Cowards

«Nietzsche published his book, and was at once pronounced crazy by the world – by a world which included tens of thousands of bright, sane men who believed exactly as Nietzsche believed but concealed the fact and scoffed at Nietzsche. What a coward every man is! and how surely he will find it out if he will just let other people alone and sit down and examine himself. The human race is a race of cowards; and I am not only marching in that procession but carrying a banner.»

– Mark Twain, “Mark Twain in Eruption – About man and events”, 4 September 1907.

Cosmology

La Danza de la Realidad” (2013), Alejandro Jodorowsky:

00:00:54
«Money is like blood,
it gives life if it flows.
Money is like Christ,
it blesses you if you share it.
Money is like Buddha,
if you don’t work,
you don’t get it.
Money enlightens those who use it
to open the flower of the world,
and damns those who glorify it,
confounding riches with the soul.
There is no difference
between money and conscience.
There is no difference
between conscience and death.
There is no difference
between death and wealth.»

00:25:47
«- Look, I’ll show you how to meditate.
Say after me: Gate. Paragate. Parasamgate.
Bodhi Svaha.
Gate, in the intellect.
Gate, in the heart.
Gate, in the sex.
Paragate, even deeper.
Parasamgate, heart.
Bodhi Svaha, happiness!
Bodhi Svaha, happiness!
Bodhi Svaha, happiness,
happiness, happiness, happiness,
happiness, happiness!
Come with me.
Do you know how long
these cable cars have been here?
– I don’t know, Theosophist.
– Thousands and thousands
and thousands of years.
You don’t know where they come from
nor where they go,
but you can take one of their rocks
and keep it like a treasure. Come.
Those cars are like our bodies
which carry our souls.
The soul is a treasure,
the god within us.
I’m going to give you a present.
See these three medals?
They think they’re separate.
Melt them down in an oven,
and they will turn
into a single drop.
Here, have them.
Make a necklace with them
and wear it all the time
to remind you
that a single god unites
the three of them.»

La_Danza_de_la_Realidad

01:09:33
«I don’t want to live in a world of dressed up dogs.
It makes me sick.»

01:11:57
«The only buildings on the land
are these right royal stables,
made just for Bucephalus, my king.
I’ll introduce you to my handsome.
But be right careful,
he don’t trust nobody.
You’ll be sleeping here,
right next to me.
For we’ll be up
at the crack of dawn every day
to see to Bucephalus’
health and comfort.
Walk!
Talk to him now.
Your voice must go right in his ear
to reach his heart.
– Bucephalus.
– That voice is from your head!
C’mon, man! Try to understand.
It’s got to be from your chest.
Right from the heart. (…)
For my horse is sacred.
Dance!
Ah, Bucephalus! (…)
Be careful with the yellow flowers!
These horses are wild about them.
But it’s a deadly poison.»

01:25:24
«Being in a cradle of cement,
swaddled in a gigantic shadow,
bound to my empty existence.
Trapped in this island of flesh,
searching for myself in memories,
and meeting no one.
The darkness is swallowing everything.
It’s going to devour us. (…)

01:27:42
«You belong to the darkness.
Darkness is your kingdom
and you are a monster of the night.
You are hungry. (…)
To feed your hunger
you need to devour a princess,
ever so white.
Ever so white!
The princess hides.
The monster has to catch her.»

01:31:34
«If you want to survive,
you must go unnoticed.
I’m going to remove
these barriers from your mind.
Out with Pinocchio!
Out with the Jew!
Out with the nose and white skin!
You are empty!
You are invisible! (…)
We are like air.
They do not see us, Alejandrito,
nor do they hear us.
Air…
We are air.»

01:54:46
«- Blessed be Don José!
– Who is Don José?
– He’s… He’s your father.
– Confess! Who is Don José?
– He’s your brother.
– Who is Don José?
– He’s your son.
– Keep going! Who is Don José?
– You are.
– I’m going to blow your brains out!
Who is Don José?
– You are, I am, we all are.
– Enough! Confess!
– I love you, Don José!»

02:03:17
«You can cure yourself.
Look at your god!
Look at the devil you admire! (…)
And here you are!
You are the same as they are!
You have lived in the guise of a tyrant. (…)
This man who feels and cries,
this man is you.»

02:07:08
«I soar away from the past,
Land in the present body,
Bear the painful burden of years,
Yet in the heart keep the child,
As the bread of life,
As a white canary,
As a worthy diamond,
As a lucidity without walls,
Wide open doors and windows,
Through which blows the wind,
Only the wind,
Just the wind.»

‘Ser livre é fugir da servidão de si mesmo’

“Michel Foucault par lui même” (2003)

15:00 – “Num dia de Abril de 1657 foram presas em Paris cerca de 6.000 pessoas e foram levadas ao Hospital Geral, ou porque eram desempregados, ou mendigos, inúteis, libertinos, excêntricos, homossexuais, loucos, insensatos. (…) Uma simples súplica da família era suficiente para enviar uma porção de pessoas ao hospital para toda a vida.”;

18:35 – “A palavra que me parece mais pérfida não é a palavra ‘louco’. A palavra que eu mais temo é ‘doença mental'”;

27:00 – “Um juiz serve para fazer a polícia funcionar”;

29:00 – “… o que quer dizer essa palavra ‘humanidade’. (…) Procurou-se um meio discreto e absolutamente económico de exercer esse poder de punição e é essa nova economia do poder que chamamos pela palavra ‘humanidade'”.

33:05 – “Dotar o poder de um olhar. Impor, por consequência, àqueles sobre os quais se exerce o poder uma visibilidade integral, exaustiva.”

37:05 – “A servidão de si, a servidão para consigo mesmo se define como aquilo contra o que nós devemos lutar. Desenvolvimento desta proposição: ser livre é fugir da servidão de si mesmo. Ser escravo de si mesmo, servir a si mesmo, é a mais grave e pesada, gravissima, de todas as servidões. É uma servidão assídua, isto é, ela pesa sobre nós, sem cessar, dia e noite, sem intervalo. Ela é inevitável, mas isso não quer dizer que seja completamente insuperável, em todo o caso, ela é inevitável, porque ninguém está livre dela.”

42:00 – “Meninas” de Velázquez;

46:30 – “Eu penso que o homem, se não é um sonho mau ou um pesadelo, pelo menos é uma figura muito particular, muito determinada, historicamente situada no interior de nossa cultura. Antes do século XIX, podemos dizer que o homem não existia, o que existia era um certo número de problemas, era um certo número de formas de saber e de reflexão – ou era questão da natureza, ou da verdade, ou do movimento, ou da ordem, ou da imaginação, ou de apresentação, etc. – mas nunca, para dizer a verdade, era questão do homem”;

59:30 – “No fundo, o que era o humanismo? É uma espécie de cristalização, que ninguém teria ousado contestar, creio, e que servia a duas coisas, mais até a uma junção entre duas coisas: por um lado, salvar o máximo do que podia ser salvo, numa forma de pensamento, de moral, de política também, do que se poderia chamar, grosso modo, o poder tradicional, etc.; e depois salvar, por outro lado, mas ao mesmo tempo, de maneira unida, a nova tradição do marxismo.”

Ingenuidade

Obrigada, Sílvio

«Isso me faz lembrar um conto húngaro, em que um ferreiro fazia operações de catarata com um instrumento rústico, mas sempre com muito êxito. Sua fama trouxe até ele os sábios da medicina, já viu! Deitaram tanto conhecimento em cima do pobre ferreiro que acabaram por inibi-lo, a ponto de ele nunca mais conseguir levar a cabo uma cirurgia. Aqueles sábios procuravam provavelmente compensar a sua falta de talento para fazer com um suposto conhecimento de como fazer. Deviam até passar por ótimos teóricos, mas só atrapalhavam. Acho que a literatura perdeu certa ingenuidade, como aquele ferreiro depois da visita dos sábios. (…)

Nunca pensei em expor qualquer teoria a respeito do meu minguado trabalho, nem vejo sentido nisso. Ou esse trabalho fala por ele mesmo, sem o socorro de qualquer suporte teórico expositivo, ou deve ser descartado. Acho que essa já é uma atitude inteiramente oposta à dos procedimentos que você arrola, o que bloqueia de partida qualquer cotejo. Enquanto escritor, se há interesse em saber, tive sim três preocupações: desenvolver meu aprendizado da língua, um processo que não acaba nunca; fazer leituras pertinentes de alguns autores, segundo meus critérios; e fazer uma leitura atenta da vida que acontece fora dos livros. Tem mais isso, no que fui radical: não permitir que transformassem minha cabeça numa lata de lixo. (…)

Futurismo, cubismo, dadaísmo, surrealismo etc. Confesso que sou o exemplo mais acabado de ignorância de tudo isso, por consciente desinteresse. No bojo desse desinteresse se enunciava qualquer coisa assim: fui posto neste mundo sem ter sido consultado, não esperem que eu vá consultar alguém sobre como fazer, na hora de eu expressar minha rejeição a tudo que está aí. (…) Os jovens escritores que não cediam às propostas da época eram inibidos pela falta de espaço. (…) Daí que ignorei ostensivamente aquelas teorias todas que eram usadas como instrumento de proselitismo, resvalando inclusive no engraçado. (…) Acho que se deve aproximar com cuidado de jovens escritores, escritores jovens são sempre portadores de sonhos. Tudo bem que um dia vão cair na real, mas quando muito podemos dizer a eles: aventurem-se diante de uma folha em branco, façam o que lhes der na telha, estamos torcendo por vocês, mas não lhes propor uma camisa-de-força. Nada contra quem inventa sua própria camisa-de-força, só acho uma impertinência propor a terceiros a mesma indumentária. (…)

As ideias estão no ar. Se assimilei uma e outra no meu trabalho, as tais conquistas de que você fala, foi cheirando involuntariamente a atmosfera. Por decisão mesmo, sempre me mantive à distância de toda especulação teorizante ou programática, sobretudo por uma questão de assepsia, quero dizer, para preservar alguma individualidade da minha voz. Não ia arrogância nisso. Se tivesse de me pautar pela leitura de manifestos literários, eu jamais teria escrito uma linha. (…)

Nunca li Joyce, mas já ouvi falar que tem gente que se prostra três vezes ao dia na direção dessa meca. Eu pensava que só muçulmano é que fizesse isso. (…)

Obsceno é toda mitificação. Obsceno é dar um tamanho às chamadas grandes individualidades que reduz o homem comum a um inseto. Obsceno é não fazer uma reflexão pra valer sobre o conceito de mérito, dividindo tão mal o respeito humano. Obsceno é prostrar-se de joelhos diante de mitos que são usados até mesmo como instrumento de dominação. Obsceno é abrir mão do exercício crítico e mentir tanto. (…)

Seria um pressuposto falso achar que quem escreve deva fazer necessariamente certas leituras. O pressuposto correto seria a leitura da vida. Todo texto que consegue passar a vibração da vida é um texto que vale, na minha opinião. (…)

Sacanagem, inveja, generosidade, amor, violência, ódio, sensualidade, interesse, mesquinhez, bondade, egoísmo, fé, angústia, medo, ambição, ciúme, prepotência, humilhação, insegurança, mentira e por aí afora, mas sobretudo passionalidade, além do eterno espanto com a existência. É este o patrimônio da espécie. (…)

Afinal, que culpa têm os profetas além de brandir o cajado? Nenhuma. No ritual da castração, foram sempre os seguidores que deram em oferenda seus próprios testículos. Foi sempre assim, de mão beijada, numa bandeja de prata. Justiça seja feita, com a mão em cima da Bíblia. (…)

Afinal, eu também pensava, quando esbarrei nos sofistas, que a razão não era exatamente aquela donzela cheia de frescor que acaba de sair de um banho numa tarde de verão. Ao contrário, era uma dama experiente que não resistia a uma única cantada, viesse de onde viesse, concedendo inclusive os seus favores a quem pretendesse cometer um crime. O aporte ético, que tentaram colar nela desde os tempos antigos, lhe é totalmente estranho. A razão não é seletiva, ela traça de tudo. Acho mesmo que a razão é uma belíssima putana, mas vem daí o seu grande charme, se bem que esse charme venha mais da sua humildade, passando longe da arrogância de certos racionalistas. (…)

Como você vê, o que aconteceu comigo acontece nas melhores famílias. Na minha adolescência andei em más companhias, trapaceiros e caloteiros, mas de que trago boas lembranças por terem sugerido posturas para a reflexão. Os trapaceiros atuando no mundo turvo dos valores, o caloteiro, na linha reta da investigação objetiva, os dois atuando em áreas tão diferentes, mas convergindo, e como!, na cabeça de um jovem que pretendeu um dia fazer literatura com liberdade. Se é que isso seja possível. (…)

O Hamilton Trevisan dizia que continua­mos na vida adulta a recitar “Batatinha quando nasce”, esperando por aplausos. Ele falava isso com muita graça, imitando a menina que puxa as pon­tas da saia para os lados e curvando o corpo pra frente com falsa modéstia ao agradecer os aplausos. A gente ria muito cada vez que ele imitava a meni­na, mas todos nós continuávamos a investir na nossa “batatinha”. E há quem diga também que a diferença entre o adulto e a criança está só no tamanho do brinquedo. Comecei a me perguntar num certo momento por que expor em público o meu brinquedo.»

Raduan Nassar