Pois tudo sem Silvano é viva morte

«Ao Pde. António Vieira por hum sermão que fez na rosa [Convento da Rosa] do nacimento de Nossa Senhora

Silva

Aspirar a louvar o incompreensível,
E fundar o desejo no impossível;
Reduzir a palavras os espantos,
Detrimento será de excessos tantos;
Dizer, do muito, pouco,
Dar o juízo a créditos de louco;
Querer encarecer-vos,
Eleger os caminhos de ofender-vos;
Louvar diminuindo,
Subir louvando e abaixar subindo;
Deixar também, cobarde, de louvar-vos,
Será mui claro indício de ignorar-vos;
Fazer a tanto impulso resistência,
Por o conhecimento em contingência;

Delirar por louvar o mais perfeito,
Achar a perfeição no que é defeito;
Empreender aplaudir tal subtileza,
Livrar todo o valor na mesma empresa.
Errar exagerando,
Ganhar perdendo e acertar errando.
Siga pois o melhor indigna Musa
E deponha os excessos de confusa,
Que, para acreditar-se,
Basta, basta o valor de aventurar-se;
E para vos livrar de detrimento,
Ser vossa a obra e meu o pensamento.
Pois não fica o valor aniquilado,
Sendo meu o louvor, vós o louvado,
Porque somos os dois, no inteligível,
Eu ignorante e vós incompreensível.»

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«Se apartada do corpo a doce vida,
Domina em seu lugar a dura morte,
De que nasce tardar-me tanto a morte
Se ausente da alma estou, que me dá vida?

Não quero sem Silvano* já ter vida,
Pois tudo sem Silvano é viva morte,
Já que se foi Silvano, venha a morte,
Perca-se por Silvano a minha vida.

Ah! suspirado ausente, se esta morte
Não te obriga querer vir dar-me vida,
Como não ma vem dar a mesma morte?

Mas se na alma consiste a própria vida,
Bem sei que se me tarda tanto a morte,
Que é porque sinta a morte de tal vida.»

– Violante do Céu (1601-1693).

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(*) Silvano, “o da silva” ou “o da selva”, deus latino que presidia às florestas e à natureza selvagem. Dolabella, um agricultor romano de que apenas algumas páginas são conhecidas, refere que Silvano foi o primeiro a colocar pedras a marcar o limite das terras, e cada uma tem três Silvani:

  • o Silvanus domesticus, também chamado, nas inscrições, de Silvanus Larum (ou Silvanus sanctus sacer Larum);
  • o Silvanus agrestis (ou salutaris), louvado pelos pastores;
  • o Silvanus orientalis, ponto onde toda a terra começa.

Fonte: Dolabella, Ex libris Dolabellae, in “Die Schriften der rômischen Feldmesser”, Karl Lachmann, Georg Reimer ed., Berlin, 1848, p. 302.

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