Diferentes calibres

Vou declarar em público o que já declarei em privado: Derrida é uma fraude teórica e, às vezes, também prática (um tipo cheio de mesuras éticas quanto ao animal, mas que abandona a amante quando ela lhe diz que não quer abortar o segundo filho dele, como fez com o primeiro? “To the devil with the child”, conforme ele escreveu). Não está, é certo, num nível teórico tão simplório como outros autores, mas, mesmo entre fraudes, há “skimming”, e sofisticação não é garantia de adequação.

Há que concordar com Searle, ao menos, nisto: “Foucault é um pensador de calibre diferente de Derrida”. E um dos erros estratégicos de Derrida foi não ter tratado Foucault e Deleuze como pensadores de “calibre diferente” de Habermas ou Searle. Homogeneizava tudo sob a forma da “discussão”.

Foucault, longe de o ter deixado a falar sozinho (como creio que, num primeiro impulso, lhe apetecesse fazer, o “horror ao comentário” que Blanchot lhe imaginava), teve por ele a consideração de lhe conceder, não uma, mas 4 réplicas (também no sentido sísmico do termo): o artigo “Ausência de obra”, um aquecimento para começo de conversa; a resposta numa publicação japonesa – toque humorístico de Foucault, que deve ter sentido que falava japonês para Derrida não ter percebido nada -; o novo prefácio de 1972; e, para fim de conversa, o culminante “posfácio com post-scriptum” (como Derrida lhe chamou em “Ser justo com Freud”, e que visivelmente constituiu o que o irritou mais) intitulado “Mon corps, ce papier, ce feu“, apenso à nova edição de “Histoire de la folie à l’âge classique”:

«Je suis bien d’accord sur un fait au moins: ce n’est point par un effet de leur inattention que les interprètes classiques ont gommé, avant Derrida et comme lui, ce passage de Descartes. C’est par système. Système dont Derrida est aujourd’hui le représentant le plus décisif, en son ultime éclat: réduction des pratiques discursives aux traces textuelles; élision des événements qui s’y produisent pour ne retenir que des marques pour une lecture; inventions de voix derrière les textes pour n’avoir pas à analyser les modes d’implication du sujet dans les discours; assignation de l’originaire comme dit et non dit dans le texte pour ne pas replacer les pratiques discursives dans le champ des transformations où elles s’effectuent. Je ne dirai pas que c’est une métaphysique, la métaphysique ou sa clôture qui se cache en cette «textualisation» des pratiques discursives. J’irai beaucoup plus loin: je dirai que c’est une petite pédagogie historiquement bien déterminée qui, de manière très visible, se manifeste. Pédagogie qui enseigne à l’élève qu’il n’y a rien hors du texte, mais qu’en lui, en ses interstices, dans ses blancs et ses non-dits, règne la réserve de l’origine; qu’il n’est donc point nécessaire d’aller chercher ailleurs, mais qu’ici même, non point dans les mots certes, mais dans les mots comme ratures, dans leur grille, se dit «le sens de l’être». Pédagogie qui inversement donne à la voix des maîtres cette souveraineté sans limites qui lui permet indéfiniment de redire le texte.»

Quem vai à guerra, dá e leva. E o feitiço virou-se contra o feiticeiro. Foucault deu uma coça intelectual em Derrida, após este pretender desacreditá-lo, e acabou o derridaísmo desacreditado. Felizmente! Não tenho a menor dúvida sobre de que lado pende a pior das loucuras e a pior das razões.

E como não ler aqui uma espécie de resposta para Derrida, vinda de outro quadrante, em antevisão de uma futura diatribe?

«… his [Foucault’s] method rejects universals to discover the processes, always singular, at work in multiplicities. (…) I differed from him only on very minor things: what he called an apparatus, and what Felix and I called arrangements, have different coordinates,  because he was establish­ing novel historical sequences, while we  put more emphasis on geographical  elements,  territoriality and movements  of deterritorializa­tion. We  were  always  rather keen  on  universal  history,  which  he detested. But being able  to  follow what he was doing provided me with  essential  corroboration. He was  often  misunderstood,  which didn’t get in his way but did worry him.  People were afraid of him, that’s to say his mere existence was enough to stop idiots braying. Fou­cault fulfilled  the function  of philosophy  as  defined by Nietzsche: being bad for stupidity [“nuire à la bêtise]. Thinking, with him, is like diving down and always  bringing  something back  up to  the  surface. (…) Thinkers  like Foucault advance by lurching from one crisis to another,  there’s something seismic about them. The  last  approach  opened  up  by  Foucault  is  particularly  rich: processes of subjectification are nothing to do with “private  lives” but  characterize  the way  individuals and communities are constituted as subjects on the margins of established forms of knowledge and insti­tuted powers, even if they  thereby  open  the  way  for  new  kinds of knowledge and power. Subjectification thus appears as a middle term between knowledge and  power,  a perpetual  “dislocation,”  a  sort  of fold,  a folding or enfolding.  (…) Thus, when people talk about Foucault returning to  the  subject,  they’re completely missing  the problem he’s address­ing. Here again, there’s no point arguing with  them

(Deleuze, “Negotiations”)

Não é de admirar que Foucault e Deleuze, que nutriam entre si amistosas relações, com artigos em comum, elogios e análises mútuas às respectivas obras, etc., mantivessem Derrida a uma merecida distância (apartamento em que ele próprio colaborou), não só por motivos teóricos, mas também por motivos éticos. Como cheiram mal certos ataques “ad hominem” (convidar Foucault para assistir à conferência que o humilharia em público? classificar como um “mau livro” o “Anti-Édipo” de Deleuze e Guattari? contudo, Foucault já havia respondido pelos dois, é que as campanhas contra ambos não são, no fundamental, de “calibre diferente”). Com amigos destes, quem precisa de inimigos? “Políticas da amizade”, “uma ética da discussão” – não soam em falso?

Acredito que o tempo possa vir a “ser justo com Foucault” e a “ser justo com Deleuze” (no que os aproxima e no que os diferencia), contra Derrida, o intelectual soberano como besta. O moralista, o julgador, o transcendente, o reactivo, e, sim, o “obscurantista terrorista” (como diz Searle, se é que Foucault o disse), aquele que corre sempre em defesa de Descartes, de Heidegger e da psicanálise, quando os outros lhe falam de Spinoza, de Nietzsche e da esquizo-análise. Alhos, não bugalhos. Até ao fim, Derrida demonstrou não perceber. Derrida: derrière soi, pas devant les autres. Seria preciso que “pas” mudasse de lugar na frase e que mudasse de sentido na realidade.

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