Silvestre


“Silvestre” (1981), João César Monteiro.

«- Dai-me armas e cavalos,
As guerras p’ra mim serão.

– Tendes cabelos compridos,
Irmã, conhecer-te-ão.

– Com tesoiras de talhar,
Cortados rentes serão.

– Tendes olhar acanhado,
Irmã, conhecer-te-ão.

– Quando eu esteja com homens,
Não porei olhos no chão.

– Tendes o rosto mui alvo,
Irmã, conhecer-te-ão.

– Nos três dias de caminho,
Estes sóis lo queimarão.

– Tendes os ombros erguidos,
Irmã, conhecer-te-ão.

– Sejam as armas pesadas,
Que os ombros descerão.

– Tendes os peitos mui altos,
Irmã, conhecer-te-ão.

– Encolherei os meus peitos
Dentro do meu coração.

– Tendes as mãos mui mimosas,
Irmã, conhecer-te-ão.

– Lá virá vento e chuva,
Qu’ elas se calejarão.

– Tendes largos os quadris,
Irmã, conhecer-te-ão.

– Vão debaixo dum saiote,
Homens nunca los verão.

– Tendes os pés pequeninos,
Irmã, conhecer-te-ão.

– Metê-los-ei numas botas,
Nunca delas sairão.

– Tereis medo nas batalhas,
Irmã, conhecer-te-ão.

– Eu saberei ser um homem
Com a minha lança na mão.

– Tomareis por lá amores,
Irmãs, conhecer-te-ão.

– Os que me falem de amores,
Bem caro lo pagarão.

– Tendes nome de mulher,
Irmã, conhecer-te-ão.

– Eu me chamarei Silvestre,
Por homem me tomarão.
Venham armas e cavalos,
As guerras p’ra mim serão.»

– Fala de Sílvia/Silvestre, adaptação de “A donzela que vai à guerra” (poema medieval) por João César Monteiro.

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