Breve história do écran

«J’ai besoin d’un écran, je n’ai pas besoin de Dieu, j’ai besoin d’un écran. Dieu c’est l’écran. C’est à dire que c’est mon plan de consistance (…), c’est à dire l’ensemble de toutes possibilités en tant que constituant le Tout de la réalité, et le constituant, le constitue nécessairement. L’unité du possible, du réel, et du nécessaire.»

– Deleuze, Cours, 02/11/82.

Grandes ou pequenos, os deuses e os homens fazem-se à medida da sua visão.

O primeiro écran terá sido a infinita tela negra do Espaço, onde contrastavam as luminárias e as figuras fulgentes das constelações.

Depois, as luzes caíram ao mar e, no errante écran planetário, miraram o seu reflexo paisagístico. Na superfície da água, os raios fizeram ricochete, devolvendo parcialmente ao céu fogos de artifício que ofuscaram as estrelas (como aquele sobre o Castel San Angelo, em Roma, cerca de 1600, pintado por Louis de Caulery).

Em simultâneo, surgiu a câmara obscura e, através do seu ponto de fuga, as imagens exteriores da realidade penetraram e projectaram-se nas paredes interiores de caves e bodegas, sob a forma negativa, e os artistas, decalcando as sombras e revirando as telas, usaram-no para fazer retratos mais realistas.

A seguir, esse realismo decalcado das sombras foi impresso num suporte (película, slide ou papel) e, não raras vezes, tomado por mais real do que o real.

Não passou muito tempo até que se montassem os decalques das sombras sobre um eixo accionado mecanicamente, dando a impressão de movimento. Surgiu o cinema.

Do écran gigante e público das salas de cinema, passou-se ao pequeno e privado écran doméstico (mesmo se é um plasma).

A pretexto de maior mobilidade e conveniência, os écrans foram sendo contraídos para dimensões cada vez mais reduzidas: historicamente, a televisão está para o cinema, como o “smartphone” ou “tablet” estão para o computador.

A tecnologia evoluiu a par de uma crescente miniaturização e privatização do suporte, assim como de uma cada vez maior compactação das três funções: produção, transmissão e recepção. Subversão da tese de McLuhan: há muito que a mensagem não é o meio, antes se identifica com o receptor-emissor (prosumer).

Estamos agora a um passo da generalização dos óculos electrónicos, transmitindo em contínuo uma realidade virtual que, ao contrário do que se diz, é menos “aumentada” do que “pormenorizada” (como o por-menor de um quadro), com toda a carga de distracção e perda da noção do conjunto que isso necessariamente implica. De qualquer modo, lentes de aumentação aplicam-se quando o objecto é minúsculo e não quando ele é maior do que o campo de visão.

Daí, passar-se-á à integração generalizada do suporte mecânico na carne animal, com a implantação de lentes biónicas e outros dispositivos similares permanentemente ligados a mega-redes invisíveis de comunicação, in-formação e con-formação sem fios.

A visão, como que sugada pelo furo de um funil, tem vindo a ser recortada por uma moldura cada vez mais estreita, e segue em direcção à nano-tecnologia, à ninharia em ponto minúsculo.

Quando atingir o ponto mais obscuro da mente, o ponto da mais completa substituição da luz neuronal por circuitos de “inteligência artificial”, enfim, a cegueira de Demodokos (“viga do povo”), talvez não lhe reste senão inverter a marcha no sentido da ampliação… Zoom out.

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