O olhar da gata assanhada

Diversos os contextos em que sou siderada pelo olhar, involuntário e talvez inconsciente, de uma mulher amante de seu par que, como um faroleiro no posto, emite sinais de luz (faíscas propriamente ditas), quando uma outra entra nas suas águas territoriais, com o intuito de desencorajar eventuais abordagens.

No entanto, esse silencioso e subtil plano de sentido, de fêmeas que mutuamente se topam e obstruem, sempre se desdobra quando levo, à frente delas, uma qualquer conversa insignificante de ocasião, rigorosamente desinteressada, com homens que nem por sombras fariam os meus desejos.

As mulheres ajuizam à medida dos seus meios e, desconhecendo o que a outras importa, falham ridiculamente em reconhecer a inocuidade de uma mera forma de socialização, aliás, tão parca e oca como o meu coração, que há muito se habituou a viuvar de todos os amores (sentimentais, profissionais, materiais…).

Ah, o impossível apego em particular. Sem deuses (especialmente, os humanos), levar uma existência tão desprendida quanto possível, em que todos os acasos se equivalem e todos os entes nos ensimesmam por igual.

Quando se deixou toda a esperança à porta e se entrou, o que pode ainda ter relevo? Outro igual? Ou o díspar por excelência?

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