é melhor dar-lhe o mundo inteiro
e sem repartir com ninguém,
sim sim deixem as pessoas descansar um pouco,
é preciso é que o rapaz desampare a loja,
foda-se esta gente esfaimada!
o rapaz até parece o jovem Staline nos tempos da Geórgia,
melhor ainda assim é literatura do que política,
fica-se um pouco mais descansado
que pôrra estas cascavéis no nosso colo materno
– sussurrou a Musa,
e houve então uma corrente de suspiros conformes,
enquanto o cão danado farejava à volta,
sem saber que a morte lhe estava no sangue:
ele é abjecto
ele é um dejecto,
pior que tudo ele é o objecto de si mesmo:
devora-se a si mesmo como um polvo louco,
vá lá, dêem-lhe os prémios todos,
que ele decerto ficará em paz:
sentem-no ao lado maior de Deus poderoso,
ele já abraçou a taça de ouro,
ele entrou na eternidade com os dois pés ao mesmo tempo,
Deus pisca-lhe o olho e diz: olá colega!
e ele responde com a pergunta: estás a curtir uma boa?
e então batem nas costas um do outro
e riem, e os anjos murmuram entre si:
gloria in excelsis!
e referiam-se com certeza a si próprios e aos colegas nas alturas:
o jovem autor gangrenado,
os anjos absolutamente apanhados pela peste e a lepra,
como dependem coitados das medicinas do mundo!
paz aos seus espíritos danados
paz aos corpos devorados
paz ao seu corpo
que encontre depressa
que encontre depressa depressa
que encontre já ontem remédio nos suplementos das artes e letras
que encontre glória no suplemento vitamínico das artes e letras
depressa depressa o mais depressa possível
– ainsi soit-il, diz Nosso Senhor que anda a aprender a língua na Alliance Française»

– Herberto Helder, in “Poemas Canhotos”.

The ‘sono io’ of perfect drunkenness

«Medlars And Sorb-Apples

I LOVE you, rotten,
Delicious rottenness.

I love to suck you out from your skins
So brown and soft and coming suave,
So morbid, as the Italians say.

What a rare, powerful, reminiscent flavour
Comes out of your falling through the stages of decay:
Stream within stream.

Something of the same flavour as Syracusan muscat wine
Or vulgar Marsala.

Though even the word Marsala will smack of preciosity
Soon in the pussy-foot West.

What is it?
What is it, in the grape turning raisin,
In the medlar, in the sorb-apple.
Wineskins of brown morbidity,
Autumnal excrementa;
What is it that reminds us of white gods?

Gods nude as blanched nut-kernels.
Strangely, half-sinisterly flesh-fragrant
As if with sweat,
And drenched with mystery.
Sorb-apples, medlars with dead crowns.

I say, wonderful are the hellish experiences
Orphic, delicate
Dionysos of the Underworld.

A kiss, and a vivid spasm of farewell, a moment’s orgasm
of rupture.
Then along the damp road alone, till the next turning.
And there, a new partner, a new parting, a new unfusing
into twain,
A new gasp of further isolation,
A new intoxication of loneliness, among decaying, frost-cold
leaves.

Going down the strange lanes of hell, more and more
intensely alone,
The fibres of the heart parting one after the other
And yet the soul continuing, naked-footed, ever more vividly
embodied
Like a flame blown whiter and whiter
In a deeper and deeper darkness
Ever more exquisite, distilled in separation.

So, in the strange retorts of medlars and sorb-apples
The distilled essence of hell.
The exquisite odour of leave-taking.
Jamque vale!
Orpheus, and the winding, leaf-clogged, silent lanes of hell.

Each soul departing with its own isolation.
Strangest of all strange companions,
And best.

Medlars, sorb-apples
More than sweet
Flux of autumn
Sucked out of your empty bladders
And sipped down, perhaps, with a sip of Marsala
So that the rambling, sky-dropped grape can add its
Orphic farewell, and farewell, and farewell
And the ego sum of Dionysos
The sono io of perfect drunkenness
Intoxication of final loneliness.»

– D. H. Lawrence, “Birds, Beasts, And Flowers”.