A grande machina do mundo

lima_de_freitas-a_visao_cosmica_de_camoes-estacao_do_rossio«Assi cantava a Nympha, & as outras todas
Com sonoroso aplauso vozes dauão,
Com que festejão as alegres vodas
Que com tanto prazer se celebrauão.
Por mais, que da fortuna andem as rodas
Numa consona voz todas soauão:
Não vos hão de faltar, gente famosa,
Honra, valor, & fama gloriosa.

Despois que a corporal necessidade
Se satisfez do mantimento nobre,
E na armonia & doce suauidade,
Virão os altos feitos, que descobre
Tethys de graça ornada, & grauidade,
Para que com mais alta gloria dobre,
As festas deste alegre, & claro dia
Para o felice Gama assi dizia.

Faz te merce, barão, a Sapiencia
Suprema, de cos olhos corporaes
Veres, o que não pode a vã sciencia
Dos errados, & miseros mortaes:
Sigueme firme, & forte com prudencia
Por este monte espesso, tu cos mais,
Assi lhe diz & o guia por hum matto
Arduo, difficil, duro a humano tratto.

Não andão muyto, que no erguido cume
Se acharão, onde hum campo se esmaltaua,
De esmeraldas, rubis, taes que presume
A vista que diuino chão pisaua:
Aqui hum globo vem no ar que o lume
Clarissimo por elle penetraua,
De modo, que o seu centro estâ euidente,
Como a sua superficia, claramente.

Qual a materia seja não se enxerga,
Mas enxergase bem, que estâ composto
De varios orbes, que a diuina verga
Compos, & hum centro a todos sô tem posto.
Voluendo hora se abaxe, hora se erga,
Nunca se ergue, ou se abaxa, & hum mesmo rosto
Por toda a parte tem, & em toda a parte
Começa & acaba, em fim por diuina arte.

Vniforme, perfeyto, em sy sostido,
Qual em fim o Archetipo, que o criou:
Vendo o Gama este globo, commouido
D’espanto, & de desejo aly ficou.
Dizlhe a Deosa, o trasunto reduzido
Em pequeno volume aqui te dou,
Do mundo aos olhos teus, pera que vejas
Por onde vas, & irâs, & o que desejas.

Ves aqui a grande machina do mundo,
Etherea, & elemental, que fabricada
Assi foy do saber alto, & profundo,
Que he sem principio, & meta limitada,
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo, & sua superficia tão limada,
He Deos, mas o que he Deos ninguem o entende.
Que a tanto o engenho humano não se estende.

Este orbe que primeyro vay cercando
Os outros mais pequenos, que em sy tem.
Que estâ com luz tão clara radiando,
Que a vista cega, & a mente vil tambem,
Empyreo se nomea, onde logrando
Puras almas estão d’aquelle bem,
Tamanho, que elle sô se entende & alcança,
De quem não ha no mundo semelhança.

Aqui sô verdadeyros gloriosos
Diuos estão, porque eu Saturno, & Iano,
Iuppiter, Iuno, fomos fabulosos
Fingidos de mortal, & cego engano,
Sô para fazer versos deleytosos
Seruimos, & se mais o tratto humano
Nos pode dar, he sô que o nome nosso
Nestas estrellas pôs o engenho vosso.

E tambem porque a sancta prouidencia,
Que em Iuppiter aqui se representa,
Por espiritos mil, que tem prudencia,
Gouerna o mundo todo, que sustenta.
Ensinao a prophetica sciencia
Em muytos dos exemplos, que apresenta.
Os que são bons, guiando fauorecem,
Os maos em quanto podem, nos empecem.

Quer logo aqui a pintura, que varia,
Agora deleytando, hora ensinando,
Darlhe nomes, que a antigua poesia
A seus Deoses ja dera, fabulando.
Que os Anjos de celeste companhia
Deoses o sacro verso estâ chamando,
Nem nega, que esse nome preminente,
Tambem aos maos se dê, mas falsamente.

Em fim que o summo Deos, que por segundas
Causas obra no mundo, tudo manda.
E tornando a contarte das profundas
Obras da mão diuina veneranda.
Debaxo deste circulo, onde as mundas
Almas diuinas gozão, que não anda:
Outro corre tão leue, & tão ligeyro,
Que não se enxerga: he o mobile primeyro.

Com este rapto, & grande mouimento,
Vão todos os que dentro tem no seyo:
Por obra deste, o Sol andando attento
O dia, & noyte faz, com curso alheyo.
Debaxo deste leue anda outro lento,
Tão lento, & sojugado a duro freyo,
Que em quanto Phebo de luz nunca escasso
Duzentos cursos faz, dâ elle hum passo.

Olha estoutro debaxo, que esmaltado
De corpos lisos anda, & radiantes,
Que também nelle tem curso ordenado,
E nos seus axes correm scintillantes.
Bem ves como se veste, & faz ornado
Co largo cinto d’ouro, que estellantes
Animais doze traz affigurados,
Aposentos de Phebo limitados.

Olha por outras partes a pintura,
Que as estrellas fulgentes vão fazendo.
Olha a carreta, attenta a Cynosura,
Andromeda, & seu pay, & o drago horrendo,
Ve de Cassiopea a fermosura,
E do Orionte o gesto turbulento,
Olha o cisne morrendo, que suspira,
A lebre, os cães, a nao, & a doce Lyra.

Debaxo deste grande firmamento,
Ves o ceo de Saturno Deos antigo,
Iuppiter logo faz o mouimento,
E Marte abaxo bellico inimigo.
O claro olho do ceo no quarto assento,
E Venus, que os amores traz comsigo,
Mercurio de eloquencia soberana,
Com tres rostos abaxo vay Diana.

Em todos estes orbes, differente
Curso verâs, nuns graue, & noutros leue,
Hora fogem do centro longamente,
Hora da terra estão caminho breue.
Bem como quis o Padre omnipotente
Que o fogo fez, & o ar, & o vento, & neue,
Os quaes veras, que jazem mais a dentro,
E tem co mar a terra por seu centro.

Neste centro, pousada dos humanos,
Que não somente ousados se contentão
De sofrerem da terra firme os danos,
Mas inda o mar instabil esprimentão.
Verâs as varias partes, que os insanos
Mares diuidem, onde se aposentão
Varias nações, que mandão varios Reys,
Varios costumes seus, & varias leys.»

– Canto X, estrofes 74-91, p. 283-288, in “Os Lvsiadas do grande Lvis de Camoens, Principe da Poesia Heroica” (com licença do S. Officio, Ordinario, y Paço), editado por Pedro Crasbeeck, Lisboa, 1613.

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