O que se move

Estava para aqui a pensar que, de entre as pessoas da minha geração que se notabilizaram, não invejo (no sentido de me considerar aquém) ninguém, espiritualmente falando. Mas, de um ponto de vista social, já me consideraria aquém de todos ou quase. Pergunto-me se não será assim necessariamente, quer dizer, para se chegar a certas alturas espirituais, tem que se abrir mão de um rol imenso de tarefas e empreendimentos sociais que, ao roubarem-nos tempo e energia, logo entravariam ou abortariam desenvolvimentos ulteriores do espírito. Também acho que o mesmo se passa com a opção de cultivar-se a beleza segundo os padrões vigentes, isto é, com toda a certeza, a menina que ocupa mais de metade da sua agenda com manicure, depilação, maquilhagem, cabeleireiro, ginásio, compras de roupa e acessórios de moda, não terá disponibilidade para outras procuras e voos mais imateriais. Talvez por isso os belos rostos raramente me dizem alguma coisa. Acho-os muito opacos. Iluminam pouco. Gastam-se depressa.

De modo que, acreditem, não invejo ninguém. Sei até onde fui – até ao “primum mobile” -, mesmo que ninguém mais o saiba. Sei que estive lá, em momentos de pânico absoluto – no vórtice dos vórtices – mesmo que não fosse perceptível do exterior. E também sei que isso de nada serve socialmente, que eu sou uma traidora social a todos os níveis, que a sociedade se vinga de eu não a mimar reproduzindo os seus percursos pré-estabelecidos e censura-me à boca pequena de eu não ter feito isto e de não ter sido aquilo, coisas que para mim não têm a menor importância, o menor carácter. Coisas – quando eu tenho investido todo o ócio em movimentos.

E, de repente, todo o planeta não é senão como uma espécie de divã de molas, que vibram em permanente tensão elástica e que emitem som como as cordas arpejadas de um instrumento musical. Mas poucos se detêm para ouvir. Está tudo demasiado ocupado, demasiado embrenhado, demasiado stressado pelos agastes e engastes sociais. Alexandres, não Diógenes. E, às vezes, não é fácil conseguir que não se entreponham entre mim e o meu sol que, para todos os efeitos, também não é o sol social, mas o que se move.

Vou acabar a falar de cinema às lagartixas imóveis sob o sol… – é o que prenuncio.

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