Se não fossem as árvores

«Quando eu passo, as árvores ficam sempre – é uma constatação que eu faço, caminhando da Sintra comercial para a Sintra confusa e banal onde se eleva o Palácio. Sintra fraca e promíscua, penso muitas vezes. «Se não fossem as árvores», não haveria arquitectura em Sintra, penso muitas vezes. (…)

– Como Sintra é bela, por ter às vezes também árvores! (…)

É um facto que eu, quando penso em Marguerite Yourcenar, penso sempre numa árvore que escreve, com uma escrita que circula entre a raiz e o cimo, tecendo uma rede sinuosa em que a seiva, mesmo ascendente, está sempre ligada ao peso grave de tanto se imiscuir na terra.

Poderia ser uma árvore, uma ave que levanta voo coberta pelo seu peso,e que cai de novo sobre a raiz, transformando o voo cortado em seu verde? (…)

Poderia ser Yourcenar uma figura, tal como eu a concebo? Uma espécie de lugar de troca, como as árvores o são – uma espécie de realização duradoura, presa, e material do espírito? (…)

A árvore ainda existe? O plátano ainda existe, pois. Vejo-a imobilizar-se no écran do computador e quero saber o que é o fasto e o nefasto, e ouço a voz dos automóveis que me diz: “que só há caminho”.»

– Mª Gabriela Llansol, caderno 1.48 do espólio, 1997.

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