Devir pinguim

Reparar como o canto das aves muda após o solstício, quando os dias começam a aumentar. Os seus trinados soam mais irrequietos, mais excitados, mais incisivos também, como que manobrados pela maior intensidade do astro-rei.

Dou-me conta da relação imediatamente instintiva (ou adictiva?) que tenho com a voz, humana ou animal – como os pinguins, que, no meio de uma colónia de milhares, se reconhecem pelo piar de cada um.

Pode-se amar alguém só pela voz? Talvez seja preciso devir pinguim, com os seus semblantes negros sobre um palco de luz, procurando, procurando, procurando, na imensidão de clamores, o fio de som singular da sua parelha, que mantiveram gravado na memória durante horas, dias, semanas, meses, estações, a fio…

Encontrar a voz, como a uma força, independente da imagem por que se faz acompanhar, imagem que a nega e é tão dura de carregar… Fechar os olhos para impedir que a gravidade se sobreponha, e faça esquecer o caminho ligeiro que leva uma pessoa a procurar a singularidade, a sua alma gémea, num certo sentido.

Animula vagula blandula – ó voz de Adriano, quão pesada é a coluna de Trajano… Porque há-de a imagem trair-te sempre?

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