Dourar a melancolia

Sou do tipo de animálculo que deveria hibernar durante todo o inverno para poder conservar a energia vital. Por esta altura, já teria começado a hibernia. Então, desapareceria por três meses numa cova qualquer e só emergeria na Primavera, quando a soberana fome e o canto das aves anunciasse o retorno do sol ao exterior. Durante a invernia, o sol, também ele, está noutro lugar. Passa do convexo ao côncavo do horizonte. Esconde-se cedo para se alojar nos interstícios, para magnetizar as artérias dos animais hibernantes, e consumir da sua cinza, do seu incêndio interno. É um sol vivo, ouro vermelho. A um ser, cuja stamina é tão dependente de estímulo pelo seu sol, a quem é difícil, na estação invernosa, suster-se de pé e expor-se ao recorte da luz (outra luz, outro sol) como uma imagem obsidiante, resta-lhe a noite, mas nenhuma noite é bastante e suficientemente profunda para dourar a melancolia. E esta não é mais do que um efeito sobre a figura de alguém que, desiludida sobre qualquer outro projecto, se votou a perseguir uma estrela.

Mas, hoje, na primeira parte do horizonte que todos os dias e noites têm, sobre mim pairou um arabesco triangular, como um sinal de Dionísio, o leve. Gradualmente, o universo torna-se geometria abstracta.

tiara

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