Pé-de-cabra

Dia de Portugal, de Camões e dos ladrões.

Acordar com alguém a introduzir o pé-de-cabra na persiana do meu quarto. A sonhar com ladrões? Acendo a luz e o estor cai sob o peso da realidade. Dois pilantras correm e um automóvel faz uma marcha-atrás estrepitosa. Marcas de um real com testemunhas.

Possuir um lugar neste mundo onde se possa dormir – bem cada vez mais raro.

No campo, medo dos velhos bárbaros: perigo de assalto, estupro, etc.

Na cidade, o terror da nova bárbarie: ruído, electrocussão, claustrofobia, etc.

Solicito o mínimo dos mínimos: um pouso onde me possa abandonar ao sono sem sobressaltos.

Fazer jus ao meu nome.

Ser-me.

Mas, forçada à in-sónia, tudo se me rouba: o sonho, o pensamento criador, a reparação, o alimento energético…

Miserere.

Como permanecer acordada, quando não conseguir mais dormir?

Cederei à existência dormente dos sonâmbulos à luz do dia?

Tantos, tantos…

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