As ilhas afortunadas

Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que nos fala,
Mas que, se escutamos, cala,
Por ter havido escutar.

E só se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos,
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.

São ilhas afortunadas,
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos despertando,
Cala a voz, e há só o mar.

– Fernando Pessoa, “Mensagem”, 3ª parte: O encoberto, I – Os símbolos, Quarto: As ilhas afortunadas.

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Pour détruire les formes circulaires du sujet

This 15-minute footage is from a one-hour long interview that was conducted by the Dutch philosopher Fons Elders in preparation for the debate between Noam Chomsky and Michel Foucault, which was broadcasted on Dutch television on Sunday, Nov. 28, 1971. The whole interview was essentially lost for decades and was published in the winter of 2012 for the first time.

At the time of the interview Foucault held a chair self-titled “History of Systems of Thought” at the prestigious Collège de France. The exchange between Elders and Foucault, however, took place in Foucault’s apartment in Paris on Rue de Vaugirard on Monday, Sept. 13, 1971. The video was subsequently kept in the archives of a Dutch TV building which unfortunately burned. As a result, the fifteen minutes shown here is all that is left of the full interview footage. Thankfully, before burning, the whole interview had been professionally hand transcribed from the original French, and the rights had kindly been given over to Elders by Foucault himself at the time of the interview.

As might be noticeable to viewers, the Foucault “profile” presented here is a montage that puts together several parts of the whole interview. As such, it does not fully follow the original interview chronologically, putting together parts that work but which are not faithful to the natural flow of the live interview. To show wherever such interruptions to have taken place, ellipses were included (“…”) in the subtitles. For an unaltered flow of the interview, check out the book “Freedom and Knowledge”, edited by Elders.

«Je ne souhaite pas qu’au cours de l’émission télévisée que vous voulez bien me consacrer, une place soit faite à des données biographiques. Je considère en effet qu’elles sont sans importance pour le sujet traité.»

C’est cet encart, tapé à la machine, qui introduit cette interview, quasiment inédite, de Michel Foucault.

[2:50] Society’s rationalization

[3:40] Knowledge as exclusion

[4:40] “The universalité de notre savoir a était acquis au prix des exclusions”

[5:20] Archaeology of knowledge

[7:00] Structuralism

[9:10] Systems of relations, structuralistm, questioning of the sovereignty of the subject, drug experience

[11:20] Personal life, the expression of individuality, humanism as imprisonment of man controlled by the sovereignty of the subject

[14:00] “Je ne dis pas les choses parce que je les pense. Je dis les choses pour ne plus les penser”

[14:25] “Je ne crois pas, si vous voulez, aux vertus de l’expression. La langage qui m’ intéresse c’est celui qui peut détruire justement toutes les formes circulaires, closes, narcissiques, du sujet” = “disparition de l’homme”, “Cette figure est en train de disparaître”

Nymba Ntobhu


“Nymba Ntobhu” [“House of women”], Maweni Farm Documentaries, Mgongowazi project, Kiagata village, Musoma, Tanzania, 2004.

[26:00]

«As men, we must treat wives so well that our daughters don’t fear to get married [choosing “Nymba Ntobhu”, instead]. When you marry a woman, she is not a donkey to be beaten.»

Uns e zeros

A luz que se decompõe em uns e zeros, gémeos na sua sombra caricatural. E, no um, há ainda um pouco de zero (caracóis, olhos abertos), e, no zero, há ainda um pouco de um (cabelo liso, olhos semicerrados) – a recta e a curva estritamente complementares:

Auto-retrato de Almada Negreiros com Sarah Afonso, desenho sobre papel vegetal do filme “O naufrágio da Ínsua” (1934).

Isto não são árvores

Morava num jardim à beira-rio plantado. Morava no bairro com a arborização mais abundante e bela da cidade. Recentemente, quando a Junta foi ocupada por uma nova equipa de autarcas e estes prometeram a “reabilitação” dos espaços verdes, previ o pior e eis que aconteceu: o arvoredo foi massivamente assassinado por cortes rentes e podas drásticas. Em simultâneo, a fracção da conta da água que o residente paga ao Estado para regar os parques duplicou.

Foram-se as árvores, ficaram só umas unhas roídas fingindo ser algo que não são: “Natureza” (com muitas aspas cortantes). É o que dá colocar-se, à frente do Pelouro do Ambiente, roedores, ou sem formação adequada, ou legitimados por uma formação retrógrada na área. Eles, sim, é que deviam ser “podados” desses lugares. As árvores não precisam de ser “reabilitadas”, os ignorantes é que precisam de ser reabilitados. O maior cepo aqui é humano e não vegetal.

Consequências da poda:

a) Mais pólen no ar
Uma árvore submetida a corte agressivo reage com mais floração e divisão de ramos (ainda que enfraquecidos), produzindo mais pólen e afectando ainda mais os que a ele são alérgicos.

b) Enfraquecimento
A remoção de ramos cobertos de folhagem ou da copa completa da árvore (poda drástica) reduz a capacidade de fotossíntese e a captação de nutrientes pelo vegetal, além de o desprover das reservas energéticas armazenadas nas suas células. Fica mais vulnerável a doenças e pragas.

c) Apodrecimento
O corte de ramos de grande espessura facilita a penetração de fungos e insectos, e a instalação de necroses profundas.

d) Deformidade
Árvores mutiladas são inestéticas, desproporcionadas (com múltiplos brotos enfraquecidos a sair dos cotos cortados), sem a beleza e naturalidade características da espécie.

e) Queda
Durante o crescimento, a árvore posiciona adaptativamente os ramos de acordo com os ventos que se fazem sentir naquele local, para se manter equilibrada. Cortar ramos principais interfere com o sistema de equilíbrio de forças que a própria árvore construiu, aumentando o risco de queda.

f) Morte
Uma árvore, já fraca e doente, repetidamente podada, tende para a morte, com toda a despesa de substituição dos arvoredos que isso implica para as autarquias, pago, é claro, pelo contribuinte.

g) Aumento da poluição
Arvoredos reduzidos, mais poluição. São as folhas que oxigenam o ar e consomem o dióxido de carbono.

h) Desertificação do solo e aquecimento da atmosfera
Menos árvores saudáveis, no seu pleno funcionamento, significa menos humidade retida nos solos e menos dióxido de carbono atmosférico absorvido, logo, ambientes mais sufocantes e mais propícios a fogos (a estupidez que é “limpar terrenos” cortando árvores para prevenir incêndios!). Ponham-se ao sol do meio-dia numa floresta húmida e num deserto sem árvores, aonde é que tudo “assa” mais rapidamente?

Poda drástica é proibida e gera multa