Ar e areia

Fiz questão de ir, na qualidade de observadora parcial, ou, mais propriamente, de julgadora dos juízes, mas sabendo de antemão que não havia nada a esperar.

Olhando demoradamente para o meu painel de avaliadores, percebi logo que não simpatizava com aquele tipo de pessoas, de rosto enfiado e ideias fixas, nem com o cargo (ou a carga) que elas ocupam, nem com o seu método (que é, de tudo, o pior).

Que estava então eu ali a fazer? Era preciso ter vindo para melhor saborear o erro. O erro! Não valorizo a margem de erro que o mecanismo não tem? Ele que, desde o início, foi produzido e comercializado como purga do erro humano (Babbage). Mil vezes mais pobre! Deitando fora o erro, deitou-se também o bebé com a água do banho. A vida como errância. O planeta que, por definição, é um astro “errante”.

Em relação aos meus erros, sou como a gata branca selvagem que entendeu fazer do meu quintal a sua cama de parto: uma mãe extremosa.

E os seus erros, os da gata, que ela carinhosamente acoberta com o seu corpo, parecem uma sequência pitagórica: primeiro, um branco; depois, dois negros; por fim, três dourados. Nascidos neste Junho, na véspera do dia 20, às 20h, numa Segunda-feira, no segundo dia após Quarto Minguante, e o último dia antes do solstício de Verão.

Quanto aos meus, estão, na realidade, mais próximos dos felinos do que daqueles internos domésticos que procuram homogeneizar todo o mínimo desvio que os seus olhos escrutinem. Que digo – desvio, um clinamen? Ah, ah, ah… Isso já seria muito! A sua atenção recai sobre furúnculos apenas.

A parte graciosa deste processo é que, a partir de amanhã, não haverá mais ilusões. O autêntico mestre dorme um sono sem sonhos. Olhos tomados de projecções internas, não dançam, não escutam, não são olhos de animal.

Raros são os seres humanos vivos que ainda celebram os sentidos anímicos, como os índios a animalidade dos seus totems – e, não por acaso, os envergavam à cabeça (no lugar de cabeça?) durante as danças protectoras.

A verdade é que os mais sensíveis autores (Nietzsche, Pessoa, Kafka – para só referir três), todos se desviaram, enfastiados, da impotência. De certo modo, ainda se desviam…

Sim! O Axis Mundi, a Anima Mundi, vivem ainda! Escrevamos a sua continuação. E deixemos aos coleccionadores de estruturas fechadas e mortas, o pó que o curso do vento levantou.

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