Quão a vida vale a pena de ser vivida

Há quem se coloque a questão: “O que faz com que a vida valha a pena ser vivida?”

Não é o que se pergunta alguém que identifica a vida com o vivido, alguém que não faz a distinção?

Talvez seja preciso, em primeiro lugar, colocar em questão a questão. Estará bem colocada? Não estará invertida? Não devia ser antes: o que é que faz com que o vivido valha a pena senão a vida?

Que o vivido é uma pena, isso já todos sabemos. É um cliché. Mas a vida, que culpa tem a vida, se não a encontramos para lá do vivido? Sim, a vida vale a pena, porque não é o vivido. A vida vale muito mais do que a pena do vivido. Porque, ao contrário deste, não tem peso, é leve como uma pena (sim, mas esta pena já é outra), é leve como uma ave, um éter. O coro e a coreografia de Choré. Não a música nem a dança graves do vivido.

E quando se sabe isso, sabe-se tudo o que de importante na vida há para saber, independentemente da maior ou menor relevância dos saberes adquiridos através do vivido.

“O que faz com que…”? não representa um decalque das figuras empíricas, das rotinas jornalísticas que mediatizam a concepção habitual que fazemos do mundo? “O que/quê, quem, quando, onde, porquê?” – são as perguntas triviais que qualquer estudante de jornalismo é treinado para fazer.

Nem sequer se trata de um equívoco do tipo “quid pro quo”, dado que não é melhor perguntar “quo” (quem?) do que “quid” (o que/quê?). A questão é equívoca, mas não por essa razão.

Formular a pergunta daquela maneira é, desde logo, introduzir a falta, pois equivale a indagar: “O que me falta para que a vida valha a pena ser vivida?”. Não nos deve surpreender que estas interrogações assomem amiudadas vezes no pensamento de pessoas, a quem, do ponto de vista dum observador externo, não falta nada, pois têm tudo o que o comum dos homens possa desejar. E, no entanto, falta-lhes algo (“aliquid”), ou não se molestariam a si mesmos com tais dúvidas. Dúvidas são dívidas. Só as têm aqueles a quem falta.

Haverá algum modo de reformular a questão inicial, de forma a não desencadear uma dívida infinita? A partir do momento em que o valor da vida é colocado na dependência de um “quid” (O que?) ou “quo” (Quem?), de uma “quididade” ou representação, de uma qualquer coisa ou ente, basta que ele falte, ou que esgote a sua aptidão para satisfazer, para que se regresse ao estado de falta.

Há, evidentemente, muitas pessoas que vivem toda a sua vida nesta lógica de perseguir aquilo que lhes falta: amor, fortuna, poder, fama, glória… E nunca chega, nunca estão bem com aquilo que têm – porque, de facto, as quididades e as representações somente não têm esse poder. O que encontram apenas responde de modo parcial ou temporário a uma questão mal colocada.

Importa transformar a questão numa questão de grau, sob a égide de um “quam” (que vale para indagar simultaneamente “Quanto?” e “Como?”, ou seja, quantidade intensiva e método). “Quão a vida vale a pena de ser vivida?” – é a questão que vale a pena colocar.

Repare-se que a questão alberga uma comparação matemática: quão a vida vale comparativamente à pena do vivido? Como se fossem dois pesos numa balança (a balança egípcia): a vida vale mais ou menos do que a pena do vivido? Por este “mais” entenda-se “mais leve, ligeiro”, e por “menos” entenda-se “mais pesado, grave”. Quanto mais leve a vida, mais o prato da balança se eleva sobre a pena do vivido (a “pena” de Maat) e quão mais a vida vale a pena de ser vivida!

Há decerto entes que vivem tão imersos no vivido, nas suas penas, que julgam que equivale à Vida, a ponto de pensarem que é o mesmo prato da balança, e de serem indiferentes à diferença entre ambos os planos.

Ao referir-me assim à Vida, com maiúscula, há o perigo de a tomarem por símbolo transcendente, quando ela antes é um per(i)manente “quam”. A Vida é um “quão”. Quão és vivo? – poderia ser a questão abreviada. Nesta altura, o valor da vida já não depende disto ou daquilo, daquele ou daquela, não falta nada. A Vida deixou de se sujeitar às rotinas e critérios do vivido, deixou de se reificar, objectificar, para se dotar de uma potência autónoma que percorre os graus de um processo intensivo que se vai fazendo ao longo da vida.

“O que faz com que a vida valha a pena de ser vivida?” A Vida que “se” faz. Um ano mais, nível de jogo acima. Cada vez mais, cada vez mais… Quão mais?

Este “quam” é o objectivo do jogo do vivido. O vivido, o pathos, é apenas um jogo. Se a maioria das pessoas soubesse disto, quanto mais relaxadas se moveriam. Agressão física, ataque verbal, para quê? É apenas um jogo…

Não de xadrez, porque este se joga ao nível das quididades, ou, num nível mais baixo ainda, o da hierarquia das representações, com as peças ordenadas pelo seu valor relativo: rei, rainha, torre, bispo, cavaleiro, peão…

Então, que jogo? O “jogo de paciência” descrito por Kafka:

«Era uma vez um jogo de paciência, um jogo simples e económico, não muito maior do que um relógio de bolso e sem quaisquer dispositivos surpreendentes. Na superfície de madeira, pintada de vermelho-acastanhado, foram talhados alguns atalhos azuis que conduzem a um pequeno buraco. A bola, também azul, inclinando e balançando, devia ser encaminhada, primeiro para um dos caminhos, e depois para o buraco. Uma vez a bola no buraco, então o jogo acabava, e caso se quisesse iniciá-lo novamente, era necessário sacudir a bola para fora do buraco. A cobrir o conjunto, um forte vidro curvo; cada qual poderia pôr e levar o jogo de paciência no bolso, para onde quer que fosse, tirá-lo para fora e jogar.
Estando a bola inactiva, então ela, geralmente, de mãos atrás das costas, à superfície, para a frente e para trás, evitava jogar. Ela era da opinião que, durante o jogo, já era suficientemente atormentada através dos caminhos, e que tinha todo o direito, quando não se jogava, de recuperar o campo aberto. Ela possuía um largo calibre de passagem e alegava que ele não fora feito para pistas estreitas. Isto era em parte correcto, pois os canais dificilmente a continham, mas também era incorrecto, porque, na realidade, ela havia sido cuidadosamente adequada à largura dos caminhos, mas não era suposto estes serem fáceis, caso contrário, não seria um jogo de paciência.»

[«Es war einmal ein Geduldspiel, ein billiges einfäches Spiel, nicht viel größer als eine Taschenuhr und ohne irgendwelche überraschende Einrichtungen. In der rotbraun angestrichenen Holzfläche waren einige blaue Irrwege eingeschnitten die in eine kleine Grube mündeten. Die gleichfalls blaue Kugel war durch Neigen und Schütteln zunächst in einen der Wege zu bringen und dann in die Grube. War die Kugel in der Grube, dann war das Spiel zuende, wollte man es von neuem beginnen, mußte man die Kugel wieder aus der Grube schütteln. Bedeckt war das Ganze von einem starken gewölbten Glas, man konnte das Geduldspiel in die Tasche stecken und mitnehmen und wo immer man war, konnte man es hervornehmen und spielen.
War die Kugel unbeschäftigt, so ging sie meistens, die Hände auf dem Rücken, auf der Hochebene hin und her, die Wege vermied sie. Sie war der Ansicht, daß sie während des Spieles genug mit den Wegen gequält werde und daß sie reichlichen Anspruch darauf habe, wenn nicht gespielt würde, sich auf der freien Ebene zu erholen. Sie hatte einen breitspurigen Gang und behauptete, daß sie nicht für die schmalen Wege gemacht sei. Das war zum Teil richtig, denn die Wege konnten sie wirklich kaum fassen, es war aber auch unrichtig, denn tatsächlich war sie sehr sorgfältig der Breite der Wege angepaßt, bequem aber durften ihr die Wege nicht sein, denn sonst wäre es kein Geduldspiel gewesen.»]

Lamento não conseguir ser mais explícita do que Kafka. Porém, note-se o duplo movimento: da superfície para o profundo, e deste para a superfície. Na volta, as quididades não têm o mesmo valor que tinham à ida: adquiriram, simultaneamente, menos valor no que se refere à propriedade, e mais valor no que à ontologia diz respeito.

Mas acrescentarei que a bola do jogo de Kafka poderia bem ser uma “pérola”, pois há pérolas azuis, de mar ou de rio. Se há actividade que pode unificar os esforços da minha vida é precisamente essa: o de caçar pérolas (o tema da gravura de Hokusai que encabeça este blog é precisamente “caçadoras de pérolas”, outrora também lá esteve a “Moça com brinco de pérola”, e faixa azul, de Vermeer). E, se há algum motivo para me orgulhar de uma nacionalidade, é o facto de terem sido os Portugueses a denominar o “Barroco”, que, à selecção de pérolas, foi buscar o seu nome. A PÉRola – eis a per-ambulante ecceidade, o “clinamen” sempre fugitivo, o eterno retorno, a duração (Lat. “per”, durante), a Diferença, a Vida, o valor anímico por excelência. Quão ao vivo?

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