‘Vita brevis, ars longa’

Francis Bacon, o filósofo seiscentista e não o pintor do séc. XX, inicia a sua Historia Vitae et Mortis com este latino adágio (ad agium, repouso): “Vita brevis, ars longa”.

Contudo, o mais contemporâneo Hermann Hesse atribui a Narciso, o sacerdote, uma longevidade superior à de Goldmundo, o artista, o que está de acordo com os dados conhecidos de longo curso, no contexto europeu:

Median age at death
 Period  Popes Artists
1200–1599 66.0 (59.0–72.0) 63.0
(51.8–71.3)
1600–1900 77.0 (69.0–82.5) 70.0 (60.0–79.0)

Source

No entanto, tal não me permite concluir que Hesse tem mais razão do que os Antigos Romanos.

Quer-me parecer que eles não entendiam o mesmo por “arte”.

Apesar de ser mais contemporânea de Hesse do que da Antiga Roma, não posso deixar de subscrever o dito adágio.

Sem arte, jamais a vida será longa.

E porque deve ser longa? Porque, na breve, cabe muito menos arte. Falta-lhe o tempo e a experiência necessários para atingir um certo grau de perícia.

Por isso, Hokusai (1760-1849), um dos maiores artistas de todos os tempos (a quem o cabeçalho deste blog presta modesta homenagem), que costumava assinar “Gakyō Rōjin Manji” (“Old Man Mad About Art”), antes de falecer com a bela idade de 88 anos, escreveu, no posfácio a One Hundred Views of Mount Fuji:

From the age of 6, I had a passion for copying the form of things and since the age of 50 I have published many drawings, yet of all I drew by my 70th year there is nothing worth taking into account. At 73 years I partly understood the structure of animals, birds, insects and fishes, and the life of grasses and plants. And so, at 86 I shall progress further; at 90 I shall even further penetrate their secret meaning, and by 100 I shall perhaps truly have reached the level of the marvellous and divine. When I am 110, each dot, each line will possess a life of its own.

Apesar de eu já ter lido isto uma dezena de vezes, faço-o sempre com renovada alegria e co-moção.

Ah, e sim, os Antigos Romanos e Hokusai estariam de acordo:

Vita brevis, ars longa…

When I am 110, each dot, each line will possess a life of its own…

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