Com silvos de meia-noite

Sempre desconfiei da lista enorme de variedades de hortelã (entre outras ervas comerciais), hortelã disto e daquilo, de chocolate a ananás, passando por toranja e limão. Perguntava-me: mas donde raio vem este repentino “tutti-frutti”? A aparição, com tanta rapidez, de tão grande quantidade de híbridos, não me soava a processo natural. Na Natureza não antropomorfizada, digamos assim, a hibridização demora milénios…

A hortelã-pimenta Mentha x piperita é um híbrido natural da hortelã-comum (Mentha spicata) com a hortelã-de-água (Mentha aquatica). A maioria das outras variedades são híbridos de laboratório.

Qual o problema dos híbridos? Geram sementes estéreis. A sua propagação não é possível através de semente, mas apenas por rizoma (divisão do caule ou da raiz). Produzem-se clones da planta inicial, ao invés de biodiversidade. A ideia de um só indivíduo replicado até à exaustão parece-me de uma grande pobreza genética.

No entanto, encontram-se à venda sementes de hortelã-pimenta. Foram geneticamente intervencionadas ou laboratorialmente tratadas com certos químicos para as induzir à reprodução. Mas o que elas vão reproduzir não é uma hortelã com sabor a chocolate ou a toranja (de criação artificial), mas apenas o aroma da hortelã-comum. A Natureza desfaz as ilusões do Homem.

Há necessidade de todos estes artifícios? Por razões mercantilistas, deve haver.

A clonagem não é de agora. Os transgénicos existem na Natureza e na tradição. Os métodos ditos tradicionais de enxertia, alporquia e estacaria já instituíram a clonagem a uma escala gigantesca. Estes métodos também se fazem naturalmente, mas não com a frequência que os aprendizes de agri-cultor (ou de feiticeiro) os executam. O mesmo se pode dizer das horríveis podas de rolagem, fresagens e roçagens incessantes, eucaliptizações massivas, etc.

A diferença é substituída pela monotonia, a abundância pela quasi-esterilidade.

Curiosamente, a noção grega de “hybris” (que deu origem a “híbrido”) servia para designar aquele cujo amor próprio era demasiado, o que não dista muito de um Narciso, em auto-enlevo, desejando que toda a matéria espelhe uma imagem de si mesmo: clone ao infinito. Mais um, ainda mais um igual a mim…

Por tudo isto, prefiro a selva, as silvas, as plantas silvestres, porque nelas reside ainda uma variabilidade adaptativa que as torna mais resistentes do que as suas contemporâneas domésticas.

Ao contrário do que o Marketing das grandes multinacionais apregoa, não é verdade que os híbridos F1 sejam plantas mais robustas do que as naturais. Eles parecem sê-lo sob condições estáveis muito estudadas, e devidamente assistidas por agrotóxicos (adubos, pesticidas, herbicidas…), vendidos normalmente por essas mesmas empresas. Corte-se com esse caldo químico esterilizante e ver-se-á a selva recuperar terreno.

Pã, também de seu cognome, “Sylvanus”, vencerá. Com silvos de meia-noite.

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