Um cinema onde passava «a morte»

«(…)
as capitais da terra, uma a uma,
desfeitas em nuvem e negra espuma,
atingidas de noite no seu centro;
mas nunca vi paris contigo dentro.
E falta-me esta imagem para ter
inteiro o álbum que me coube em sorte
como um cinema onde passava «a morte»;
solene imperador, abrindo o manto
onde ocultei a cólera e o pranto,
falta-me ver paris contigo dentro.»

– Antº Franco Alexandre, “Vi Roma arder”

«A teia sem enredo é a minha ideia fixa,
puro cristal, como os da neve, abstracto,
tão claro como o mero abecedário
onde as palavras falam sem barulho;
a recta, a espiral, e o nada
que só à filigrana se consente,
são todo o meu orgulho, e no final
ter desenhado esse lugar exacto
onde em segredo posso ser humano.»

[p. 15]

«(…)
Bem sei que o corpo humano é frágil, imaturo,
um tanto mole, e pouco colorido;
não tem o corte puro do besouro,
nem o jeito frugal do escaravelho;
mal chega a florescer, logo envelhece,
e o pouco que constrói cedo parece,
transfigurado em sombra, não ter sido.
Assim serei também; por mais que digam
que nesta mutação me desperdiço
e arrisco até uma burlesca queda,
eu teimo em ser humano por um dia
para que possas ver-me tal qual sou:
um grão, de fina areia, que se move
no dourado rumor da tua pele,
o breve estremecer que te percorre,
a preguiçosa vida dos sentidos;
e depois, teu igual, talvez te vença
ou me deixe vencer, e te pertença
com a vaidade que me vem de ter
o sábio coração de um aranhiço.»

[p. 45]

– Antº Franco Alexandre, in Aracne, 2004.

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