Entregas ao domicílio

Há quem considere que um consumidor é meramente passivo. Como se a principal força que faz mover as rodas do mercado não fosse o pequeno capital do infinito número e não, ao contrário do que se pensa, o grande capital do finito número – o pequeno passo da tartaruga, no infinito, acaba por ultrapassar a grande passada de Áquiles… tal como houve já quem atravessasse o Pacífico numa jangada, enquanto que o grande Titanic afundou…

Em cada qual reside um pequeno, mas não desprezível, poder. Não representará senão um grão de areia ou uma gota no oceano, mas “grão a grão, enche a galinha o papo”. Podemos estimular a produção e comércio locais, vitais para a autonomia económica de uma região, para que não se torne dependente da importação e da especulação por terceiros.

Pela minha parte, tenho estado gradualmente a des-hipermercar as minhas compras, dado que o conceito de hipermercado me é antipático, por várias razões:
– a gente apinhada, como sardinhas em lata, num recinto fechado de ar condicionado;
– as sempre avultadas filas de espera que me fazem perder tempo;
– os apitos constantes dos produtos a passar no leitor de códigos de barras, irritante poluição sonora que contribui para o “stress” de quem lá passa e trabalha;
– as perguntas mecânicas dos/as empregados/as (“Quer saco? Vai desejar factura?”), pobres criaturas que, sem se saturarem, as têm de dizer, com um sorriso-robô, vinte mil vezes ao dia (taylorismo contemporâneo aplicado ao sector terciário);
– o abuso de poder de grande distribuidor que impõe super-margens em desfavor do produtor, levando, por vezes, a campanhas promocionais em que há “dumping”;
– a lógica do baixo preço, em detrimento da qualidade, da frescura e da diversidade (é notória a concentração num número reduzido de variedades biológicas);
– o império da “longa duração na prateleira”, que vai progressivamente reduzindo ou retirando, da oferta ao público, produtos mais frescos e salutares, próprios para consumo imediato, mas que não aguentam longos períodos de armazenamento (por exemplo, leite do dia integral, certos frutos e vegetais, etc.).

Excepção seja feita às cadeias de supermercados como o Celeiro e outras congéneres (Brio, Biocoop, etc.), não só pela ênfase dada aos produtos biológicos, mas, sobretudo, por disponibilizarem diversos alimentos que não se encontram em mais lado nenhum.

Compreendo o impacto dos grandes grupos, ao darem emprego a uma série de pessoas que até preferem estar por conta de outrem do que por conta própria. Mas seria muito perigosa uma conjuntura em que eles teriam a exclusividade no fornecimento de alimentos a uma população.

Para que isso jamais aconteça, é necessário que o comércio tradicional, ou não tão tradicional assim (lojas de comércio justo, mercearias do mundo, mini-mercados indianos e chineses, etc.), ganhe consciência de que, se quer sobreviver, tem de oferecer mais ou melhor serviço, pois competir contra os grandes operadores com base no preço, não só é inexequível, como faz cair a pique a qualidade.

Eis a lista, pessoal e não exaustiva, de fornecedores a operar em Lisboa, com serviço de entrega ao domicílio, a que recorro regularmente conforme a oferta e a necessidade (com uma boa relação qualidade/preço em determinados produtos):

Fruta e hortícolas Vários (aqui)
Mel
Ao produtor (sem site)
Ovos
Ao produtor (sem site)
Azeite e azeitonas
Ao produtor (sem site)
Carne Talho Espadilha & Simões
Peixe
Peixaria Centenária;
Peixinhos da Horta;
Peixe Fresco
Cereais, leguminosas
Celeiro
Especiarias
Glood
Chás especiais
BioCampello

O que é que ainda compro no hipermercado? Leite – mas continuo à procura de um fornecedor substituto. Para exorcizar os fantasmas da insegurança alimentar, é sempre preferível optar por produtores ou distribuidores que já forneçam o comércio ou a restauração local.

Também é preciso que se diga que a minha dependência das grandes “catedrais” de consumo é, provavelmente, inferior à de outras pessoas, porque tento só comprar matérias-primas e minimizar a ingestão de processados industriais (o reino da goma, bolacha, salsicha e batata frita) ou processá-los eu com qualidade superior: é o caso de pão, sumo, iogurte, queijo, manteiga, vinagre, azeitonas em conserva, pasta de cacau, etc.

Nenhum dos derivados anteriores me leva mais do que dez minutos a fazer (exceptuando, quando aplicável, o tempo de cozimento ou de cura), com um mínimo de utensílios sujos na sua elaboração. Aprimorei a técnica e simplifiquei os processos, com receitas próprias e certos truques práticos. Keep it simple.

Mas, claro, é preciso não se ser demasiado passivo… de cabeça – porque, convenhamos, sair de casa, ir até ao supermercado, estacionar, tirar o ticket, andar à procura das coisas no hipermercado, esperar na fila para pagar, ensacar, despejar o carrinho das compras, introduzir o ticket, regressar a casa, procurar um lugar para o carro, estacionar, carregar com os sacos, demora muito mais tempo e dá muito mais trabalho do que confeccionar, numa só hora, pão, iogurte, manteiga, queijo fresco, pasta de sésamo e pudim de gengibre, por exemplo -, mas estes dão mais que pensar.

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