Pessoa, qual delas?

«Considero, sim senhor, Fernando Pessoa como um grande talento. Mais: afirmo que como crítico e como ironista não houve outro que o igualasse (…), não digo que não foi mau poeta. Digo que não foi poeta, isto é, nem bom nem mau poeta. E se foi poeta, foi-o só com exclusão de todos os outros, desde Homero até aos nossos dias. Veja a “Tabacaria”: não passa de uma brincadeira. Que poesia há ali? Não há nenhuma, como não há nada… nem sequer cigarros!… Fernando Pessoa tentou intelectualizar a poesia, e isso é a morte dela (…). Veja o poema (poema?!) que começa “O que nós vemos das coisas são as coisas”… Isto não é poesia, nem filosofia, nem nada… (…) Fernando Pessoa quanto era lógico na prosa, era ilógico no verso. (…) Em resumo, Fernando Pessoa não foi poeta, porque foi dotado dum raciocínio matemático (…), quanto ao Fernando Pessoa político, a impressão que tenho é a de que em política era o mesmo que em poesia. Tinha a arte de tornar o «sim» igual ao «não» e vice-versa… Em suma, um “blagueur” genial»
– Teixeira de Pascoaes, “Fernando Pessoa visto por Teixeira de Pascoaes”, «O Primeiro de Janeiro», suplemento «Das Artes e das Letras», 24 de Maio de 1950.

«Não se pretende investir aqui contra um pacato empregado de escritório chamado Fernando Pessoa. Provavelmente, qualquer dia, ainda se virá a descobrir que ele, afinal, era um grande poeta (…). Todos ficaríamos muito mais tranquilos se, por fim, simplesmente ouvíssemos: Fernando Pessoa? Não conheço…»
– Mário de Carvalho, “Tanto Pessoa já enjoa”, «Diário de Lisboa», 23 de Maio de 1985.

«Não sei se gostarei de dez por cento daquilo que escreveu (…). O Pessoa irrita-me em grande parte (…). Mas, mais do que isso, irrita-me a liturgia, o exercício sacralizante em redor da sua figura. É irritante e injusto (…) há muitos nomes que têm sido prejudicados por essa corrida a Pessoa»
– Vasco Graça Moura, “Vasco Graça Moura: Sou um homem de acção”, «Ler», 3, p. 16-19. Lisboa: Círculo de Leitores, 1988.

«De Fernando Pessoa irrita-me a planeada aridez, a esterilidade dos afectos, a mediocridade das emoções, o vazio do coração, o snobismo do manga-de-alpaca intelectual. (…)»
– Maria Teresa Horta, “Não gostar de Fernando Pessoa”, «Tempo». Lisboa, 5 de Maio de 1988.

Divulga-se que várias personalidades não gostam de Fernando Pessoa – tal facto, passando de boca em boca, chega aos manuais escolares do Ensino Básico, onde obtém destaque de exemplo (quiçá, com a intenção de promover o juízo crítico, em vez da crítica do juízo?). Os juízes – haja quem os critique.

Têm todo o direito de gostar ou de não gostar – seja de Pessoa ou de batata frita -, mas qual a necessidade de justificar, de pretender ter razão? Discutem gostos! Falam de Pessoa ou da pessoa?

Curiosamente, antes de saber que não gostavam de Pessoa, já não me diziam muito tais personalidades. Quem sabe se um dia virei a achar neles outras pessoas.

Digo mesmo mais: há uma forte probabilidade de eu não gostar de uma personalidade que não goste de Pessoa, porque é, muito provavelmente, o tipo de personalidade que coloca, entre a sua própria pessoa e Pessoa, uma personificação a obstruir (o que, mesmo que não se dêem conta, tem o seu quê de pessoano).

No entanto, eu não tenho a menor dúvida sobre onde reside a maiúscula. E porquê? – para os que precisam de ter sempre uma ‘razão’ – porque é em razão das muitas pessoas que Pessoa foi e das muitas que nele ainda hoje se encontram, que vós, anti-pessoanos, se despeitam e envergam a máscara de persona non grata, brandindo invectivas contra aquele que vos fez um discurso laudatório: tudo! de todas as maneiras! Quero dizer: Álvaro de Campos. Sim, porque já Bernardo Soares abomina-vos:

«…odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a ortografia também é gente.»

Ou será apenas o ortónimo – o Pessoa “ele próprio” – que vos desgosta? Creio que até a Pessoa desgostava, daí ter inventado outros para lhe darem descanso de si mesmo. Era, ao menos, um desgosto substituído pelo gosto em criar.

Verdade se diga, não vos ouvi ainda apontarem as reais vulnerabilidades de Pessoa – por exemplo, não ter compreendido Nietzsche (ainda que fosse nietzscheano à sua maneira, em tanta coisa) – mas isso já seria partir do pressuposto de que vós o teríeis compreendido, quando nem Pessoa, que escreve na mesma língua (será mesmo a mesma?), compreenderam… Como censurar Pessoa – que deve ter lido Nietzsche a partir de uma tradução personificada pela época proto-nazi?

Considera-se que a personificação é um recurso estilístico segundo o qual se atribui vida a seres inanimados, porém, possui também um duplo negativo, através do qual se sobrepõe a um espírito vivo letras ou imagens mortas que não condizem com ele. A personificação negativa é a figura de estilo preferida dos juízes, dos racionalistas, das feministas…

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